Poder, autoridade e conflito na ACP:Novos horizonte ou mais fantasias?

Jaime Roy Doxsey

Não é que a abordagem dê poder à pessoa, ela nunca tira (Rogers, 1978)

“O primeiro de todos os bens não é a autoridade, mas a liberdade. O homem verdadeiramente livre quer somente o que pode e faz o que lhe agrade”. (Rousseau, 1972)

Este pequeno trabalho pretende ser um ensaio reflexivo sobre uma das controvérsias da Abordagem Centrada na Pessoa. Como praticante da Abordagem, não me excluo das críticas ou das observações que faço de nossos profissionais, nossos comportamentos interpessoais, nossos sucessos e fracassos na prática dessa Abordagem. Convido o leitor também para refletir e criticar. Somos todos parte do mesmo problema.

Li recentemente uma dissertação sobre poder, uma tentativa de síntese das teorias psicológicas e sociológicas mais modernas. A primeira reação foi de questionar o autor se poderia conceber “poder” em termos positivos, tendo em vista suas posições altamente criticas, sobre o tópico. Perguntei se ele havia percebido o negativismo constantemente. Expresso em cada página. Sua resposta foi que realmente não conseguiu configurar o exercido do poder de uma forma positiva.

A segunda reação minha foi de refletir sobre “poder”, as tentativas de conceituar poder dentro da Abordagem Centrada na Pessoa e de como o poder às vezes se manifesta entre as pessoas que mais conheço e admiro na Abordagem.

P.Natiello (1990) escreveu um excelente artigo infelizmente inédito: “A abordagem centrada na pessoa – poder colaborativo (sic?) e transformação cultural”. Afirma que produziu o trabalho baseado na crença que poder sobre os outros ou o poder autoritário é a principal orientação política no mundo. Acha que este valor nos tem levado a beira da destruição, e que mudanças na definição e na função de poder são centrais à transformação social.

Na sua opinião, a visão do poder na Abordagem Centrada, na Pessoa é radicalmente diferente, e “oferece uma nova moralidade (ética) de poder, bem cone uma metodologia para chegará essa nova moralidade” (pag. 1)

Poder

As definições do conceito de poder são variadas. O Novo Dicionário Aurélio da Língua Portuguesa (1986:1351) apresenta vinte e oito. A palavra tem raízes no Latim “posse” e no Francês “pouvoir” – de ser capaz.

Agrupamos algumas das definições no quadro abaixo:

Quadro 1

Poder de agir
Ter faculdade de, capacidade, aptidão; ter possibilidade de
Ter oportunidade, meio de.

Poder para agir
Ter força de ânimo, energia de vontade, força para;
Ter vigor, robustez ou capacidade para agüentar, suportar.

Poder sobre
Ter autoridade para;
Ter grande influencia ou pode sobre;
Direito de deliberar, agir e mandar;
Autoridade, soberania, império;
Domínio, força.

Poder como qualidade
Eficácia, efeito, virtude;
Ter calma, paciência, para.

Pode “sob”
Estar arriscado a ou exposta a.
As definições classificadas nas categorias “poder para agir”, “poder de agir” e “poder como qualidade” são positivas. “Poder sobre” também é considerado de forma positiva, dependendo dos processos de sua legitimidade e sua forma de exercício.

Natiello descreve poder como “energia que permite as pessoas agir, causa ou impede mudança, aumenta suas satisfações ou a possibilidade de alcançar suas metas. Poder é absolutamente vital para todos nós. É através do exercício do poder que somos capazes de cuidar de nós mesmos, dirigir nossas vidas, crescer, sobreviver. Em si mesmo, poder não é bom nem mal, mas sua prática possivelmente conduza à destuição ou ao crescimento criativo (pág. 1-2)

Poder Autoritário

Autoritarismo tem um contexto histórico/político muito especial no Brasil. Permeia desde conceitos mais tradicionais do Estado, da política dos sistemas institucionais até os papéis sociais das “figuras” de autoridade, as relações familiares e conjugais. Características da personalidade autoritárias são ainda hoje confundidas como traços de liderança, produtividade, eficiência, responsabilidade.

A política de poder na história humana é basicamente explorativa e destrutiva – “fundada na crença que poder é uma força coerciva exercida sobre a terra e os demais, em vez de que urna energia criativa que utilizamos para o nosso próprio bem…” (pag. 3).

