Sexualidade nordestina: raízes e expressões

Esperdito Pedro da Silva

Mª Ivete Martins Correia

A história da sexualidade nordestina que trazemos à sua apreciação não é uma história de heróis nem de mártires. É uma história do cotidiano, ligada às questões sociais e culturais, que são simultaneamente, questões de cada indivíduo histórico. Não se refere apenas às sinhás, mas também às negras e às índias; não só às castas, mas também às prostitutas, não só às obedientes, mas também às rebeldes, não inclui só as santas e boas mães, mas também as loucas; não só os civis, mas também o clero; não se restringe a mencionar o patriarca branco, mas também o negro poupado do eito para fecundar e produzir mão-de-obra escrava.

Situemos, em princípio, a identidade nordestina. Identidade é uma categoria que envolve um campo multidisciplinar sobre o qual se debruçam a Psicologia Social, a Psicanálise, a Filosofia, a Sociologia, a Antropologia, a Semiologia, a Geografia. O Nordeste, “berço da nação”, apanágio propalado nas eleições e comemorações, dos 500 anos do Descobrimento do Brasil, também é visto como a face da crise.

Mas o Nordeste não deve tomar para si o monopólio da miséria. Deve queixar-se muito mais das elites que o representam que dos privilégios do “sul-maravilha”, que já não é lá essa maravilha. Interessa-nos entender a identidade nordestina não como um determinismo fixo, imutável. Acreditamos como Maura PENNA (1992), que a identidade é processual e é manobrada de acordo com os contextos, interesses e ocasiões, ganhando significados diferentes conforme o universo do discurso e suas pretensões.

O regionalismo que queremos realçar não se expressa apenas pela demarcação geográfica, nem só pela representação política, nem só por instituições regionais do tipo SUDENE, nem apenas pela produção científica de seus ilustrados (FREIRE, MENEZES, FURTADO) nem só pela produção literária de sua elite (LINS DO REGO, J.AMÉRICO DE ALMEIDA, RACHEL DE QUEIROZ, GRACILIANO RAMOS, CÂMARA CASCUDO, JORGE AMADO, ARIANO SUASSUNA, AUGUSTO DOS ANJOS…), mas, principalmente a apreensão e interpretação dos símbolos, signos, expressões e sentimentos do povo, expresso em suas formas de sobrevivência, na canção popular, na arte, na culinária, na dança, no seu fazer, no seu saber e no seu sentir, que evidenciam o que é ser nordestino.

A história da nossa sexualidade é marcada pela concepção de sexualidade que repousa no paradigma teológico judaico-cristão vigente à época do achamento do Brasil e que perduraria por quase 500 anos desde o descobrimento. Ao desembarcar na terra Brasilis, o colonizador cuja sexualidade estava reprimida e normatizada pelos rigores da Inquisição que imperava na Europa, encarou os nativos segundo valores europeus. Vestido dos pés ao pescoço, deparou-se com as índias lânguidas e nuas, morenas e de peitos rijos, que mais tarde desafiariam em sua espontaneidade, o rigorismo até dos padres jesuítas. A história do nosso indígena é a história da hecatombe, da dizimação, da violação da liberdade, de uma sexualidade belíssimamente sintonizada com a natureza. Darcy RIBEIRO nos fala de 5 milhões de índios em 1.500; 1 milhão em 1.800 e 300 mil atualmente. No Nordeste habitavam: Tupinanbás/Tupiniquins – BA; Potiguaras, Tabajaras e Caetés – RN/PB/PE; Botocudos e Xavantes – MA/BA.

Enquanto o branco na posição de colonizador era frio, calculista, convencional, técnico, letrado, explorador, exercia o poder sobre uma hierarquia de gênero e raça e balisava sua prática sexual nos valores cristãos que exigem o sacramento, a virgindade, a indissolubilidade da união, o Índio apolíneo, ritualístico, místico, com práticas sexuais integradas à Natureza, e marcadas por ritos de iniciação que envolviam as secreções do corpo, as plantas e vários deuses/deusas. Enquanto o índio participava do parto e cumpria rigoroso resguardo até o umbigo do bebê índio cair, cortava o cordão umbilical com os dentes e presenteava, com uma arma, o filho, no ato do nascimento, expressando o papel paterno na geração e no nascimento em um ritual chamado couvade os europeus eram alheios ao processo de vida fetal e ao nascimento dos seus filhos, principalmente das filhas e suas mães permaneciam impuras por 40 ou 80 dias se o filho fosse menino ou menina (Lev. 12, 2-5)

Quanto aos cuidados maternos, as índias amamentavam até no mínimo 1 ano e meio, mantendo seus filhos junto a si por uma tipóia ou escanchados nos quadris. As européias entregavam seus bebês ao cuidado de estranhas.

