PSICOTERAPIA DO IDOSO NUMA ABORDAGEM HOLÍSTICA

Maria Rizza de O. Magnani

Introdução:

Começarei com o relato do processo de uma cliente minha, atendida em 1980. Tratava-se de uma situação especial: era a primeira cliente que atenderia numa idade mais avançada (74 anos) e o problema apresentado também era novo para mim: “cegueira psíquica”. Acrescia-se ao quadro uma depressão muito acentuada, idéias suicidas, perda do sentido da vida, problemas esses mais comuns em clientes que procuram psicoterapia. Ela me fora indicada por um irmão seu que, na época, era meu cliente. Por se tratar de uma faixa etária em que eu não estava ainda acostumada a trabalhar, fiz anotações de todas as sessões, registrando os aspectos que me pareceram principais em termos de acompanhamento do processo. Assim, a história foi reconstruída e as anotações podem estar contaminadas pela seletividade de minha percepção. Entretanto, os resultados, em termos das mudanças obtidas pela cliente são absolutamente fiéis aos seus próprios relatos, às minhas observações e aos relatos de seus familiares.

Os nomes foram trocados por questões de sigilo.

O caso de D. Ana

Desquitada. Sem filhos. 74 anos. Escolaridade primária mas um nível de conhecimento geral muito além da média. Inteligente e dotada de aptidões artísticas (costura fina, confecção de flores artísticas, piano).

a) Diagnóstico médico: “cegueira psíquica” – (estado clínico geral muito bom, compatível com sua idade).

b) Quadro apresentado: P. não enxergava nada em casa: não conseguia ler, ver televisão e, progressivamente, nem se locomover. Não conseguia vestir as próprias roupas e tomar banho sozinha. Incapacidade completa. Os exames clínicos não indicavam alterações visuais anormais a não ser aquelas decorrentes da idade. Profunda depressão e desejo constante de permanecer deitada. Idéias suicidas.

c) Conduta inicial da terapeuta: visita domiciliar à paciente que concordou em recebê-la.

d) A T. é recebida pela irmã, Lúcia, que, após os cumprimentos e apresentações, vai logo dizendo: “A Ana tá essa coisa aí, parada, pateta, diz que não enxerga, não faz nada. Eu é que faço tudo. Sou quase da idade dela, vou sozinha ao supermercado, ando, lavo cozinho. (Pela maneira de falar – Lúcia é muito “elétrica”- percebo que é ela quem manobra e domina o ambiente).

e) A sessão com a cliente: 1a. sessão:

Após o “rapport” pergunto à cliente o que se passa com ela.

D. Ana: não consigo enxergar nada. É tudo nublado, não consigo ver televisão nem ler revistas. Cozinhar, que é coisa que eu gostava muito, não consigo também. A Lúcia não deixa. Ela é muito implicante comigo. Não faço mais meus bordados. Sou hoje uma pessoa imprestável. Devia mesmo era morrer. Criei 6 irmãos. O João (meu cliente já citado) era o mais novo e dormia no canto da minha cama. Eu era até chamada a mãe número 2. E hoje estou esse “trem”. Só preciso mesmo é morrer. Mas Deus não quer me tirar. Se tivesse um revólver daria um tiro no ouvido. E eu sei atirar muito bem. Meu pai me ensinou quando eu era menina. (Percebo aí uma ameaça de suicídio. Nesses casos oriento à família para que tenha os devidos cuidados com a paciente. Prefiro essa atitude à aquela de interpretar como manipulação ou coisas do gênero. Pesquisas mostram que o suicida sempre dá alguma forma de aviso ou pedido de socorro e nós, muitas vezes, por descuido ou deformações profissionais de interpretar, não sabemos entender.)

T: A senhora se sente profundamente triste por não estar agora em contato com a força que sempre teve para criar uma família, após a morte de sua mãe. A senhora não quer de forma alguma viver dessa maneira limitada… (Procuro aqui, não desconhecendo os sentimentos fortes de perda de habilidades, de enfraquecimento do ego da cliente, ressaltar a força vital que ainda percebo, através da aquiescência dela em me receber e mesmo na disposição de falar de suas experiências de vida. Há uma força de vida no desabafo).

Segue-se um desenrolar de fatos pregressos, relacionados à vitalidade passada comparada à desvitalização e mesmo inutilidade presentes.

