Segredos na Família

Maria do Céu Lamarão Battaglia

Introdução

Terapia de Família Sistêmica

Como uma terapeuta que atua nos moldes da Abordagem Centrada na Pessoa, conheci certa vez outra terapeuta de família que atuava nos moldes da Terapia Sistêmica. Deste encontro nasceu um grande interesse nesta teoria que de alguma maneira possuía pontos em comum com a ACP apesar de diferenças que me deixavam extremamente curiosa por me parecerem incongruentes com o que eu ouvira. Decidi então, que no momento oportuno faria também esta formação que me custou quatro deliciosos anos. Não só pela teoria mas também pelas pessoas que encontrei tanto no estaff quanto na minha turma ricamente composta por pessoas com formação em: fonoaudiologia, psicopedagogia, educação, arquitetura, musicoterapia, nutrição e psicologia. Esta diversidade de visões nos permitia ter ângulos diferentes e versões diferentes de um mesmo caso. Permitiu também uma colaboração multidiciplinar na área de atuação de cada participante num exercício de levar a teoria sistêmica até seu trabalho individual em lugar de pretender que todas saíssem dali atuando como terapeutas de família, o que aliás seria impossível para a maioria.
Fui para o curso curiosa em relação a sala de espelho: “ Que coisa tão estranha deveria ser. Tão constrangedora…”. Curiosa em relação as prescrições: “Passar dever de casa para o cliente? Como seria isso?”. Tinha ouvido falar sobre técnicas. “ Como seriam elas?” Afinal, na ACP não utilizamos técnicas alem da atitude. Como seria isto então já que tinha tanta coisa em comum?
Tive uma bela surpresa! No Instituto de Terapia de Família (RJ), onde fiz minha formação, o método utilizado é a Terapia Sistêmica Construtivista. A cada aula ia revendo idéias e conceitos bastante conhecidos mas traduzidos de forma diferente. Percebi uma grande preocupação e cuidado com o significado das palavras. Exatamente num sentido rogeriano da mais pura empatia. No interesse genuíno de entender o outro e também de se fazer entender o mais verdadeiramente, pelo outro. Percebi também o enorme respeito pelo cliente, no cuidado permanente e na consideração positiva incondicional que se traduz na sistêmica quando esta considera e valida as escolhas feitas pela família como sendo o seu melhor, e acredita que elas tenham a capacidade de escolher seu próprio caminho. Aqui, o terapeuta atua como facilitador do processo como se refere o próprio Goolishian. As técnicas, quando utilizadas, sempre o são tomando a relação terapeuta cliente como norteadora destas escolhas. A Teoria Sistêmica nos dá um banho em sua produção teórica e em seus “termos técnicos”, mas me sinto extremamente confortável em traze-los para ACP e passear de um lado para outro sem constrangimento. Da mesma maneira que a teoria se valeu de teóricos da biologia como Humberto Maturana, da antropologia e cibernética como Gregory Bateson, da física e cibernética como Ilya Prigogine e atualmente com pessoas da sociologia, filosofia e lingüística como Kenneth Gergen, Edgar Morin e Nicholas Luhman, acredito que podemos nos valer de todo este conjunto também.
Visto isso, percebo que dentro da sistêmica, o procedimento terapêutico depende basicamente das crenças particulares do terapeuta. Nisto ela difere da ACP. Mesmo a teoria tendo se desenvolvido, existem dentro da Terapia Sistêmica escolas que continuam atuando nos moldes anteriores, até hoje. Numa breve descrição temos:
Terapia de Família de Primeira Ordem:
Utilizada pelos primeiros terapeutas de família na década de 50. Se valiam do lado mais mecanicista da cibernética. O terapeuta era visto como observador separado do cliente observado (sujeito-objeto). Era uma terapia basicamente comportamental com ideais de funcionalidade, controle e eficiência. Esta se divide em dois momentos:
1ª Cibernética: Visa a homeostase do sistema
2ª Cibernética: Visa a mudança no sistema

