Relato teórico-vivencial de algumas experiências dentro da CFDG (sub-comissão de formação e desenvolvimento de grupos) do CRP 13ª região

Helga Hofmamm

Josélia Saraiva

I – APRESENTAÇÃO

O trabalho que hora nos propomos a apresentar é uma resultante das ações inteligentes realizadas pela sub-comissão de formação e desenvolvimento de grupos que está atrelada ao Projeto de Interiorização da Comissão de Ação Social do CRP 13ª Região – PB

Este nosso relato tem como objetivo compartilhar de forma mais vivencial do que teórica, nossa experiência dentro da referida comissão.

Descrevemos brevemente a História do surgimento desta sub-comissão e seus objetivos. A metodologia aplicada aos grupos também será mencionada, porém nos deteremos no movimento existente durante e depois que os grupos ocorreram. Para finalizar teremos as conclusões tiradas acerca desse tipo de trabalho.

II – DESENVOLVIMENTO

2.1 Breve relato da História da sub-comissão de formação e desenvolvimento de grupo (CFDG) e seus objetivos.

Em 1994 ocorreu o tão esperado, por nos psicólogos paraibanos, o desmembramento do CRP-02-PE. Nos desligamos de Pernambuco e instauramos o CRP 13ª Região.

Como decorrência desse desmembramento, foi criada a Comissão de Formação e Desenvolvimento de Grupo (CFDG). Surgiu então o esquema provisório de ações político – sociais com o intuito de mostrar nossas ações e evitar dispersão de forças. Tomamos como referencial maior dois princípios básicos: Compromisso com a nossa classe e compromisso com o nosso povo.

O esquema provisório de ações político–sociais foi à semente do Projeto de Interiorização da Psicologia. Este projeto consiste numa rede de ações entre si, cujos resultados serão obtidos a longo prazo. Ele é único, mas contém em si mesmo, outros seis segmentos relativos aos vários aspectos da interiorização.

O referido projeto vem sendo desenvolvido pela Comissão de Ação Social que tem Três sub-comissões: Sub-Comissão de desenvolvimento, Sub-comissão de interiorização e sub-comissão de cooperativa.

Nosso trabalho foi e está sendo desenvolvido pela CFDG que, atualmente, tem como objetivo, através de vivências, solicitadas por empresas estatais, escolas, etc, melhorar as relações interpessoais no grupo e viabilizar cursos e outras necessidades grupais. Foi e é nossa preocupação não interferir no grupo, mas facilitar as expressões das forças ali existentes. Todo esse processo tem a tendência de levar o grupo à fala autêntica, a mobilização e a ter mais consciência para exercer seu poder de cidadania.

Sentimos a necessidade de ressaltar que todos os trabalhos foram e são realizados , por não dispormos de recursos financeiros, a partir da criação de uma rede de troca de interesses.

Inicialmente os trabalhos foram realizados em Bayeux (cidade de periferia de João Pessoa). Atualmente estamos efetuando trabalhos em João Pessoa e pretendemos realizar vivências em toda Paraíba e Rio Grande do Norte.

2.2 Metodologia Aplicada aos Grupos

O trabalho de nossa comissão se inicia, quando a instituição que deseja realizar o desenvolvimento das relações de sua equipe, entra em contato, através de um oficio, com o C.R.P. Este oficio é encaminhada a Comissão de Ação Social.

A partir dessa solicitação, nós, membros da comissão, nos reunimos e de acordo com a disponibilidade de cada, são escolhidos dois psicólogos para o primeiro contato com os dirigentes da instituição.

Durante o primeiro momento com a instituição realizamos a escuta de suas necessidades, esclarecemos algumas dúvidas e solicitamos uma reunião com todos os membros .

Ao vivenciarmos a reunião com todos da Instituição temos a possibilidade de ouvirmos tanto verbalmente, quanto nas entrelinhas como estão as relações de trabalho. E’ nessa reunião que tornamos claro, para todos, o objetivo do nosso trabalho, tiramos duvidas e montamos juntos o cronograma.

Na montagem do cronograma levaremos em consideração a opinião de todos que estão presentes na reunião.

No cronograma do trabalho de desenvolvimento de equipe, que deve ser realizado no mínimo por 20 horas, temos o cuidado de observarmos tudo o que é relevante para a realização desse trabalho. No que diz respeito à data tomamos como ponto de partida a nossa disponibilidade e a de cada pessoa até chegarmos em um consenso.

Estabelecendo a data partimos para o local que deve ser dentro de um certo padrão, isto é, o espaço físico compatível com as necessidades de um trabalho dessa natureza, com uma acústica que estabeleça privacidade com uma boa iluminação e ventilação e com instalações sanitárias no local. Este local é escolhido através da verificação por parte dos facilitadores. A partir desse movimento podemos trabalhar a questão dos horários. Este aspecto tem muitas nuances, temos que estabelecer que horas o grupo quer iniciar, qual a hora do intervalo para as refeições, quando termina. Falamos também a respeito da freqüência, assiduidade e do respeito à hora e a duração das sessões.Com relação a esta questão temos a necessidade de tornar claro para os participantes o número que ficarão no trabalho, pois o grupo trabalha e se desenvolve em função da consciência do seu próprio prazo de vida.

