Ser autêntico ou ser grosseiro? O papel da congruência na Abordagem Centrada na Pessoa

Uérika Massambani Scudeller

INTRODUÇÃO      

Carl Ransom Rogers foi responsável pelo desenvolvimento da Abordagem Centrada na Pessoa (ACP) em oposição à algumas correntes dominantes da época, como o behaviorismo e a psicanálise.O pressuposto fundamental da Abordagem Centrada na Pessoa é que em todo indivíduo existe uma tendência atualizadora, uma tendência inerente ao organismo para atualizar suas potencialidades numa direção positiva e construtiva(Moreira 2010).

Rogers escreveu sobre o crescimento humano. Sua teoria teve como ponto de partida a não-diretividade, ao propor que o terapeuta saia da posição de especialista e deixe o cliente guiar o próprio processo. A partir dos anos 50, Carl Rogers passa a privilegiar uma atitude mais ativa do psicólogo, que deveria ter o cliente, e não o problema, como foco. Já em sua última fase, ligada à psicoterapia, antes de voltar-se para atividades de grupais, o autor propõe que o foco seja dado à relação terapêutica, dando ênfase à experiência vivida pelo cliente na relação com o terapeuta (Moreira, 2010).

Rogers trouxe para o campo da psicoterapia a ideia das condições facilitadoras e atitudes que um psicoterapeuta deveria desenvolver para proporcionar mudanças na vida do cliente. Estas condições deveriam ser vistas pelos psicoterapeutas com profundidade, não apenas como simples regras a serem seguidas. Dentre essas condições, três são comumente designadas como atitudes essenciais ao terapeuta em relação ao cliente para uma mudança construtiva de personalidade: a Aceitação Positiva, Compreensão Empática e a Congruência.  (Fontgalland, 2012).

A Aceitação Positiva Incondicional pode ser descrita, de acordo com Brito (2014) como a consideração integral por tudo o que o cliente é e traz para a terapia, sem qualquer tipo de julgamento por parte do terapeuta.Sentindo-se aceito, o cliente é capaz de expressar livremente todos seus sentimentos, apropriando-se melhor deles.

A Compreensão Empática pode ser entendida como a capacidade de entender o campo vivencial do outro e perceber sua realidade como ele a percebe e compreender seus sentimentos, diferenciando a experiência do terapeuta da do cliente. Com isso, o terapeuta deve suspender os próprios pontos de vista e valores, para entrar no mundo do outro desprovido de preconceitos. A atitude empática do terapeuta é se expor ao mundo interno do outro, percebendo os significados ao mesmo tempo em que se comunica essa compreensão ao cliente (Brito 2014).

A Congruência pode ser compreendida como grau de exatidão entre a experiência da comunicação e a tomada de consciência, apontando, com isso, as relações de semelhança entre o que sentimos, falamos e expressamos em nosso campo relacional; como resultado, temos um espelho da experiência do cliente (Silva 2013).Nesse sentido, a congruência pode ser descrita como a capacidade do psicoterapeuta em ser genuíno com a pessoa do cliente, levando em conta os seus sentimentos e suas percepções para que ele possa tentar contribuir com uma possível reflexão do cliente a respeito de si mesmo para quem sabe colaborar com o crescimento da pessoa.

A congruência apresenta-se em diferentes níveis dependendo docontexto vivido, pois estes níveis dizem respeito à intensidade da atitude do terapeuta, e isso, dependerá exclusivamente, da aceitação que se tem da experiência do outro. Com efeito, o terapeuta desviará da situação ou a aceitará. Nesse sentido, é possível que o terapeuta apresente uma postura “genuinamente grosseira”?

Grosseria ou Congruência?

O dicionário Aurélio diferenciaa palavra grosseria em dois principais significados; o primeiro diz respeito à realização de uma tarefa de modo mal acabado, grosseiro. “O acabamento desta cadeira é grosseiro”. O segundo significado diz respeito à conduta de um indivíduo para outro, no sentido de indelicado, ríspido, mal-educado: “Aquele indivíduo é um atendente grosseiro! ”Trazendo para o contexto da psicoterapia, vamos considerar apenas a grosseria como um terapeuta que se comporta de maneira indelicada e ríspida em seu exercício profissional.