Entre os índios, o 1º fluxo menstrual era motivo de festa. A passagem para a vida adulta era celebrada com rituais que envolviam o corpo, para que o ventre fosse abençoado e gerasse filhos saudáveis, enquanto os europeus abominavam o sangue menstrual, depreciando a mulher através de suas secreções.

O costume judaico-cristão requeria a virgindade como condição “si ne qua non” ao casamento; já as jovens índias podiam manter relações sexuais até mesmo com aventureiros europeus, sem que isso provocasse a sua desonra.

A espontânea nudez dos nativos e nativas despertava a libido dos europeus reprimidos, fossem eles leigos ou religiosos. Era a fome diante do banquete. E haja auto-flagelação para os padres em sua luta para preservar a castidade.

Entre os nativos, o casamento era acertado pelos pretendentes e sancionado pelos pais, podendo ser desfeito tão logo se sentissem fartos do convívio. O marido desistente, em geral, presenteava a ex-esposa com outro homem. Já o casamento europeu seguia preceitos totalmente opostos dos quais somos herdeiros: virgindade/indissolubilidade, exclusividade e fidelidade da mulher.

Outro costume indígena que chocava os europeus era a poligamia, símbolo de prestígio entre os caciques e guerreiros, que podiam ter até 14 mulheres. Cada esposa tinha uma oca na tenda, onde convivia em boa paz com as demais, preocupadas em agradar ao marido.

Algumas tribos praticavam a homossexualidade, erguendo ocas públicas para a prostituição homossexual. Os europeus marcados pelos rigores da Inquisição se escandalizavam diante do pecado nefando, pelo menos em tese, com base no Livro Sagrado (Lev. 20,30).

Para além de todos os mencionados “desregramentos” que entre algumas tribos envolviam também o incesto e o lesbianismo, os nativos, insatisfeitos com o tamanho do falo, esfregavam sobre ele o pelo de um bicho peçonhento para esticar as suas vergonhas, à custa de grandes dores.

Na descrição literária e iconográfica do canibalismo, as índias, herdeiras da fraqueza de Eva, tinham prazer maior em comer o inimigo assado do que os índios machos, posto que nas fêmeas o ódio e a vingança diabólica são mais aguçados. A interpretação misógina do historiador europeu destaca a fragilidade moral das índias luxuriosas e a virtude dos índios que auxiliavam a família, caçando, pescando e preparando-se para a guerra. O colonizador repetia a história do GÊNESIS, ao remeter o prazer carnal ao mundo feminino representado por Eva, e o trabalho ao mundo masculino, representado por Adão.

As velhas índias, imagens recorrentes na iconografia seiscentista e setecentista, por serem pouco procuradas pelos homens, ocupavam-se em introduzir os meninos índios nos prazeres do sexo, em preparar as bebidas e os rituais de antropofagia, expressando, na visão européia, a degeneração da Humanidade.

Depois da vitória do Cristianismo na Europa, os demônios teriam voado para a América em busca de almas para atormentar, encontrando abrigo ideal nas índias velhas que sendo mulheres, tinham desejos vorazes como animais e eram incapazes de participar da comunidade cristã. Os padres e colonizadores viam na catequese a retomada da evolução humana. Foram as velhas de seios caídos e “espírito degenerado” que personificaram a resistência indígena contra os empreendimentos catequéticos europeus.

Passemos a perscrutar a contribuição do negro à construção da nossa sexualidade. É impossível abstrairmos do negro introduzido no Brasil a condição de escravo, mas apesar de escravo e de desterrado, o negro se apresentou alegre, dionisíaco, festivo, exuberante, ruidoso, petulante, risonho e dengoso, dono de uma sexualidade luxuriosa e lúdica, integrada ao sentimento, à música, a dança e à religiosidade.

Escravizado, sem carinho, sem família, o único comportamento que poderia aliviar seu sofrimento seria o luxurioso: cair nas graças do dono/dona, para sofrer menos. O senhor branco, dono do seu corpo, já no Porto, o adquiria não apenas pela qualidade dos dentes, mas também pelas proporções do seu pênis, pela amplitude dos quadris das negras, associando estas dimensões a uma maior capacidade de procriação, posto que, para o senhor escravocrata, a parte mais produtiva da propriedade escrava era o ventre gerador.

O clima, o ar mole e morno dos trópicos predispunham aos chamegos do amor e afastavam as pessoas do trabalho. O corpo negro, rijo e forte, com capacidade de transpiração em toda a sua extensão, e a divisão da sociedade em senhores e escravos, favorável ao sado-masoquismo criado pela superioridade do colonizador culto, foi a causa principal da conjunção carnal negro x branco que fez do Brasil um país cuja miscigenação não tem paralelo no mundo.