Terapia de Família de Segunda Ordem:
Tem como marco uma publicação no periódico “Family Process” em 1982, com a segunda formulação da cibernética na terapia de família. É nesta época que são introduzidas as idéias de sistemas autopoiéticos não sujeitos a “interação instrutiva” (Humberto Maturana), “ordem através da flutuação” (Mony Elkaim), “estruturas distantes do equilíbrio” (Prigogine) e cibernética de Segunda ordem (Heinz von Foerster).
Aqui o terapeuta é visto como observante-observado. Como participante do processo. É a era do construtivismo e do construcionismo social. O sujeito constrói a realidade e a realidade constrói o sujeito.

Dependendo do estilo do terapeuta, ele vai se situar em algum desses pontos. A partir daí, utilizará determinadas técnicas de maneira diferente e com objetivos diferentes.
Terapeuta de 1ª Ordem:
Tem um modelo próprio de família. Utiliza-se de técnicas para encaminhar a família para o funcionamento ideal. Olha a família de fora, a partir de seu próprio referencial. É detentor do saber. Tem um modelo de atuação bastante rígido com instruções estratégicas visando atingir seus objetivos.
Terapeuta de 2ª Ordem:
Auxilia à família ampliar seu leque de alternativas e encontrar seu modelo próprio e particular de funcionamento, sem desconsiderar o contexto no qual a família está inserida.
Acredito que em qualquer dos pontos em que nos encontremos sempre temos um modelo de família. O que me parece ser a grande diferença entre o terapeuta de 1ª ordem e de 2.ª ordem é a flexibilidade do terapeuta de 2ª ordem em permitir e confirmar um modelo de família diferente de seu conceito próprio inicial.
Um conceito bastante significativo que encontrei na teoria sistêmica foi o de neutralidade como curiosidade. Visto que na atuação com grupos a questão da neutralidade se faz evidente e freqüente, esta nova visão de neutralidade amplia em muito o conceito. Percebo também que a curiosidade do terapeuta, que me soa como o interesse genuíno na ACP, fomenta a própria curiosidade da família gerando novas descobertas e novas possibilidades de interação. Contribui enormemente com o rescrever a história.
A terapia focada na relação nos leva a trabalhar principalmente com a comunicação em todas as suas nuances: a literal, a postural, a pontuação da fala, a entonação, os silêncios, enfim as congruências e as incongruências em suas expressões.
A maneira de entender o sintoma também se altera quando priorizamos as relações. O sintoma reforça e é reforçado por todo sistema familiar. A partir daí fazemos uma leitura do por que e para que um determinado sintoma ocorre em determinado sistema. Envolvemos e responsabilizamos então todo o grupo no sintoma que inicialmente era apenas de um indivíduo isolado. O “paciente identificado”.
A partir dessa visão ampliada da terapia de família, vamos elucidar e discutir uma situação familiar nos utilizando de um conto interessante.

O Mundo Muda…

Uma Família

Mãe, eu estou noivo… do Murilo – Tempos modernos, casamentos modernos, filhos modernos.
Artigo retirado do Jornal O Globo, 5 de dezembro de 1998, página 12, Elisa Palatnik.