Visto que a congruência é a postura autêntica do terapeuta para a pessoa do cliente, algumas considerações devem ser levadas em conta. O modo pelo qual o terapeuta se apresenta e descreve o conteúdo da terapia pode ter impacto negativo no processo. Além disso, o psicoterapeuta pode não perceber suas atitudes grosseiras, ofuscado pelo filtro da congruência. É importante destacar que congruência não é “apenas dizer a verdade”.

De acordo com Cruz (1988) Rogers trouxe uma concepção nova de ciência ao assumir-se a si mesmo enquanto terapeuta, e a seus valores, durante a relação terapêutica. O terapeuta precisa suspender seu julgamento em relação aos conteúdos do cliente, mas ao mesmo tempo precisa ajudá-lo a compreender seus sentimentos. Não há neutralidade na relação, o psicoterapeuta e o cliente desenvolvem um processo único e complexo. A seguir, discutiremos a relação entre congruência e grosseria:

Atitudes Congruentes x Atitudes Grosseiras

As atitudes congruentes do terapeuta, quando tomadas de maneira séria e profunda, de modo a não permitir atitudes grosseiras, contribuem de modo essencial na transformação da personalidade do cliente. De acordo com Costa (2001) “A congruência permite o fluir das atitudes de consideração positiva incondicional e compreensão empática, sendo estas as três características que o psicoterapeuta, na Abordagem Centrada no Cliente, procura desenvolver dentro da relação psicoterápica.”

O terapeuta congruente, então, seria aquele que simboliza corretamente sua experiência vivida ao relacioná-la com a imagem que tem de si, com sua noção de eu. Essa noção não se apresenta aqui como uma categoria estática, mas como uma configuração em constante mudança. De acordo com Rogers:

“A transformação pessoal é facilitada quando o psicoterpeuta é aquilo que é, quando as suas relações com o cliente são autênticas e sem máscaras nem fachada, exprimindo abertamente os sentimentos e as atitudes que nesse momento ocorrem.” (Rogers, 1987, p. 65).”

             Quando se fala em congruência como uma atitude do psicoterapeuta, pressupõe-se que este reconheça e aceite o que lhe é próprio, suas características pessoais, particularidades e valores, sem deformar sua experiência ou experimentar o mundo de forma ameaçadora. Ocorre, sob esse aspecto, uma conexão direta entre o eu e a experiência. O psicólogo orientado pela Abordagem Centrada na Pessoa deve estimular a livre expressão dos sentimentos em relação ao problema. Essa liberdade é provocada pela atitude amigável, interessada e receptiva do psicoterapeuta.

O terapeuta orientado pela ACP procura facilitar a compreensão criando um ambiente constituído de um clima não autoritário, permissivo e o cliente se torna livre para prosseguir no seu ritmo pessoal, próprio, criando suas próprias direções. Adaptando-se a este modo não interventivo, o terapeuta deve ajudar o cliente livrando-o da necessidade de refrear e esconder a capacidade de defesa.Uma postura grosseira do terapeuta pode abalar a confiança da relação terapêutica e fazendo-o não se aceitar frear a aceitação de seus sentimentos. De acordo com Rogers apud Wood (1994):

“O psicólogo aceita, reconhece e esclarece os sentimentos negativos. Esforçando-se através do que diz e do que faz para criar uma atmosfera em que o cliente possa chegar a reconhecer que tem esses sentimentos negativos e que é capaz de aceitá-los como uma parte de si mesmo”

             O modo pelo qual o terapeuta cria esta atmosfera em que o cliente reconhece seus sentimentos negativos talvez seja uma das partes mais delicadas da relação na terapia e abre brechas para uma postura grosseira, indelicada por parte do terapeuta, sob o filtro da congruência. É necessário que a postura do terapeuta seja reflexiva e que ele compreenda as condições pelas quais o processo terapêutico está se encaminhando e procure sempre as condições ideais para sua intervenção

De acordo com Costa (2012)“congruência não significa que o psicoterapeuta deva se expressar o tempo todo dentro da relação psicoterapêutica”, mas que, ao reconhecer os sentimentos e limitações que lhe são próprios e, muitas vezes, suscitados pelo cliente, ele não os negue e nem utilize o pressuposto da congruência para se defender dos conflitos surgidos nessa relação. Percebe-se que a atitude congruente não é um simples seguimento de regras, ou simplesmente dizer uma verdade consciente. É uma postura que necessita ser constantemente trabalhada e aprimorada.