Os negros e negras oriundos do Cabo, da Guiné e da Serra Leoa, bonitos de corpo, eram os preferidos para o trabalho doméstico, para os concubinatos, para conduzir os patrões, ou para simples amores em que se regalou o patriarcalismo do Nordeste.

A negra Mina apresentou-se sempre no Brasil com todas as qualidades para ser uma excelente companheira. Sadia, engenhosa, sagaz, afetiva, com semelhantes predicados e nas condições precárias em que se achava o Brasil no 1º e 2º século em matéria de belo sexo, era impossível que a negra Mina não dominasse a situação. (ARARIPE JÚNIOR, apud FREIRE, 1969, p.48)

A importação dos negros não visou apenas energia para a lavoura, pecuária, trabalho com metais, mas também suprir a falta de mulheres brancas; o Nordeste, notadamente PE e BA, pela superioridade econômica, receberam negros mais caros porque mais cultos, belos de pele mais clara, marcando inarredavelmente a vida nordestina e brasileira no domínio da sexualidade e também em outros domínios que incidem diretamente sobre o comportamento sexual, como o vestuário, a linguagem, a religiosidade, a saúde, a culinária, o lazer.

Mas nem tudo foi luxúria e permissividade. Sendo o Brasil colônia de Portugal que esteve sob a Inquisição durante três séculos, a sexualidade nordestina não escapou aos rigores do santo ofício em duas visitações que ocorreram na Bahia e Pernambuco em 1591 e 1769.

Criada para julgar e punir os pecados da heresia, blasfêmia e feitiçaria, que desacatavam a fé e os mores sociais, e cuja pena capital era a morte na fogueira para que dos corpos não houvesse memória, o tribunal também condenou várias práticas sexuais como a sodomia, a bigamia, o bestialismo, o diabolismo e mais levemente o adultério, a molície e o lesbianismo. (MOTT, 1988; VAINFAS, 1997; BETHENCOURT, 2000).

No Nordeste, entre os homens, mais de 100 casos foram citados com condenações rigorosas e processos muito detalhados. A homossexualidade masculina envolvia alta circulação de parceiros e muito frenesi sexual. Registrou-se até a existência de um convertículo nefando chefiado pelo sapateiro pernambucano André de Freitas.

Entre as mulheres apenas 29 casos de lesbianismo foram citados, dos quais sete se converteram em processos, sendo três levemente castigados. Apenas a Felipa de Sousa foi rigorosamente açoitada em via pública e degredada de sua província – a Bahia. São não foi morta porque não usava instrumento em suas cópulas. Os romances homoeróticos femininos envolviam troca de cartas, paixões ardorosas, enredos duradouros, mas com maior discreção. A misoginia inquisitorial não condenou as lésbicas com mais rigor, por considerar que, em função de sua anatomia, as mulheres eram incapazes de se amar.

Com o capitalismo e o incremento da vida urbana e ascenção da burguesia, criou-se uma mentalidade organizadora de vivências estritamente familiares: o lar, a maternidade, a pureza, o esposo, a família delimitaram a oposição entre o público para o homem e o privado para a mulher, guardiã da virgindade das filhas, do sucesso econômico dos filhos, da honra do esposo.

Novas idéias sobre higiene, saúde, comportamento, limpeza urbana e iluminação foram disseminadas pelo Estado e endossadas pelos aparelhos repressivos como a religião, a medicina, a educação e a imprensa. O homem estranhou-se de si mesmo; de seu prazer, dos seus cheiros, do seu corpo (perfumes, desodorantes, talheres, roupas superpostas). Restrições foram impostas às expressões populares espontâneas e sensuais como as canções e danças: maxixe, o riso, o canto, o assobio.

Apanágio moral da sociedade, a mulher burguesa adotou regras castas no encontro sexual. As sinhás moças suspiravam, escreviam, sonhavam, sofriam e esperavam marido enquanto tocavam piano e aprendiam bordado. O amor era mais um estado da alma do que uma atração física.

As únicas manifestações de desejo eram feitas a sinais de leque/lenço, na confusão e no aperto à saída da igreja. O sexo era negado à moça e ensinado ao rapaz. O amor feminino restringia a participação do corpo e o casamento era degrau de ascenção social. Nas classes populares a aproximação era mais livre por não envolver a questão do dinheiro.