Percebo, pela flacidez e secura de sua pele, pela baixa energia, pela aridez já sentida no ambiente familiar que um contato físico, uma massagem no rosto, extremidades – pés e mãos – poderia ser eficaz, como forma de comunicação num nível além do verbal, como toque afetivo, como revitalização e reequilíbrio energético. Proponho e ela aceita.

São cerca de 20 minutos de massagem, enfatizando a região do plexo solar, na sola dos pés. Ao final da massagem ela tem uma expressão suave, sorri levemente e me agradece…

Despeço-me e combino de voltar no dia seguinte.

Observações: Parece-me, na dinâmica familiar, que Lúcia tomou o lugar de Ana. Percebo a disputa de lugar da irmã mais nova (a segunda) com a irmã mais velha que tinha um lugar muito especial na família, em virtude de ter cuidado dos irmãos por causa da morte da mãe, no parto de João. Inveja infantil e que, agora, chegou o momento da desforra. Lúcia é uma pessoa com grande dificuldade de expressão de sentimentos. Quando tento refletir qualquer sentimento que ela expressa (raiva, tristeza ou outro) desqualifica de tal modo como assim: – “aquela lâmpada do abajur está queimada “. Totalmente externalizada não admitindo nada que se refira a seu eu.

Ambiente familiar: amplo apartamento de fundos, no centro de BH, cimento e barulho por todos os lados. Aí vivem três pessoas idosas: Ana (74), Lúcia (72) e Vanda (63). A segunda é a que cuida e comanda a casa e a última é funcionária pública, trabalha fora o dia todo. Carlos (45), separado, mora aí também mas não se envolve, é como uma visita. É totalmente alheio (ou parece ser) ao que se passa no ambiente. Em resumo: as pessoas que vivem nesse contexto são estanques, pouco se comunicam, a não ser Lúcia com Ana para repreendê-la por estar “parada”. Ana é o alvo principal do autoritarismo de Lúcia. Vanda, mais sensível, passa fora o dia todo e Carlos, como já disse, parece alheio a tudo. Assim, o confinamento de Ana é muito forte. Restringe-se a seu quarto, onde ela amontoa uma porção de coisas velhas, do passado, tralhas e mais tralhas. Não há possibilidade de uma intervenção a nível familiar pelo desinteresse e resistência dos outros membros.

Observações da terapeuta: uma busca de compreensão

Ana perdeu toda sua individualidade. Não há expressão de afeto na família. Pele ressecada e macilenta, denota ausência do contato que perdeu com o próprio corpo.

Conduta da terapeuta: 1) massagem nas mãos, pés e rosto. (massageei apenas essas partes para chegar a ela bem suave e não agredi-la em seu contexto de repressão). Também visava com isso reenergizá-la e modificar seu quadro depressivo. A parte mais cuidada foi a região do plexo solar (centro energético do poder), próximo ao dedo do meio na planta dos pés. Ouvi e acompanhei suas queixas e expressão de sentimentos negativos em relação à irmã, aos irmãos em geral (exceto o que me levou até ela) e auto-estima muito baixa. Minhas respostas eram de reiteração, reflexão de sentimentos, atitudes essenciais para se criar uma atmosfera de segurança nas relações humanas de ajuda. 3) Despedi-me com carinho ( e esse afeto era real) e perguntei-lhe se queria que eu voltasse no dia seguinte. Disse que sim, com veemência. Combinamos o horário para o dia seguinte. (Quando comuniquei à irmã o contrato que fizera com a cliente para o dia seguinte ela respondeu com expressão de desdém: “Prá Ana não tem jeito”. Não contestei. Disse apenas: “vamos ver como ela reage”.

2a. sessão

Fui recebida com atitude cética por parte da irmã no que se refere à crença na recuperação da cliente. L.: “A Ana precisa tomar banho. Vou dar banho nela e trocar a camisola.” T.: (firme com L.) Deixe que nós duas faremos isso juntas. Vamos precisar da senhora para ajudá-la a levantar-se (a cliente era grande e gorda), o resto faremos nós duas.