De acordo com Natielio, as relações que se desenvolvem em culturas com a perspectiva autoritária são assim caracterizadas: a) pela crença que alguma pessoa, nação, grupo político ou econômico, raça ou sexo é superior ao outro; b) pela opinião que o participante inferior na relação precisa ser controlado, manipulado ou dirigido; c) pela dominação e subordinação; d) pela competição em vez da cooperação (pag3)

Na opinião de Natiello, as relações bancadas em dominação e subordinação resultam na desconfiança, competição e medo de perder controle por parte do grupo “dominador”, ao mesmo tempo que os “dominados” desenvolvem uma auto-estima baixa, a perda da potencialidade social, econômica e pessoal, raiva, desespero e inquietação. A menção da palavra poder induz essas imagens de coerção, violência e dominação. Por causa disso, ela acredita que a maioria de nós que são a favor de relações igualitárias rejeitam o conceito de poder em qualquer forma.

Poder Colaborativo

O trabalho de Natiello explora um novo paradigma de pode – o poder colaborativo (collaborative power) – um conceito de poder difícil de discutir porque a linguagem contém certas associações que não representam esse poder de uma forma adequada (1990: 5). Em resumo, apresenta uma concepção de um poder sinergético, mais humano, definido por vários autores (3) como a capacidade do individuo ou grupo para aumentar a satisfação de todos os participantes através de processos que intencionalmente geram o aumento de energia e de criatividade.

“Tal ‘capacidade’ inclui a influência e o comportamento impactante de participantes diferentes no sistema em momentos variados. … não se nega a necessidade para a sabedoria da experiência, da aprendizagem e da idade, nem os recursos das pessoas com uma visão excepcional. … Essas qualidades não são atribuídas ou relegadas a pequenos números de pessoas. São antecipados como inerentes na singularidade e na individualidade de cada pessoa e respeitados quando e onde emergem” (pag. 6).

Numa relação de poder colaborativo as características predominantes são opostas aos padrões das relações autoritárias, um poder compartilhado participativo, onde cada pessoa tem a possibilidade de ser ouvida, de responder as necessidades dos outros e de influenciar o processo coletivo de sua própria maneira.

O processo grupal é um processo de influência alternada – o impacto do processo muda de uma pessoa para outra como resultado de uma autoconsciência intensiva, da sabedoria, experiência ou necessidade expressa de cada um (Natielio, 1990:7).

Esse conceito de poder é coerente com os pressupostos da Abordagem Centrada na Pessoa. E eqüidistante de um poder individualista e de um poder coletivo onde o individuo se submete ao bem coletivo, um poder complexo, um modelo de poder que emanada autenticidade e qualidade da relação, que emerge da comunicação, de uma consciência crescente da solidariedade mútua em construção.

Não sabemos muito de suas implicações institucionais ou macro-sociais. Mesmo porque, ainda não praticamos tal poder na sua plenitude nas próprias relações da Abordagem.

Poder na Abordagem Centrada

Por falta de espaço aqui, não pretendo explorar as confusões e as interpretações teóricas errôneas (em relação ao poder) da Abordagem Centrada na Pessoa, fora ou dentro dela Tais interpretações se concentram principalmente nos questionamentos da não-diretividade, do papel e do poder do facilitador, terapeuta ou professor (a figura de autoridade) da ACP.

É interessante notar, no entanto, a freqüência que profissionais da Abordagem teorizam sobre “o não abandono do poder”, a necessidade de reconhecer o saber, a experiência, o papel, a função legitima (a autoridade?) do psicólogo / professor / facilitador (Ao me pronunciar uma vez sobre a importância da postura não-diretiva para romper vínculos de dependência na sala de aula, fui taxado de radical por um educador da própria Abordagem)

Apesar do fato de Carl Rogers ter sido conduzido, por alguns evento e processos mundiais no final da sua carreira a confrontar aspectos interpessoais, institucionais e internacionais da política e do poder, não será lembrado por ter postulado posturas críticas em relação ao poder autoritário. Preferiu descrever a política da Abordagem Psicoterapêutica Centrada-no-Cliente, mais tarde conhecida como a Abordagem Centrada-na-Pessoa, como sendo parte de uma revolução silenciosa.

Para Rogers (1978), o constructo da palavra política “adquiriu um novo conjunto de significados” que resultou na reavaliação de “todo o meu trabalho” (pag. 14-15), Tinha percebido, embora de uma forma tardia, que as implicações de sua abordagem transbordavam da micro-relação interpessoal terapêutica para a gama das relações entre as. pessoas e a sociedade como um todo, de uma forma abrangente e todo inclusivo.

Sua contribuição histórica maior, concentra-se na dimensão micro-social: propôs e sustentou a possibilidade da localização e manutenção do locus do poder na pessoa do cliente, do aprendiz.