A questão da alimentação também é levada em consideração. Como será a alimentação? Quando a Instituição pode arcar com as despesas do almoço, este é trazido de fora. Quando os próprios participantes terão responsabilidades sobre a alimentação, começa a divisão-‘Quem vai levar o que. Nesta dinâmica, em nossa percepção, já se inicia o trabalho em grupo, suas diferenças e afinidades.

Outro aspecto que esclarecemos para o grupo é a respeito da roupa a ser usada durante o trabalho. Nós reconhecemos em nossa prática a importância de serem usadas roupas leves, confortáveis, que permitam as pessoas se sentarem em almofadas e colchonetes, pois é importante para a obtenção do máximo de movimento.

Sentimos necessidade de ressaltarmos, como já foi observado, que toda a montagem do cronograma geral é realizada de forma muito centrada no grupo.

O cronograma geral foi realizado, agora partimos para o cronograma mais específico que diz respeito as dinâmicas que usaremos.

A partir da reunião e da execução do cronograma geral podemos Ter uma visão do que este grupo precisa para trabalhar suas relações. Com este objetivos selecionamos as dinâmicas e estabelecemos uma seqüência que de inicio tem partes fixas e partes flexíveis.

Nas partes fixas desse trabalho temos uma fala inicial dos facilitados que chamamos de “Introdução” onde colocamos a necessidade de que cada participante esteja no trabalho como pessoa, livre de cargos, de estereótipos procurando através da comunicação aberta e honesta, ampliar a espontaneidade, a autencidade e a franqueza.

Falamos também que neste espaço o individuo é livre para compartilhar sentimentos. É na “Introdução”, também, que reafirmamos a questão dos horários.

Após fazermos a “Introdução” partimos para a “Apresentação” que é mais uma parte fixa desse cronograma. Usamos diferentes técnicas de apresentação para diferentes grupos, sempre a partir de suas peculiaridades.

Feita a “Apresentação” partimos para o contrato que tem por objetivo clarear e trazer a tona o grau de compromisso e responsabilidade que cada pessoa tem consigo mesmo, com cada membro e com o trabalho. É durante o estabelecimento do contrato que trabalhamos o sigilo. Trabalhar o sigilo é extremamente importante, pois é necessário tornar claro que aquilo que foi vivenciado no grupo não deve sair do grupo, um sentimento, uma dor, uma raiva, um comentário, uma atitude descontextualizada não tem o mesmo sentido, muitas vezes fica totalmente banalizado. É trabalhando o sigilo que os indivíduos podem se sentir mais seguros e com mais segurança para se entregarem ao trabalho.

É necessário esclarecermos que por mais que as partes acima mencionadas sejam fixas, nosso trabalho tem abertura para adiarmos algumas dessas partes . Por exemplo a apresentação ou o contrato, no caso de logo no inicio do grupo aflorarem sentimentos que precisem ser trabalhados. As partes fixas devem existir no trabalho, porém também são flexíveis.

2.3 Observações acerca dos movimentos existentes dentro do trabalho de facilitação das relações interpessoais dentro de grupos de trabalho.

Ao longo do trabalho foi-se desenvolvendo no grupo, um clima psicológico de segurança, onde a liberdade de expressão e a redução das defesas foram gradativamente acontecendo. É possível verificarmos esse movimento observando trechos de escritos feitos pelos participantes.

“Aprendi que devo estar aberto para dar, receber, dividir, não julgar os outros e sim, ajudá-lo a se encontrar”.

“Eu aprendi a compreender mais as pessoas a ouvir, a conquistar o espaço onde trabalho aprendi a sentir as emoções das colegas compartilhar e dizer que sempre é bom estar aqui”

Em um clima psicológico facilitador algumas reações imediatas de cada membro em relação aos outros, e de cada membro em relação a si próprio, tendem a expressar-se isto é, observarmos que a “roupa suja” pôde ser lavada. Algumas pendências na comunicação dos entraves entre as pessoas foram colocadas e trabalhadas. “(…) Aprendi também como é importante o trabalho em equipe, a necessidade de considerarmos as razões dos outros não só as nossas. Cada vez que participo de um encontro assim aprendo a amar mais as pessoas e a respeitá-las”.

“É importante formular os sentimentos em momentos de confrontos e desentendimento. Não tentar adivinhar os sentimos do outro, mas perguntar, conversar… para esclarecer situações, conflitos…”

Há durante todo esse trabalho uma redução da rigidez defensiva, as pessoas sentem-se livres para ouvir-se uns aos outros e aprender mais dos outros uma amplitude maior.