_ Mãe, vou casar.
_ Jura, meu filho?! Estou tão feliz! Quem é a moça?
_ Não é moça. Vou casar com um moço. O nome dele é Murilo.
_ Você falou Murilo… ou foi meu cérebro que sofreu um pequeno surto psicótico?
_ Eu falei Murilo. Por que mãe? Tá acontecendo alguma coisa?
_ Nada, não. Só minha visão que está um pouco turva. E meu coração, que talvez dê uma parada. No mais, tá tudo ótimo.
_ Se você tiver algum problema em relação a isto, melhor falar logo.
_ Problema? Problema nenhum. Só pensei que algum dia ia ter uma nora… só isso.
_ Você vai Ter uma nora. Só que uma nora… meio macho. Ou um genro meio fêmea. Resumindo: uma nora quase macho , tendendo a um genro quase fêmea.
_ E quando eu vou conhecer o meu…a minha… o Murilo?
_ Pode chamar ele de Biscoito. É o apelido.
_ Tá. Biscoito. Já gostei dele. Alguém com esse apelido só pode ser uma pessoa bacana. Quando o Biscoito vem aqui?
_ Por que?
_ Por nada. Só para eu poder desacordar seu pai com antecedência.
_ Você acha que o papai não vai aceitar?
_ Claro que vai aceitar! Lógico que vai. Só não sei… se ele vai sobreviver. Mas isso também é uma bobagem. Ele morre sabendo que você achou sua cara metade. E olha que espetáculo: as duas metades com bigode.
_ Mãe, que besteira… hoje em dia… praticamente todos os meus amigos são gays.
_ Só espero que tenha sobrado algum que não seja… pra poder apresentar pra tua irmã.
_ A Bel já tá namorando.
_ A Bel, namorando?! Ela não me falou nada… Quem é?
_ Uma tal de Veruska.
_ Como ?
_ Veruska.
_ Ah, bom, que susto. Pensei que você tivesse falado Veruska.
_ Mãe!!
_ Tá, tá, tudo bem… Se vocês são felizes. Só fico triste porque não vou ter neto…
_ Por que não? Eu e o Biscoito queremos dois filhos. Eu vou doar os espermatozóides. E a ex namorada do Biscoito vai doar os óvulos.
_ Ex namorada? O Biscoito tinha ex namorada?
_ Quando era hetero. A Veruska.
_ Que Veruska?
_ Namorada da Bel.
_ Peraí. A ex-namorada do teu atual namorado… é a atual namorada da tua irmã… que é minha filha também…. Que se chama Bel. É isso? Porque eu me perdi um pouco.
_É isso. Pois é… a Veruska doou os óvulos. E nós vamos alugar um útero.
_ De quem?
_ Da Bel.
_ Logo da Bel?! Quer dizer então… que a Bel vai gerar um filho teu e do Biscoito. Com o teu espermatozóide e com o óvulo da namorada dela. Que é a Veruska.
_ Isso.
_ Essa criança de uma certa forma, vai ser tua filha, filha do Biscoito, filha da Veruska e filha da Bel.
_ Em termos.
_ A criança vai ter duas mães: você e o Biscoito. E dois pais: a Veruska e a Bel.
_ Por aí.
_ Por outro lado, a Bel, além de mãe, é tia… ou tio… porque é tua irmã.
_ Exato. E no ano que vem vamos ter um segundo filho. Aí o Biscoito é que entra com o espermatozóide. Que dessa vez vai ser gerado no ventre da Veruska. Com o óvulo da Bel. A gente só vai trocar.
_ Só trocar, né? Agora o óvulo vai ser da Bel e o ventre da Veruska.
_ Exato.
_ Agora eu entendi! Agora eu realmente entendi.
_ Entendeu o que?
_ Entendi que é uma espécie de swing dos tempos modernos!
_ Que swing mamãe!
_ É swing, sim! Uma troca de casais… com os óvulos e os espermatozóides, uma hora no útero de uma, outra hora no útero de outra.
_ Mas…
_ Mas uns tomates! Isso é um bacanal de última geração! E pior. Com incesto no meio.
_ A Bel e a Veruska só vão ajudar na concepção do nosso filho, só isso.
_ Sei… E quando elas quiserem ter filhos…
_ Nós ajudamos.
_ Quer saber? No final das contas não entendi mais nada. Não entendi quem vai ser mãe de quem, quem vai ser pai de quem, de quem vai ser o útero, o espermatozóide… A única coisa que eu entendi é…
_ Que…?
_ Fazer árvore genealógica daqui para frente… vai ser beeeem mais complicado.

Terapia de Família

O que é um casamento bom ou um bom casamento?