Fomos ao quarto e ajudámo-la a levantar-se. Ela o fez, sem muito esforço, apenas ajudada. A irmã queria desabotoar sua roupa e não permiti, dizendo que ela mesma poderia fazê-lo, embora lentamente. Dispensei a irmã e passamos – a cliente e eu – a desenvolver o trabalho terapêutico em privacidade. De maneira lenta, desajeitada, ela foi desabotoando a roupa e percebi que tinha uma noção de onde estavam os botões. Ajudei-a a tirar a roupa no banheiro ( o corpo estava entorpecido pela imobilidade de vários dias na cama ) e ajudei-a a se banhar, mas sempre fazendo com que ela executasse os movimentos mais do que preocupada com a qualidade do que fazia. Auxiliada para chegar até o quarto onde se vestiu e deitou-se novamente. Propus-lhe uma massagem (reichiana para liberação de sentimentos encouraçados) . Enquanto recebia a massagem ela ia liberando sentimentos, ressentimentos em relação à dominação da irmã, auto-estima baixa em função da situação de invalidez em que se encontrava e ia me contando um pouco de sua história de vida. Já esboçava sorriso, ora dor e choro, com maior ênfase nesta expressão. Falou de suas idéias suicidas – que só não punha em prática por causa da religião que professava após a massagem dos anéis peitorais (dos sentimentos) e do abdômen (plexo solar, poder). Despedimo-nos e ela se dizia aliviada. Esperançosa. Via meu rosto com mais detalhes, no final. Falou da cor dos meus cabelos.

A intenção era iniciar o restabelecimento da identidade pessoal e a liberação de sentimentos. Na massagem pretendia-se também liberação e reequilíbrio energético. A reconstrução de sua história pessoal era também uma compreensão de sua experiência vivida. Era pontuada por mim com reiteração, reflexão de sentimento e algumas elucidações.

A partir daí, combinei mais três sessões alternadas, para que ela pudesse ir, em seguida, acompanhada, a meu consultório.

3a., 4a., e 5a. sessões:

Essas sessões foram uma combinação de massagens visando ao fortalecimento da identidade e do contato consigo mesma no nível experiencial. A outra metade da sessão era o relato da sua história de vida, numa reconstrução que era também facilitadora do reforçamento do ego. Embora houvesse grande parte de sentimentos negativos (isso já esperado no processo terapêutico, na primeira terça parte, segundo pesquisas da terapia centrada no cliente), ao final de cada sessão ela se dizia aliviada o que era corroborado por sua expressão facial.

6a. sessão:

Conforme o combinado, ela chegou ao consultório acompanhada por uma irmã casada a quem chamarei Lígia, em cuja companhia ela se sentia muito bem. Tinha grande dificuldade de andar e apresentava uma espécie de atordoamento.

Após um breve “rapport” para inserção no novo ambiente, combinamos 10 sessões, com avaliação depois da 5a. e da 10a.

Ainda dentro desse contexto de colocá-la em contato com o mundo externo, aí representado pela saída de casa, ida ao consultório, convidei-a a um passeio em torno do quarteirão apoiada em meu braço. Ela dizia ver, de maneira enevoada, pessoas, casas, árvores e gostava de respirar “ar de gente”. O passeio durou cerca de 20 minutos. Quando retornamos, pedi-lhe que se sentasse, relaxasse e descansasse do passeio, repassando visualmente o que tinha visto e se detendo mais na memória visual do que mais tinha gostado. Quando abriu os olhos, ficou olhando um vaso que tinha à sua frente e me disse: “Que plantinha bonita! Verdinha…” (Era uma planta chamada dólar, cujas folhas bem miúdas, são cheias de biquinhos arredondados).Pedi-lhe que pegasse a planta de perto e que a descrevesse. Falou da cor, do formato, da textura e demonstrou um grande enlevo ao contemplar a planta.

Pontuei com ela a diferença de sua acuidade visual no meu consultório e no ambiente familiar. Ela não alcançou ainda o aspecto da finalidade de sua cegueira mas disse: “também a Lúcia fica me forçando a ler. E não me deixa mexer na cozinha…”

Perguntei-lhe o que gostava de fazer, além de cozinhar. Ela voltou a suas experiências passadas: havia bordado muito, feito muitas flores para buquê de noiva e vestido muitas delas da cabeça aos pés. Falou muito sobre isso, relembrando bonitas histórias passadas, seu sucesso como costureira.

Disse-lhe: “como sua visão está voltando vamos combinar uma atividade, um “dever de casa” que a senhora deverá trazer pronto na próxima semana.” Ela sorriu e percebi aí uma aquiescência. Por onde começar? Ela lembrou que poderia terminar uns panos de prato que havia começado e fora interrompido por causa da “perda da visão” e pela falta de ânimo. Enfatizei a importância da realização da tarefa. ( Aqui achei adequado estruturar porque a realização do trabalho seria uma oportunidade de reforçamento comportamental).

As sessões que se seguem foram realizadas 2 vezes por semana.