Verificamos essas ações em trechos escritos posteriormente ao trabalho pelos participantes.

Sentimentos negativos quando expressos assimilados, aceitos e trabalhados no grupo sem resultados catastróficos, favorece aos indivíduos a compreensão que há uma liberdade no grupo, mesmo que seja uma liberdade ameaçada. Um clima de confiança começa a se estabelecer.

“Aprendi hoje como é importante ouvir, levar em conta os sentimentos e opiniões dos outros(…)”

“O encontro de hoje fortaleceu a comunicação entre nós funcionários e despertou a mesma entre voluntários, coordenação e funcionários. Só falando e ouvindo podemos melhorar nossas dificuldades e essa formação vai ajudar a romper essas barreiras”.

“(…) Aprendi a conversar melhor com os funcionários e voluntários. O melhor foi a convivência com todos”

“Prestar mais atenção na outra pessoa (colega de trabalho), ouvir mais a outra pessoa. Ter mais coragem de falar o que sente, falar na hora exata, entender a fala do()a) outro(a) e cada encontro que participo aprendo mais a respeitar (aceitar) as diferenças”.

Com o aumento da liberdade de expressão, surgem novas possibilidades, novos conceitos e idéias. Velhos paradigmas são quebrados e a inovação torna-se desejável, não sendo mais uma ameaça. Observamos nesses trabalhos que novas soluções para problemas antigos (das Instituições) foram surgindo a medida que foram levantadas as dificuldades de cada setor. A seguir tem-se trechos onde podemos observar.

“Existem poucos computadores na empresa. Pode ser feito um remanejamento entre as empresas (máquinas) e/ou compra de mais computadores”.

“O excesso de trabalho tem aumentado o nível de “Stress” seria importante uma melhor redistribuição de tarefas”.

“Foi constatada, agora, nossa falta de capacitação para executarmos nossas tarefas se faz necessário momentos de formação e atualização para cada um.”

“Nosso projeto pedagógico não foi devidamente estudado e internalizado. Vamos realizar reuniões para discutirmos todo o projeto e sua concretização.”

“Constatamos a falta de comunicação entre a equipe (coordenação e funcionários). A promoção da comunicação através de trabalhos como este se faz necessária, como também temos um livro de ocorrência e reuniões freqüentes entre funcionários e coordenação”.

Toda esta experiência de grupo tem a tendência de ampliar-se temporária ou duradouramente, para as relações extra trabalho, com a família, com amigos…

Em algumas declarações de pessoas que participarão dos grupos podemos observar esta tendência de ampliação da vivência.

“Aprendi a me abrir mais com a minha família… a conversar com eles… dou valor ao que eles querem, pensam… Não que eu não desse valor a eles, mas porque não converso muito com eles, a partir de agora vou conversar mais…”

“Aprendi a cuidar de mim e de todos que me cercam…”

“Maior conhecimento da pessoa que existe dentro de cada um… tanto no campo profissional, pessoal, familiar, etc”.

A partir de todos os relatos e observações acima descritas fica claro para nós a grande eficiência que um trabalho dessa natureza pode proporcionar às relações de trabalho dentro de uma Instituição. Proporcionamos, enquanto CFDG as empresas a oportunidade de MUDAR e CRESCER individualmente e enquanto grupo em busca de se tornarem uma equipe integrada e participativa.

II – CONCLUSÃO

De uma forma geral temos a comprovação do quanto os objetivos da CFDG estão em sintonia com os nossos objetivos pessoais, no que diz respeito a facilitação das relações interpessoais de grupo. Acreditamos que essa facilitação mobiliza e traz à tona a consciência do poder pessoal e grupal.

Durante e depois dos nossos trabalhos, pudemos observar que cada indivíduo tem um valor pessoal dentro do grupo. Por outro lado, ficou clara a existência de esforços para que as pessoas desenvolvam trabalhos em grupo. Este esforços ainda não atingiram o merecido êxito em conseqüência das dificuldades pessoais e interpessoais, que só poderão ser somadas a médio prazo, a partir de um processo de conscientização de que juntos podemos mais ou ainda, utilizando a inteligência do grupo pode-se acabar qualitativamente em tudo que se refere ao ambiente de trabalho. Outra ação que pode aumentar os processos individuais é o acompanhamento Psicológico através de Psicoterapia.

BIBLIOGRAFIA

CASTILHO, Áurea. ’A DINÂMICA DE TRABALHO DE GRUPO’

ROGERS, Carl R. ‘GRUPOS DE ENCONTRO’. Ed. Martins Fontes.

RIBEIRO, Jorge P. ‘GESTALT-TERAPIA : O PROCESSO GRUPAL’

Ed.Sumus.

Apresentado no XI ENCONTRO LATINO-AMERICANO DA ACP – Socorro – Brasil – Out/2002