“Política, no uso psicológico e social atual, refere-se a poder e controle: o grau em que a pessoa deseja, tenta obter, possuir; compartilhar ou delegar poder e controle sobre outros e/ou si mesma. Refere-se às manobras às estratégias e táticas, intencionais ou não, pelas quais tal poder e controle sobre a própria ida e a dos outros é procurado e obtido – ou compartilhado, ou abandonado. Refere-se ao locus de controle de tomar decisão quem toma decisões que, consciente ou inconscientemente, regulam ou controlam os pensamentos, sentimentos ou comportamentos de outros e de si mesmo; Refere-se aos efeitos dessas decisões e dessas estratégias, seja procedendo de um indivíduo ou de um grupo, seja dirigido para obter ou a abandonar o controle sobre a própria pessoa, sobre os vários sistemas da sociedade e suas instituições.

Em resumo,é o processo de obter, compartilhar ou abandonar poder, controle, tomada de decisões, “o processo de interações e efeitos altamente complexos desses elementos, da forma como existem nas relacionamentos entre pessoas, entre uma pessoa e um grupo, ou entre grupos” (Rogers,1978: 14).
E com bastante clareza e força que Rogers se pronunciou a favor de um poder pessoal que rompe com as formas opressivas de controle externo e interno.

As Multifaces das Relações de Poder na Abordagem Centrada na Pessoa

Entendo toda a relação humana como uma relação de poder, inclusive as relações entre pessoas e grupos dentro da Abordagem.

Encontros, fóruns, grupos de vivência, cursos e outras reuniões de profissionais vinculados à ACP são oportunidades de observar a variedade de opiniões e interpretações existentes entre esses profissionais. Há conflitos e discordâncias produzidas por essas diferentes experiências e teorias. Parte da riqueza da ACP está vinculada à possibilidade de troca – a exploração das diferenças e semelhanças existentes.

A dinâmica mais comum nesses encontros é a reunião aberta, o grupão, onde os envolvidos vivenciam a estruturação e manutenção de um processo grupal, característica do enfoque humanístico e centrado. A experiência é conflituosa, emocionante amorosa e ameaçadora. Nem sempre somos satisfeitos, felizes ou necessariamente convencidos que foi válida.

Há, portanto, poderes implícitos e explícitos revelados nessa dinâmica: o poder de organizar esses eventos, o poder de participar ativamente, o poder de influenciar momentos críticos do processo grupal, o poder de facilitar, ajudar ao outro, o poder de envolver-se e comunicar-se de formas valorizadas pela Abordagem e seus praticantes: a autenticidade, a congruência, a aceitação incondicional do outro e da realidade do grupo, o poder de acreditar nesse processo na sua validade como procedimento humano.

Como em todos os grupos humanos, as necessidades básicas de identidade (quem sou eu neste grupo, o que posso controlar e receber?) e de relacionamento significativo (quem me aceita e me valoriza aqui, quem me aprecia, me respeita, quem me quer neste grupo?) se misturam com a necessidade de sentir que o individuo tem algum controle (poder) sobre o que acontece no grupo, e a ele(a), no grupo. Essas necessidades são interrelacionadas. À medida que tenho identidade definida no grupo, um lugar um relacionamento significativo, posso participar, posso interagir sem manipular ou ter medo de manipulação pelos outros. Meu poder pessoal me permite “ser” e “estar” no coletivo, de colaborar, de produzir e de criar, sem chamar atenção, sem dominar a fala dos outros, sem criticar constantemente o que o grupo faz ou não faz.

A busca de satisfazer essas necessidades básicas nem sempre é processo tranqüilo, Competimos, julgamos, criticamos, brigamos. Enfim, reproduzimos os mesmos comportamentos destrutivos comuns a todos os grupos humanos. Na linguagem da psicologia social, desempenhamos funções socialmente negativas. Agimos sobre o outro, sem ouvir sem compreender, sem aceitar esse outro e seus processos interiores. Num bom grupo de trabalho ou de vivência, este comportamento negativo é examinado por nós e pelo grupo. O “espelho” do grupo é levantado, dando-nos a oportunidade para uma auto-avaliação, uma autocrítica sobre as nossas reais intenções e necessidades. Esse feedback nos abre a possibilidade de mudança, da transformação intra- e interpessoal.

Mecanismos inerentes no processo do grupo criam e recriam condições para expressões do poder pessoal e do poder colaborativo do grupo. Avançamos.

Infelizmente, nem todas as relações ocorrem nas condições necessárias para desencadear esse processo coletivo (e corretivo).

Acredito que um dos problemas mais sérios que temos com o poder está associado a questão da institucionalização: a) das nossas relações de trabalho, b) da produção científica para o avanço da Abordagem enquanto ciência, bem como, c) da seleção e preparação adequada e continuada de profissionais na ACP.