7a. sessão:

Chegou acompanhada pela irmã, Lígia, bem alegre e com menos dificuldade na marcha. Perguntei pelo “dever de casa” ( é importante que quando o terapeuta propõe uma tarefa ao cliente pergunte por ela, não como cobrança mas como demonstração de interesse). Trouxe-me uma sacola com linhas e um esboço de bordado. Elogiei, procurando incentivar a continuidade de seu trabalho. O que foi realmente reforçador foi ela perceber que conseguia bordar sobre as linhas do risco. Falou sobre o tema da sessão anterior e voltou a relembrar os belos vestidos de noiva que fazia. Comparava seu desempenho hoje e percebia sua decadência. Experimentava sentimentos de nostalgia mas também uma percepção da realidade, da realidade do envelhecimento.

Volta ao tema do tolhimento por parte da irmã, Lúcia, no que tange aos serviços domésticos, como cozinhar e varrer casa. Lembro-lhe de seu quarto por onde ela pode começar. Ali, pelo menos, é seu espaço privado e ela tem muito o que mexer para organizá-lo. Combinamos como próxima tarefa arrumação de seu quarto, além da continuidade do bordado. ( Aqui tenho dois objetivos: ajudá-la a colocar uma ordem interna em sua vida a partir da organização externa e recolocá-la com fatos do passado que ela está reciclando, através de fotografia e outros objetos antigos (esse tipo de exercício é bastante usado no trabalho com idosos). Também há muita coisa que precisa ser rasgada. Sem mencionar isso a ela atento para o simbolismo dessa ação.

Despeço-me dela com um abraço, lembrando que vou cobrar o “para casa”. Ela sorri e diz que vai se esforçar. Digo-lhe que “esforçar” não é promessa. Palavras como “tentar”, “vou ver” , “esforçar” são muito vagas. Ela me diz: “sim, eu vou fazer. Vou arrumar meu quarto”. (tomar a responsabilidade, da gestalt).

8a. sessão:

Chegou acompanhada do cunhado, marido da irmã Lígia, pessoa muito gentil e a quem ela quer muito bem. Alegre, com um nível de energia bem alto, desde o início da sessão. Fala da semana, de como passou e da resistência da irmã a que ela arrumasse o quarto. Queria interferir em tudo, decidindo o que ela deveria ou não manter, onde e como colocar as coisas. Disse que rasgara muitas coisas velhas. Outras ela guardara. Eram recordações boas.

A mãe morrera de parto, deixando seis filhos abaixo da cliente. Ela ficara como a “mãe número 2”. Aliás, já o era antes, porque mesmo com a mãe ainda viva era ela quem ajudava a cuidar dos irmãos. Tinha 18 anos quando a mãe morreu. Moravam na roça, o pai tinha uma determinada atividade de extração, lembrava de seu contato com empregados para os quais ela levava marmita, do contato com o pai que lhe ensinara a atirar. Para cuidar dos irmãos tinha a ajuda da avó, muito esperta – e se lembra dos brincos de ouro, que balançavam enquanto ela fiava na roca. (Memória pregressa do idoso que volta nítida).

Combinamos mais uma tarefa para a próxima sessão: terminar o bordado. Definimos também alguns comportamentos assertivos na relação com Lúcia a fim de garantir seu espaço. Dizer sim e não na hora certa e assumir a varreção da sala.

9a. sessão:

Chega acompanhada, andar mais firme, olhar mais definido. Reclama da irmã que não a deixa cozinhar com medo de que ela se queime. Falo-lhe da necessidade que sinto de uma entrevista com a irmã e pergunto-lhe se ela se opõe. Diz que não, mas não acredita que a irmã se disponha porque é muito “cabeça dura”. Mostra-me o bordado, já pronto, no pano de prato onde ela passara também um bico de crochê. ( O importante aqui era o cumprimento da tarefa para que ela passasse à ação, embora a qualidade fosse baixa).

Pergunto pela visão em casa. Diz que já consegue ver revistas e televisão. Não consegue ainda ler um texto, letras miúdas. Acha que os óculos é que estão mal ajustados. Conversamos com o irmão dela para marcar consulta com o oftalmologista.

10a. sessão:

Chega acompanhada pelo marido da irmã mais nova. É um senhor de bom contato e que a traz com carinho e boa vontade. A irmã, que já tem netos, fica cansada e se ressente do tempo que gasta e que poderia dedicar mais a sua própria família. A cliente se sente culpada por estar dando tanto trabalho à família. ( O problema social do idoso ).