A idéia do que seja efetivamente uma boa união, se transforma através dos tempos. No período dos povos nômades e mais tarde, no período da agricultura os conceitos de família eram totalmente diferentes. No século XVIII, no período do romantismo, por razões econômicas e políticas começa a surgir o modelo do casal onde o homem é o provedor e a mulher é a que cuida dos assuntos relacionados a afetos e emoções. Aí se iniciam as construções sociais como: a rainha do lar, o instinto materno, etc., que estão muito bem representados e apresentados em filmes da década de 50. Aquele era e “é” ainda o casamento perfeito, ao menos em nosso imaginário. E, nós ficamos desesperadamente tentando realiza-lo da maneira que, em verdade, só existe nos filmes.
Isto ocorre através das transmissões de valores culturais atualizada principalmente pelas mães. Mas somente a partir da decepção na relação com o cônjuge é que se torna possível uma nova construção. Uma nova narrativa.
Um grande marco na mudança de padrões ocorre na década de 70 com a revolução sexual e o advento da pílula anticoncepcional. É quando a mulher consegue separar o sexo da reprodução. O feminismo surge com força total. A partir dai também começa a crescer o homossexualismo. Surgem a fertilização in vitro, a fecundação artificial, enfim as novas, diferentes e variadas formas de procriação.
Nos últimos 10 anos a ciência e a tecnologia avançaram mais que em toda a história da humanidade! Mas, com todas estas mudanças e transformações, parece que a narrativa permanece na década de 50. O modelo de família ideal.
Na verdade os problemas não existem! Existem os fatos. É a maneira de lidar com eles que vai torna-los ou não um problema. Que vai permitir a transformação ou a dissolução do problema. O trabalho do terapeuta está em criar novas narrativas, isto é, ampliar o campo perceptual e transformar a guestalt, possibilitando ao cliente novas alternativas. Novas escolhas.
Somente as pessoas que conseguem fugir do padrão podem criar. Seguir o modelo é extremamente castrador e desvitalizante. Cabe ao terapeuta conseguir intervir nas narrativas ao modo da família e não partindo do padrão dele, terapeuta. O terapeuta não deve funcionar como regulador social mas sim como um facilitador das possibilidades e dos novos arranjos possíveis de serem criados pela família ou pelo casal.
Para tanto, passeamos juntos com a família pelas construções individuais de saúde, dinheiro, fidelidade, decepção, gênero, filhos, ciclo-vital, idade, família de origem, cultura, raça, religião, etc.
Trabalhamos então com os estressores verticais e horizontais:

Estressores Verticais
padrões
mitos
segredos e legados familiares

Estressores Horizontais
Desenvolvimentais (Transições do Ciclo de Vida)
Imprevisíveis ( Morte, doença crônica, acidente)
Níveis do Sistema
1- Indivíduo
2- Família nuclear
3- Família ampliada
4- Comunidade, colegas de trabalho, amigos
5- Social, cultural, político, econômico (gênero, religião, etnicidade…)

Finalmente, vamos agora tratar de um tema especialmente importante e abrangente no trabalho com
famílias: a questão do Segredo na Família

