Refletindo sobre Supervisão

Henriette Tognetti P. Morato

Rogério C. Buys me fez parar e pensar. Afinal, desde a nossa formação, como estudantes de Psicologia, nos é enfatizada e requerida a vivência de supervisões (é parte integrante do currículo nos estágios das disciplinas profissionalizantes); e mesmo depois, já psicólogos continuamos sentindo a necessidade de, em alguns momentos difíceis e confusos de nossa atividade profissional, procurarmos a ajuda de supervisores.

“Sabemos”, portanto, sobre a importância do papel da supervisão; mas, raramente, nos detemos para refletir sobre o seu significado quer em nossa formação quer em nossa prática profissional. Somos supervisionados, somos supervisores e pouco nos damos conta do sentido da super-visão e sua sistemática para o psicólogo.

E é a isso que Rogério Buys, através de seu livro “Supervisão de Psicoterapia na Abordagem Humanista Centrada na Pessoa” (Ed. Summus 1987) nos leva à uma reflexão sobre o espaço fundamental da supervisão, levantando uma proposta para a sua sistematização (Capítulo l) Ainda que enfocando, especificamente, a supervisão de psicoterapia (é na prática clínica onde, talvez, mais reverbere a relevância desse espaço para o profissional terapeuta), e baseando—se numa abordagem determinada (Abordagem Centrada na Pessoal), Rogério procura transmitir o quanto “a supervisão é uma atividade específica na vida profissional do psicólogo e que não pode nem substituir nem ser substituída por nenhuma outra “(pag.18), já que se constitui num espaço fundamental para a reflexão das relações profissionais vividas.

Valendo-se de sua experiência como professor, supervisor e psicoterapeuta, ele procura dar subsídios a que se repense o triplo vértice da atividade do terapeuta: o teórico, o técnico e o experiencial, o que nos dirige para a supervisão como o espaço integrador desses três fatores para o aprimoramento da prática clínica. Suas colocações possibilitam generalizações referentes à supervisões de outras atividades do psicólogo; remete-nos, dessa forma, ao questionamento sobre o credenciamento de supervisares junto aos Conselhos Regionais. Seria suficiente ter-se, apenas, uma experiência clínica de alguns anos para poder ser supervisor? Ou, como Rogério sugere, supervisão envolve também uma técnica que necessita estar amparada também em uma teoria, além da prática, sendo, portanto, uma situação claramente delimitada, com um objetivo específico e requerendo um profundo comprometimento do supervisor? Pode haver uma teoria sobre supervisão?

Partindo desse posicionamento, Rogério propõe-se a sistematizar uma técnica de supervisão que compreenderia as funções didática (teórico-técnica) e experiencial. Na primeira, haveria o compromisso de tornar-se a supervisão como a ponte de ligação entre o que é enfatizado, generalizadamente, por uma teoria como sendo a compreensão dos processos psicológicos , e o que a particularidade desses mesmos processos no cliente em foco (teórico); além disso, enfoca-se também a maneira de se trabalhar com o cliente (técnica), sem grandes intelectualizações, mas sim facilitando a conscientização do elo entre a teoria , a técnica e a realidade psicológica. Por sua vez, a função experiencial da supervisão possibilitaria a facilitação das experienciações do supervisionando na sua relação com seu cliente: suas percepções e comunicações, enfim, seus sentimentos e atitudes no processo terapêutico, segundo as condições básicas da Abordagem Centrada na Pessoa.

A partir daí, Rogério sugere dois modelos de supervisão: o transitivo (mais voltado para uma avaliação, por parte do supervisor, do desempenho do supervisionando nos seus atendimentos, visando sua aprendizagem estrita), e o intransitivo (onde o supervisor dispõe-se a facilitar ao supervisionando uma aprendizagem ampla de seu próprio jeito de ser terapeuta).

Ainda que orientado para Abordagem Centrada na Pessoa, o livro de Rogério também possibilita, àqueles que confundem essa Abordagem com as idéias de Carl Rogers somente, uma oportunidade de entrar em contato com o pensamento de outros autores, como Gendlin, que procuram reformular e fundamentar as concepções rogerianas, ampliando, dessa forma, sua compreensão.

Para mim, ressaltam-se dois méritos (no explícitos) no trabalho de Rogério. Por um lado, seu pioneirismo, em termos de uma experiência da nossa realidade, de propor com seu livro uma abertura essencial para que professores de Psicologia e Supervisores possam iniciar uma reflexão mais criteriosa sobre a atividade de supervisão, visando um aprimoramento na formação dos psicólogos, de que tanto necessitamos. Por outro lado, sua ousadia de, baseado em suas próprias experiências e questionamentos, propor-se uma tentativa de sistematizar seu trabalho como supervisor, e, mais ainda, de comunicá-la publicamente, propiciando, dessa forma, o preenchimento dessa curiosa lacuna bibliográfica internacional sobre supervisão. Que sua ousadia possa encorajar outras empreitadas de nossos profissionais experientes.

Publicado no Boletim Paulista da ACP – São Paulo – No. 4 – jul ago set 1988