Relembrando o quanto se dedicara aos irmãos vai retornando aos tempos de mocidade e adolescência, pela ordem, até chegar aos tempos em que era criança (cerca de dez anos) quando tocava piano. Canta para mim as canções que tocava ao piano. É uma sessão repleta de experiências passadas que agora são relembradas e revividas. Um passado que é, fenomenologicamente, presente e cheio de emoções. Lembra-se das brincadeiras com a irmã mais nova (que é hoje a “dona” da casa) . É uma sessão repleta de sentimentos positivos, o que é esperado na segunda metade do processo).

(Neste intervalo, marco a sessão com a irmã, buscando fazer uma intervenção familiar. Procuro orientá-la sobre como poderia colaborar na recuperação da cliente. Entretanto, o sucesso é muito pequeno. Fica apenas a nível de informação sobre a necessidade que há de que ela ceda algum espaço a Ana para que possa se movimentar mais no ambiente familiar. Mostro-lhe os resultados já obtidos, a nível da depressão e da visão de Ana. Ela concorda. Quanto ao contato consigo mesma Lúcia é absolutamente refratária. Entretanto, ao ouvi-la, percebo que ela tem uma boa aceitação de minha pessoa.(me presenteia com um vaso de violetas que ela cultiva com muito carinho). Torno-me um canal de comunicação que se abre entre ela e Ana.

11a. sessão:

Ela chega bem, andar já bem firme, nível bom de energia. Pergunto sobre a consulta ao oculista e ela me mostra os óculos novos, cujo grau havia sido ajustado. Está enxergando melhor (aqui trata-se de um problema decorrente da idade – vista cansada – e nada tem a ver com a passada “cegueira psíquica”). Não consegue, entretanto, deter-se por muito tempo numa leitura. Percebo mais um problema de falta de interesse pelos fatos externos, ligados ao não-eu, pois está muito voltada para as vivências do passado.

Começa a falar de sua mocidade e adolescência. Conta-me que foi noiva com A16 anos. Carlos, o noivo, moço bonito, cheio de vida. Fala do noivo com carinho e muita emoção. Casamento marcado. É chamada às pressas a uma rua próxima de sua casa no interior. Encontra Carlos no chão, esvaindo-se em sangue. Consegue dizer o nome dela e morre em seus braços. Fora morto com um tiro, numa briga de rapazes. Chora bastante ao relembrar. É um choro sentido mas manso e conformado. Silêncio durante alguns minutos, aquele silêncio preenchido de emoções. (É importante aqui não interferir no processo que ela vivencia de contato consigo mesma, deixar fluir o choro há tanto tempo guardado). Despede-se. Sai triste, porém, calma.

Havíamos combinado uma avaliação de como estava se sentindo nesta sessão, mas pelo fato de ter sido muito pesada, achei por bem nem tocar no assunto.

12a. sessão:

Desta vez vem com a irmã Lígia que relata sua melhora no processo depressivo. Acha-a mais viva, mais ativa, com mais energia. Durante a semana a levara para sua casa onde ela se sentiu muito bem, no convívio com os sobrinhos e sobrinhos-netos. (A casa dessa irmã é movimentada, com muitos familiares, há um clima de vida e aí ela se sente muito bem).

O conteúdo dessa sessão é a continuação da história de sua vida depois da morte de Carlos. Dois anos após, a morte da mãe. Em seguida, sua responsabilidade pela criação dos irmãos. (Observe-se que ela repassa, após perda do poder pessoal e em sua casa, perdas decorrentes do envelhecimento, as perdas mais vitais na adolescência que foram do noivo e da mãe).

Ao final, conforme havíamos combinado, proponho a avaliação da terapia até ali.

Faço com ela um breve relaxamento. Peço-lhe que se imagine chegando pela primeira vez na clínica, que se reporte até lá e veja como se sente. É uma viagem dirigida. Depois, peço-lhe que se veja agora, como está. Como se sente e que veja seu caminhar até aqui. (Queremos com isso avaliar seu processo). Os pontos abordados são:

a) Mais disposição para a vida. Por exemplo, as visitas à casa da irmã. Planeja inclusive a visita ao sítio de um irmão.

b) Mais ação em casa, embora se sinta ainda tolhida e fraca diante de Lúcia.

c) Melhora grande da visão. Na rua, no consultório ou nas casas de familiares de quem tem ido enxerga melhor do que em sua própria casa.

d) Diz que gosta muito do contato comigo pela atenção e carinho que recebe e pela oportunidade de falar de coisas a que ninguém dá atenção.

e) Ainda tem muita coisa prá falar mas só com o tempo poderá dizer.

f) Ressente-se de ter que depender de alguém para levá-la. Sente-se incomodada dando trabalho. Mas não se arrisca ainda a ir sozinha.