Segredos na Família
“Do direito de ocultar ao dever de dizer”
Evan Imber-Black

O segredo traz em si dualidades inseparáveis. Ele é ao mesmo tempo indispensável e temido, colore e sufoca, protege e invade, nutre e consome. Existem diversos temas que podem se transformar em grandes segredos num núcleo familiar. Podem estar relacionados a nascimento, adoção, origem familiar, infertilidade, aborto, doenças físicas ou mentais, orientação sexual e sexualidade, incesto, estupro, violência, adicções, religião, casamento com pessoas de diferentes raças ou religiões, terrorismo, comportamento em tempo de guerra, divórcio, situação como imigrante, suicídio, morte.
Não existe garantia quanto ao resultado na revelação de um segredo. Esta pode ser de efeito curativo ou de risco, assim como promover reconciliação ou divisão.
A postura quanto a revelação de um segredo varia de terapeuta para terapeuta. Os segredos tem efeitos físicos intra e interpessoais extremamente nocivos ao bem-estar individual. Mas sem dúvida ele impõe o grande desafio da escolha entre a revelação ou a não revelação e tudo que pode advir de qualquer uma das escolhas.
Os segredos são fenômenos sistêmicos. Estão ligados ao relacionamento, moldam díades, formam triângulos, alianças encobertas, divisões, rompimentos. Definem limites de quem está dentro e quem está fora. Calibram a intimidade e o distanciamento nos relacionamentos. Eles também envolvem um grande conflito de lealdade, se tornando extremamente restritivo. Neste caso, a terapia permite aos participantes desenvolverem definições novas e expandidas de lealdade tanto cognitiva quanto experiencialmente.
Existem segredos que podem ser considerados como positivos ou negativos. Chamaremos de segredos positivos os segredos temporários como os relacionados a presentes que serão oferecidos ou os que antecedem a rituais. Também se enquadram nesta categoria os segredos dos adolescentes que objetivam autonomia e diferenciação. Um outro caso seria os segredos “carinhosos” que visam poupar vulnerabilidades.
Os segredos negativos são os segredos nocivos ou que envolvem riscos como o abuso físico ou sexual. São também segredos de longa duração e envolvem ações ocorridas no passado, que permanecem vivas no presente.
É importante ressaltar que os segredos que envolvem risco necessitam de ação imediata do terapeuta. Os segredos negativos exigem trabalho cuidadoso e senso de oportunidade para o momento de revelação e possibilidade da família em lidar com as conseqüências.
Qualquer segredo pode ter múltiplos significados para os diferentes membros da família. Podem significar proteção, traição, diferenciação, autonomia, etc. Podemos citar como exemplo um caso de infidelidade conjugal que pelo marido pode ser entendido como autonomia e pela mulher, percebido como traição. Outro exemplo seria num caso de adoção não revelada que pode ser sentido pela mãe como proteção, pelo pai como insegurança e pelo filho adotivo como traição.
Na revelação, se faz necessária a criação de um ambiente capaz de conter e possibilitar a expressão dos significados múltiplos e disparatados vinculados ao segredo e à sua manutenção. O segredo afeta diretamente a comunicação na família e desta com o mundo. O estilo de comunicação da família pode se tornar marcado pelo fato de precisar manter o segredo até em áreas distantes do segredo original. Um exemplo disso seria uma mãe, numa roda de amigas, conversando sobre a gestação e o parto de um filho que sigilosamente é adotado.
Sendo assim, a manutenção da mentira fomenta mentiras deliberadas, informações retidas, sentimento de culpa, sentimento de desconfiança, distorce os processos de comunicação tornando os indivíduos “cegos, surdos e mudos”, afeta a aprendizagem/curiosidade e finalmente, o que é de suma importância, dificulta o acesso aos recursos necessários e disponíveis para transformação da situação ou manejo do sintoma.
Os sintomas mais freqüentemente encontrados na situação de segredo são:
1- O próprio sintoma como segredo. Neste caso se incluem o alcoolismo, as drogas, as doenças mentais, a anorexia. A negação do sintoma dificulta a busca de recursos para manejo do sintoma e dos efeitos.
2- Sintoma como disfarce. Objetiva deslocar o foco do problema do segredo propriamente dito para o sintoma.
3- O sintoma da ansiedade e da culpa sempre presentes como resultante da manutenção do segredo, com todo custo que esta manutenção envolve. Como exemplo podemos pensar no esforço exigido no controle do rumo das conversas para que o assunto não chegue próximo à questão em segredo.

Segredo e Privacidade

É importante destacar a diferença entre segredo e privacidade. Estas definições variam também de acordo com o contexto. Variam com a época, a cultura, de família para família, de pessoa para pessoa. A grosso modo poderíamos pensar que segredo envolve medo e ansiedade frente à sua revelação enquanto que privacidade seria mais uma questão de se sentir ou não confortável em revelar uma situação. Podemos também nos nortear pelo fato de que o que é íntimo pertence a uma pessoa só e que o segredo envolve outros também. Eu diria que meu norteador seria a pergunta: “Quem tem direito à informação?