Considerações Finais

Um processo terapêutico eficaz ocorre quando o cliente passa a ver o terapeuta como uma pessoa verdadeira e autêntica, capaz de demonstrar empatia e construindo em relação a ele, respeito incondicional. Com efeito, este respeito terá como resultado a saída do funcionamento estático do cliente e se desenvolverápara um funcionamento caracterizado por uma experiência fluida onde há diferenciação de sentimentos e reações pessoais a processos imediatos da experiência.

De acordo com Pinto (2010) é possível vermos um exemplo de congruência, em uma entrevista em que Rogers permitiu registro em vídeo. Neste exemplo, há o relato de que certa vez, Rogers realizou uma sessão com uma pessoa que falava em um tom de voz baixo. Mesmo demonstrando interesse no conteúdo trazido pelo cliente, Rogers sentiu muita dificuldade em ouvi-lo e em estar completamente presente naquele momento. Como resultado, Rogers decidiu expressar à pessoa que estava com dificuldades em ouvi-la, visto que a maneira pela qual ela se expressava o deixava cansado. Como resultado, um insight emergiu do cliente “acredito que minha voz seja monótona pois nunca fui verdadeiramente ouvido”.

É comum que o terapeuta iniciante, orientado pela Abordagem Centrada na Pessoa, se sinta inseguro, e ao mesmo tempo, movido pelo desejo de conseguir desempenhar as condições necessárias para o processo terapêutico (Aceitação, Compreensão e Congruência). A postura congruente se mostra complexa, ao ponto do próprio terapeuta prejudicar a relação com o cliente sob o filtro congruente. É necessária uma postura de auto-reflexão e aceitação dos limites da pessoa do terapeuta, acompanhadas do bom senso. Rogers (1961) relata que ninguém realiza plenamente essa condição e, portanto, quanto, mais o terapeuta souber ouvir e aceitar o que se passa em si mesmo, quanto mais ele for capaz de assumir a complexidade dos seus sentimentos, sem receio, maior será o seu grau de congruência.

Compreende-se, portanto que a congruência e respeito precisam caminhar juntos no desenvolvimento da terapia; caso contrário, a congruência pode fazer emergir posturas grosseiras por parte do terapeuta, prejudicando todo o processo psicoterápico.

REFERÊNCIAS

BRITO, R. M.; SOUSA, T. M. Dependência química e abordagem centrada na pessoa: contribuições e desafios em uma comunidade terapêutica. Rev. Abordagem Gestalt.,  Goiânia ,  v. 20, n. 1, p. 77-85, jun.  2014 .   Disponível em:<http://pepsic.bvsalud.org/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S1809-68672014000100010&lng=pt&nrm=iso&gt;. Acessos em  10  nov.  2016.

FERREIRA, A. B. H. Dicionário Aurélio Básico da Língua Portuguesa. Rio de Janeiro: Nova Fronteira(1999).

COSTA. P. G. Congruência do Psicoterapeuta: escutar-se para escutar o cliente(2012)Disponívelem:<http://www.apacp.org.br/wpcontent/uploads/2012/03/art107.html Acesso em 10 de nov. 2016

CRUZ, E. L. B. A evolução dos conceitos de atitudes facilitadoras na perspectiva de Carl R. Rogers (2012).

CURY, V. E. ACP: Encruzilhadas e Perspectivas. publicado no Boletim da ACP – São Paulo – especial do II Simpósio da Psicologia Fenomenológica Existencial (USP) junho.(1988).Disponívelem:<http://www.apacp.org.br/wpcontent/uploads/2012/03/art001.html>. Acesso em 10 nov. 2016

FONTGALLAND, R. C. Da empatia à compreensão empática: evolução do conceito no pensamento de Carl Rogers (2012).

MOREIRA, V. Revisitando as fases da abordagem centrada na pessoa. Estudos de Psicologia (2014).

PINTO. M. A. S. Abordagem Centrada na Pessoa e seus Princípios.  Praticando a Abordagem Centrada na Pessoa. Carrenho Editorial. São Paulo (2010).

ROGERS, C. R.  Psicoterapia e Consulta Psicológica. Lisboa Moraes Editores(1974).

SILVA, E. D. As implicações da teoria de Carl Ransom Rogers para a educação em ciências. Rev. ARETÉ .Manaus, v. 6,  n. 10  p.63-72  (2013)

WOOD, K. J.; ROGERS, C. R. Abordagem Centrada na Pessoa. As Condições Necessárias e suficientes para a mudança terapêutica de personalidade. Ed. Fundação Ceciliano Abel. (1994)