Pensando e vivendo a transformação

Lenise M. Brandão

É tarde. O tempo está deliciosamente quente e lá fora as árvores balançam ao vento sob um céu muito azul. Pássaros cantam e o meu corpo descansa preguiçoso, enquanto absorve todo este momento.

Penso em transformação. Esta foi a temática básica sob a qual um grupo de 150 pessoas, vindas de diferentes partes do mundo, se propõs a refletir numa convivência intensa durante uma semana. Sementes caindo no solo fértil de uma fazenda. Mais do que uma reflexão inócua ou intelectualizante, esta foi uma vivência de transformação, sentida pelos integrantes do grupo separadamente e pelo conjunto das pessoas como um todo. Uma intrincada teia em que processos individuais se mesclaram entre si e com o processo do grupo.

Para alguns esta vivência pode ter significado o pico de um caminho cuidadosa e conscientemente seguido até então, o momento de um desabrochar. Para outros, a abertura de uma janela com a visão do horizonte para o qual se passa a ter a certeza de querer caminhar. De uma forma ou de outra uma vivência que marcou um ponto de mutação.

Assim foi que o grupo viveu perdas e separações, viveu a tristeza da morte e a solidão em vida. Viveu também a esperança e a busca de realização do amor na vida. Duas noites depois, tive um sonho: um pombo caiu morto junto porta pelo lado de dentro, impedindo-me de abri-la e sair. Eu relutava em pegar e remover dali o animal morto e, consequentemente, permanecia sem poder sair.

O quanto e necessário lidarmos com mortes, com todo o mal estar e com toda a dor que elas nos causam, para prosseguirmos a vida. Ponto de perdas, de momentos ou de ligações, que precisam ser ultrapassados e/ou redelineados dentro de nós para nos abrirmos para novos momentos e desobliterar-mos o fluxo de nossas vidas. Ocorreram no grupo também dúvidas sobre como seria o novo após a morte, como daríamos seqüência à ACP sem o Carl e a Rachel. Conseguiríamos sobreviver ou nos descaracterizaríamos enquanto grupo, perderíamos a nossa identidade? Este parece ser um receio presente de forma aguda ou subliminarmente quando nos deparamos com uma mudança em nossas vidas — o medo de nos perdermos nesse processo de transformação, de transfiguração.

O novo caminho traz novas situações. Teríamos condições de lidarmos com e passarmos por elas de uma maneira adequada e satisfatória? Poderíamos ou não nos reorganizarmos internamente, mantendo a nossa integração e consistência? E começamos no grupo a discutir poder. Como ficaria este poder nas nossas relações? De que forma desejávamos que o poder fosse utiliza do entre nós? Quem teria a palavra, a voz? Quem queria ouvir e ser ouvido, fazendo-se presente naquelas relações?

Como bem observou um de nós, o grupo viveu primeiro um momento

feminino – com sentimentos de perda e dor; depois, o momento masculino – de discussão do poder para num terceiro momento viver o lado da criança, podendo rir e fazer brincadeiras entre seus membros, na tentativa de integração simbólica de seus opostos, das suas diferenças, do seu lado Ying (as mulheres) com o seu lado Yang (os homens). Integração que faz parte de todo processo de transformação.

Este terceiro momento ficou bem representado quando, na abertura do grupão no quinto dia, um casal comemorou o seu aniversário de casamento – o Ying e o Yang se encontrando. A partir dai, as crianças, os frutos uma integração, puderam surgir e o grupo viveu um clima alegre e descontraído com a brincadeira do “correio elegante” que um grupo de mulheres resolveu fazer com um grupo de homens.

À noite, este mesmo tema simbólico se repetiu, quando os subgrupos das mulheres e dos homens se formaram separadamente, para depois se integrarem numa mesma dança, num mesmo movimento, repetindo ao nível humano a dança cósmica da integração.

Quantas buscas de integração, de complementação devem ter se dado nestes sete dias. Completar-se a si mesmo, buscando uma totalidade, uma vivência atualizadora de si, onde os movimentos de interiorização (para dentro) e expansão (para fora) se mesclam harmoniosamente num movimento maior de avanço e crescimento (para frente).

Buscar partes escondidas e esquecidas de si, descobrir-se, desprender-se de pesos e partes mortas em si num processo de remover todo o seu interior. Completar-se no outro através do que o outro está sendo ou buscando ser neste momento, projetando-se no projeto do outro, por este ser também o seu próprio projeto.

Buscas que se entrelaçam, se reforçam e se complementam, levando-nos juntos um passo mais a frente.

Eu me transformo,

Tu te transformas,

Nós nos transformamos e

Eles se transformam.

Publicado no Boletim da ACP – São Paulo – no. 9 – Verão 89/90