A Prática

Passo 1 – Localização do Segredo
Quantas pessoas participam do segredo? Duas ou mais pessoas? Quem são?

1- Duas ou mais pessoas da família nuclear. Localização de triângulos e obrigações de lealdade.
2- Uma pessoa da família e alguém de fora. Ex: 1- Um caso extra conjugal. 2-Uma pessoa e um profissional de saúde.
3- Somente entre os membros da família nuclear. Neste caso o segredo molda a relação com o mundo externo, contribui para o senso de unidade e isola de maiores possibilidades de relações e recursos.
4- Entre os membros mas todos “fingem” que não sabem. Distancia e divide as pessoas.
5- De fora do núcleo familiar para dentro. Ex: 1- Diagnósticos médicos ocultos. 2- Registros de saúde de uma criança adotada que não são passados para a família adotiva. 3- Questões políticas de instituições ou governamentais.

Passo 2 – Revelação do segredo

1- Construção de ambiente suficientemente seguro.
2- Saber quem mais conhece e qual seria sua posição em revelar o segredo.
3- Saber as conseqüências imaginadas. Dificilmente há este espaço de discussão anterior ao espaço terapêutico. Geralmente o que pensam a este respeito é mantido em segredo. Ouvir tais previsões cheias de temor permite ao terapeuta oferecer potencial para resultados mais positivos.
4- A partir do momento em que resultados mais positivos possam ser considerados o terapeuta pode então realizar uma intervenção direta com relação à revelação. Saber sobre os temores permite ao terapeuta planejar estágios subsequentes do trabalho pensando junto com a família sobre onde, como, quando, com quem e por quem a revelação pode se dar.

Passo 3 – Restauração das conseqüências

Após a revelação é necessário ainda um trabalho visando a possibilidade de expressão e contenção das diferentes respostas e reações relativas a este desvelamento. Se isto não for feito, corre-se o risco de um novo segredo se formar com relação a como os membros da família sentem-se a cerca do conteúdo do segredo.
É sempre muito mais fácil recuperar a confiança quando existe a intenção de proteção por trás do segredo. O oposto ocorre nos casos onde a intenção passa pelo abuso do poder ou pelo dano físico.
De uma maneira geral, a revelação de um segredo facilita a emergência de outros.
Não se pode pensar de uma maneira simplista que apenas a revelação de um segredo oferece a dissolução do problema. Quando certos segredos são revelados, precisamos estar disponíveis a longo prazo para atender as demandas que possam vir a surgir.

O Terapeuta

1- O terapeuta necessita antes de tudo afirmar sua própria posição ética com relação a manter ou revelar um segredo familiar.
2- A família também tem direito a conhecer a posição do terapeuta não devendo esta conter um segredo em si mesma.
3- O terapeuta precisa ter flexibilidade e estar constantemente desafiando suas próprias posições.
4- Quando o segredo é nocivo ou perigoso, se faz necessário estar atento a um presumível direito de esconder que pode emergir do ilicitamente poderoso da família, como se fosse em benefício do mais vulnerável.
5- É a eqüidade nos relacionamentos que toda terapia almeja, que respalda o direito de saber o que afeta nossas vidas e o direito de dar voz à dor mais profunda.

Bibliografia

Rapizo, Rosana. (1996). “Terapia Sistêmica de Família – Da Instrução a Construção”, Noos
Carter, Betty , Mc Goldrick, Mônica. (1995). “As Mudanças no Ciclo de Vida Familiar”, ed. Artes Médicas
Imber-Black, Evan. (1994). “Os Segredos na Família e na Terapia Familiar”, ed. Artes Médicas

Trabalho Apresentado no IX Encontro Nordestino da Abordagem Centrada na Pessoa
Abril de 1999