Aproveito a oportunidade para falarmos francamente do significado de sua pouca visão em casa: ela explora o assunto mas não chega a uma conclusão se é uma forma de agredir a irmã ou uma maneira cômoda de sobreviver no ambiente. Falamos ainda sobre a cegueira como um pedido de atenção e afeto, ainda que precários. Mas fica evidenciado para ela o significado funcional de sua cegueira que, mesmo em casa tem melhorado a cada dia.

A conclusão é pela continuidade da terapia pelos efeitos benéficos que tem sentido. “Não vou ficar me culpando pelo trabalho que dou por eles me trazerem, afinal, criei sete irmãos e eles também podem me cuidar!” (Aqui ela começa a se sentir com direitos).

13a. sessão:

Aqui ela traz novamente a comparação de quando era jovem e hoje. Vestia noivas para casar da cabeça aos pés. Fazia vestidos, flores para o buquê e grinalda e a noiva saía vestida toda por ela. São reminiscências em que repassa o quanto foi capaz e se dá conta de sua impossibilidade de fazer as mesmas coisas. Abordamos a realidade do envelhecimento como processo natural de perdas. Foi uma sessão um tanto pesada, porém, realista. Pergunto-lhe se há alguma coisa do que fazia e que ainda é capaz e gostaria de fazer. Lembra-se da pessoa que a ajudava na confecção das flores. Incentivo-a a procurá-la para, juntas, retomarem a atividade, ainda que não seja para noivas. (Penso aqui numa terapia ocupacional e na possibilidade de retomar o contato com uma pessoa que foi muito positiva em sua vida). Fica essa tarefa como “dever de casa”.

14a. sessão:

Aqui o assunto ainda gira em torno de Maria, a ajudante, principalmente como companhia para ela. Relata nova visita à casa da irmã, onde passou o fim de semana. Sente-se muito bem lá e mais calma quando volta. É uma sessão tranqüila, com relatos de relacionamentos positivos hoje e indagações sobre como encontrar a Maria.

15a. sessão:

Chega alegre, sorridente. Conseguira contato com a Maria, “que está muito em forma”, diz ela. A família foi buscá-la para ficar com Ana. Passam juntas ótimos momentos. “Só que agora as posições se inverteram. Ela é a florista e eu sou a ajudante.” Mas se expressa sem mágoa, apenas como uma constatação. Traz-me uma flor de presente feita por ela.

16a. sessão:

Retorna a sua história de vida: por causa da criação dos irmãos não teve possibilidade de se casar. Já estava com mais idade quando se casou com um estrangeiro. Não gostava tanto dele mas queria ter um amparo. Desquitou-se três anos depois, numa época em que mulher que se desquitava era muito discriminada. Insinua, de leve, uma problemática na área sexual. Como percebo seus receios de falar sobre as experiências negativas que teve com o marido, digo-lhe que podemos falar de nossos sentimentos sobre determinado assunto sem ter que nomeá-lo. É uma sessão tensa.

Esta seria a última sessão, das dez que havíamos combinado. Ela me disse que precisava voltar mais vezes para falar de uma coisa muito importante e que nunca tinha falado nem para seu confessor.

Concordo e não determino quantas sessões mais. Aguardo o desenrolar do processo. A essas altura a cegueira já não era mais o tema de nossas sessões. O problema já estava resolvido. Ela queria se aprofundar mais.

17a. sessão:

Ela chega dizendo que tinha passado uma semana horrível. Muito agitada. Tivera vários sonhos dos quais não se lembrava a seqüência mas todos envolviam o fogo do inferno, seu ex-marido, capetas e ela.

Pergunto-lhe o que havia na relação com o marido. Não precisava dizer o que era mas poderia deixar vir a sua mente e poderíamos falar sobre seus sentimentos acerca dos fatos sem que ela tivesse que mencioná-los.(Aqui uso a técnica da “focalização” proposta por Gendlin. O importante é deixar vir à consciência o material negado. Dentro de um processo experiencial, o importante é o que a pessoa formula para si mesma).

Ela fez alguns minutos de silêncio, sua fisionomia se transtornava…Decidiu que queria e precisava dizer. (A permissividade do terapeuta cria um clima de permissividade do cliente para consigo mesmo).