Quem fala pela Abordagem Centrada na Pessoa? Quem é considerado legitimamente “da Abordagem”? Como é que reconhecemos as competências, validamos experiências, dispensamos favores e recompensas? Quais os processos de reconhecimento e aceitação dos nossos aprendizes? Permitimos lideranças? Temos autoridades? Quais são as nossas lealdades?

Ou somos todos iguais? Todo o mundo sabe tudo? Todos são trajados iguais?

Se acreditamos em grupos, em processos grupais fortes, na potencialidade do coletivo para resolver problemas complexos, criar condições terapêuticas que possibilitam a transformação, porque não aplicamos essas crenças para estabelecer grupos permanentes? Somos críticos e descrentes quanto à necessidade de formar organizações e contrários à institucionalização da Abordagem em si.

Na pratica, no cotidiano das poucas instituições, centros, núcleos e associações existentes temos produzido e sofrido os mesmos conflitos comuns a todos os grupos organizados permanentemente. O poder institucional às vezes é um poder pouco colaborativa, pouco participativo.

Nossas “fofocas clínicas”, “malhações” e diagnósticos sofisticados de problemas dos outros são tão destrutivos quanto as restrições profissionais que colocamos para realizar trabalhos juntos, formar equipes e comissões, convidar colegas e conhecidos para cursos e eventos.

“interessante refletir sobre a noção da verdade como empregado por Foucault (1989): “Por ‘verdade’, entende-se um conjunto de procedimentos regulados para a produção. … a repartição, a circulação e o funcionamento dos enunciados” (pag, 14).

Como é que a Abordagem Centrada na Pessoa, no Brasil e no mundo, estabeleceu seus procedimentos regulados para garantir a sua verdade? A Abordagem tem o poder da verdade? Quem se responsabiliza ou torna conta disso?

Para Foucault, “o problema não é mudar a ‘consciência’ das pessoas, ou o que elas têm na cabeça, mas o regime institucional de produção da verdade” (pag. 14). Nesse sentido, ao optar pelo regime não-instucionalizado de produção (e de reprodução principalmente) da verdade, escolhemos legitimar as redes interpessoais e ocultas de poder para cuidar da Abordagem Centrada na Pessoa.

Estamos livres do poder institucional formal e subordinados de uma certa forma a outro tipo de poder. Os nossos únicos representantes e autoridades reconhecidos estão mortos?

Precisamos questionar mais conscientemente porque os mais diversos grupos não-governamentais conseguem constituir redes de relações horizontais dinâmicas para comunicar e compartilhar informações, buscando agir mais coletivamente, ao mesmo tempo que a Abordagem Centrada na Pessoa e seus praticantes apenas lamentam a ausência de um esforço mais unido. Precisamos estar atentos às formas ocultas que o poder e as relações de poder se manifestam entre nós. tanto nos grupos quanto na vida cotidiana.

E finalmente, concordando com Foucault: “Não se trata de libertar a verdade de todo sistema de poder – que seria quimérico na medida em que a própria verdade é poder – mas de desvincular o poder da verdade das formas de hegemonia”.(pag 140. Me pergunto o que eu posso? O que eu posso fazer para evitar ser parte dessa hegemonia? O que eu posso buscar ser parte, de uma forma mais expressiva, de um poder verdadeiramente colaborativo?

(1) Trabalho apresentado no VII Encontro Latino-americano da Abordagem Centrada na Pessoa, Maragogi, Alagoas. Outubro. 1994.

(2) Sociólogo: PhD – Professor Adjunto da Universidade Federal do Espírito Santo, Vitória, ES. facilitador de grupo, consultor em pesquisa social, diagnóstico institucional.

(3) Craig e Craig 1979, May, 1972; Freire, 1981; Rogers, 1977; Mische, 1979, Eisler 1987.

Referências Bibliográficas

Craig J. & Craig, M. Sinergic Power California: Pro Active Press, 1979.

Eislei, R. The Chalice and the Blade, San Francisco: Harper&Rou 1987.

Fouicault M. Microfísica do Poder RJ: Graal, 1989.

May, R. Power and Innocence. New York Nortofl, 1972.

Mische, P. “Women and power” New Age Magazine. 1979.

Natiello; P. “The person-centered aproach: Collaborative Power and Cultural -Transfomation”. (Trabalho inédito), 1990.

Rogers, CR. Sobre o Poder Pessoal S.P.: Martin Fontes, 1978.

Publicado no Jornal da Abordagem Centrada na Pessoa – Associação Rogeriana de Psicologia – Rio de Janeiro – dezembro 1995 – p. 6 e 7.

Trabalho apresentado no VII Encontro Latino-americano da Abordagem Centrada na Pessoa, Maragogi, Alagoas. Outubro. 1994.