Passa a relatar que o marido era impotente. Não conseguia ter ereção por isso tinha que fazer “indecências” com ela. E ela tinha que se submeter. E o mais sério é que muitas vezes ela sentia prazer físico e gostava. Sentia nisso um pecado horroroso. Nunca tinha tido coragem de contar isso nem para o padre. Tinha-se afastado da igreja e não recebia a comunhão há muitos anos. Sentia remorso, muito remorso… Chorava um choro sentido, sufocado. Expressou raiva e nojo do ex-marido. Pedia perdão a Deus que de certo havia de perdoá-la no céu. Longo silêncio… (Ela precisava refazer-se, pois havia gasto muita energia com a expressão do material há tantos anos represado. Ela precisava de descanso. É como uma mulher exausta após o parto. Eu estava bem próxima dela, porém, sem tocá-la. Ela precisava ficar consigo mesma, porém, acompanhada. Era um momento em que precisava fazer as pazes consigo mesma. Era um “momento mágico” em psicoterapia.

Perguntou-me o que eu achava disso, se eu achava pecado. Refleti para ela se precisava de minha opinião para abonar sua experiência. Disse que não mas queria saber como eu via tudo isso. Dei minha opinião falando da diferença entre os valores religiosos aprendidos e as sensações organísmicas. Não sei se teve muita importância mas ela pareceu satisfeita com a explicação.

Saiu bem, combinando voltar na próxima sessão.

18a. sessão:

Chegou me dizendo que tinha tido uma semana muito boa. Aliviada. Agora sentia que poderia voltar à igreja, confessar e tomar a comunhão. Já poderia morrer em paz. E falava sobre morte, não mais como um desejo suicida do início da terapia mas como uma possibilidade de descanso. Mas também falou da vida, da família, do retorno aos sacramentos. Essa sessão girou muito em torno de sua volta à espiritualidade. Quando falava em morte não revelava medo mas como uma possibilidade relativamente próxima.

19a. até 24a. sessões:

Durante essas sessões a temática foi a espiritualidade, reflexão sobre os valores da igreja católica, os valores aprendidos, catecismo, medo do pecado, do inferno e do diabo.

Retornara à igreja, sentindo um grande alívio. Ainda saía acompanhada, também pela desconfiança da irmã que não a deixava sair sozinha. A igreja mais próxima a sua casa era no centro da cidade e ainda sentia-se meio perdida no borborinho do trânsito.

Passou a um contato mais direto com Deus, sentindo-o em si mesma. Falava de morte de maneira suave, sem muitos temores, mas como uma passagem inevitável. Acreditava num Deus amoroso e permissivo. Achou que não precisava mais voltar à terapia. O resto era com ela e Deus. Gostaria de manter contato comigo e que eu fosse visitá-la de vez em quando.

Durante três anos visitei-a em seu aniversário mais quatro visitas esporádicas por ano. Era uma forma de acompanhamento. Pude verificar seu crescimento pessoal e confirmar que é possível a psicoterapia do idoso, que ele não está definitivamente enrigecido e, mais, tem necessidade de se expressar em profundidade e se apossar de sua experiência de vida.

A cliente morreu três anos após a terapia, de arteriosclerose.

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Sobre o enfoque holístico na terapia:

Holos (do grego) significa todo, inteiro. Assim, trabalhar num enfoque holístico significa ver o ser humano como um todo: corpo físico, emocional, mental, espiritual no todo do Universo.

Em nossa cultura ocidental vivemos o dualismo corpo-mente de Descartes e a visão mecanicista do mundo de Newton. Daí o problema da separatividade : eu e o mundo; das especializações – muito importantes sim – mas em que muitas vezes se isolam corpo x mente x sentimento x social x universal. Perdemos a noção de unidade com o Todo. Mais ainda: dentro da visão mecanicista de ciência é como se funcionássemos em blocos: problemas físicos, problemas emocionais, problemas mentais, problemas espirituais. Na visão holística vemos a interligação de todos esses aspectos (não o somatório) – consideramo-los todos importantes naquela pessoa que está à nossa frente no consultório.

O novo paradigma – o paradigma holístico – é uma nova forma de ver o Homem. Não exclui a visão das especializações nem se opõe a elas, mas é uma nova maneira de ver o ser humano de forma mais integrada.

Gostaria de ressaltar que hoje em dia vivemos o modismo do holístico e o termo está desgastado na linguagem comum. Chamam terapia holística à pratica divinatórias, tarôs, runas, cartas que, a meu ver, retiram o indivíduo de seu centro de valoração organísmica. É uma perversão do termo. Não faz parte do conhecimento científico nem da prática da psicoterapia.

Resumindo, no caso descrito:

1. Quando a cliente me foi indicada já havia feito exames médicos que detetaram a inexistência de causas físicas para seu problema de cegueira. Estava sob os cuidados de seu clínico geral e outros especialistas da área médica. Fazia os controles necessários e não pertinentes ao psicólogo mas cujo conhecimento por parte deste era importante.

2. A parte de alimentação não foi preciso ser cuidada pois ela gozava de perfeita saúde nessa área. (Nos casos em que percebo necessidade peço ao cliente que procure um profissional especializado).

3. A maneira que encontrei de entrar na área emocional, altamente comprometida, foi via-corpo, utilizando-me de massagens liberadoras e reequilibradoras de energia.

4. A parte familiar não foi abordada, enquanto terapia de família, por tratar-se de uma estrutura muito cristalizada e não haver demanda nem abertura para uma psicoterapia. Mesmo assim, Vanda, a irmã mais nova que vivia também com a cliente no apartamento, procurou-me espontaneamente para uma sessão onde identificou sua baixa qualidade de vida e do desejo de realizar mudanças. Indiquei-lhe um psicoterapeuta e, quando a irmã encerrou a terapia ela ainda continuava. Isso significa que, de alguma forma a terapia da irmã mexeu na estrutura familiar. A família é um sistema em que, quando se trabalha com o PI (paciente identificado) mexe-se na sua dinâmica e os membros têm de buscar outra forma de equilíbrio, geralmente, mais saudável.

5. A ação da cliente em sua casa foi orientada no sentido de levantar suas forças, resgatar sua identidade quase perdida. Os trabalhos corporais visavam também ao reforçamento da identidade e ao reforçamento da identidade.

6. A compreensão do material reprimido foi buscada através do acompanhamento ao mundo fenomenológico da cliente, tal como proposto por Rogers e Gendlin, pilares da abordagem centrada na pessoa.

7. Não foram feitas interpretações psicanalíticas, incompatíveis com a idade da cliente e com a proposta de uma terapia breve e focal. Conceitos psicanalíticos serviam à terapeuta para compreensão de ciúmes infantis da irmã, relações parentais, etc..

8. Foi combinado um determinado tempo, porém flexível, de vez que terapias intermináveis ou muito longas são inadequadas a pessoas que, teoricamente, não têm tempo cronológico para isso e muito menos gosto por auto-explorações exaustivas.

9. Foi enfatizada e trabalhada a qualidade de vida agora.

10. Saimos completamente fora dos parâmetros de uma terapia clássica de consultório.

11. Enfatizamos inicialmente reforçamento do ego , para restabelecimento da identidade. Mais tarde foi possível trabalhar-se em uma Dimensão Maior, a espiritualidade.

12. Foi feito um acompanhamento da cliente por cerca de 3 anos (quando ela faleceu de arterioesclerose) sob forma de visitas de aniversário, natal, e outras visitas de tempos em tempos.

13. O sintoma – queixa inicial – cegueira psíquica – desapareceu completamente ficando apenas os “déficits” decorrentes da idade.

14. A depressão severa não se manifestou mais. Havia oscilações de humor – às vezes tristeza diante certos acontecimentos familiares, sem muita relevância.

15. A terapia atingiu níveis bastante profundos a partir da 11a. sessão, chegando-se a aspectos espirituais que ela desenvolvia na prática e a deixavam em grande paz consigo mesma.

Ao apresentar esse trabalho aos participantes do III FORUM BRASILEIRO DA ABORDAGEM CENTRADA NA PESSOA, gostaria de ter “feed-back” dos companheiros, críticas e questionamentos tendo como referência a ACP.

MARIA RIZZA DE O. MAGNANI

– Psicóloga pela UFMG em 1967 – CRP – 0002/4

– Professora de Teorias e Técnicas Psicoterápicas do Curso de Psicologia da UFMG de 1968 até 1991.

– Supervisora de Estágio em Psicotepia no CEAP (Centro de Aplicação da Psicologia da UFMG) de 1970 a 1991.

– Membro da ABEAD (Associação Brasileira de Estudos do Álcool e outras Dependências)

– Consultório particular em atendimento a adultos, idosos e alcóolicos.

Trabalho apresentado no III Fórum Brasileiro da A.C.P. realizado entre os dias 10 a 16 de outubro de 1999, em Ouro Preto, Minas Gerais