No sertão do nordeste, o coronelismo desenvolveu histórias de sexualidade onde afora o filho destinado a ser padre, a iniciação sexual dos rapazes era precoce pelo bestialismo e pelo uso das filhas dos moradores pelo patrão e pelo patrãozinho, a quem cabia tirar-lhes a virgindade. FREIRE (1969), nos fala de um tipo resultante da miscigenação nos engenhos de açúcar do interior do nordeste: o “cabra”, primeira pessoa depois do patrão, de físico pardo, cabelo duro, e muito louvado por sua virilidade e desempenho na cama. Homem de coragem, temido por ser o mantenedor da ordem do engenho.

As moças brancas da casa grande eram ensinadas a valorizar o matrimônio no qual tinham que ingressar antes dos 25 anos para não se tornarem vitalinas. No domínio do sagrado, Santo Antônio, São João e São José eram santos por cuja interseção procuravam evitar a vergonha do “caritó”. Em ordem de prioridade, os partidos iam do fazendeiro ao político, deste ao doutor, até o vaqueiro. Em último lugar estava o negro, que quando trabalhador, representava uma desgraça menor para a família. As moças que casavam sem o consentimento dos pais eram excluídas da solidariedade familiar por ofensa. A perda da virgindade era desonra que exigia o casamento mesmo sem a coabitação dos cônjuges, ou quando não havia casamento a reparação à honra da família requeria a morte ou a fuga do autor, e o isolamento social da moça “desonrada”.

Não podemos deixar de mencionar as prostitutas e sua função social: foram elas em todos os tempos as criadoras e as intérpretes da “arte erótica” negada às castas esposas. Ficou também sob sua batuta a iniciação sexual dos rapazes, fazendo os chamados filhos bastardos:

– filhos de brancos em negra, não com negra

– filhos de brancos em prostituta e não com prostituta

Podemos então dizer que como a identidade, a sexualidade é historicamente construída. Construímos neste meio milênio, uma sexualidade que reedita dialeticamente os modelos índio/branco/negro, somado à auto-representação da potencialidade sexual imamente em cada indivíduo. O script socialmente dado continua tão aceito quanto transgredido.

Pela condição imanente e inarredável da sexualidade a cada indivíduo, em toda parte estamos às voltas com essa potencialidade, esta energia, esta propriedade, essa pertença legítima, seja na intimidade dos lares, seja na mesa de bar, na literatura, na arte, na música, na dança, na oração, na contemplação à natureza, na empresa. É no trabalho que o adulto passa a maior parte do seu tempo de vida, e assim sendo, manifestações da sexualidade irão aflorar no espaço público. A sexualidade é fator de qualidade de vida. Atravessa a história o tecido social, as instituições e as mentalidades. Elemento constitutivo das relações humanas, fator importante no mercado de trabalho, na cidadania, na participação política, tanto quanto na vida privada das pessoas.

As nordestinas pobres, sem status e sem bens, tinham sexualidade mais livre e causavam grandes preocupações às sinhás. Quanto às escravas, brancas ou negras, cozinheiras, lavadeiras, rendeiras, parteiras, quebradeiras de coco, trabalhadoras do eito, não há muitos registros dos seus sonhos, a não ser no cordel, nos adágios, nos motes dos repentistas e nas canções. Seus envolvimentos sexuais com os brancos eram movidos por interesses carnais e pela produção de braços para a lavoura. Essa associação negra-pobre-fácil ainda hoje é feita no Brasil e personificada no assédio sexual, feito às empregadas domésticas, secretárias, etc., agora com ênfase no pobre ou subalterno como objeto de dominação.

ROSINHA INDIFERENTE

Agripino Aroeira / Lindolfo Barbosa

É eu morrendo de amor

E ela sem me querer,

É eu doido pra lhe ver,

E ela nem me chegando,

É meu amor aumentando

O dela nem existindo,

É eu pra ela sorrindo

E ela nem me ligando.

É eu dela me lembrando

E ela me esquecendo,

É eu castelo fazendo

E ela já derrubando,

É eu com ela sonhando

E ela de olho aberto,

É eu chegando bem perto

E ela se afastando.

É eu falando bem sério

E ela me debochando,

É eu pra perto chegando

E ela logo saindo,

É eu doido lhe seguindo

E ela se escondendo,

É eu de paixão morrendo

E ela nada sentindo.

É eu querendo beijá-la

E ela o rosto afastando,

É meu amor lhe jurando

E ela nem acredita,

É eu lhe achando bonita

E ela me achando feio,

É eu lhe ver me arripeio

E ela nem se agita.

É eu lhe beijando toda

E ela sentindo o beijo,

É eu ardendo em desejo

Ela mais fria ficando,

É eu de amor lhe falando

E ela sem dar ouvido

É eu no mesmo sentido

O dela sempre mudando.

ROSINHA INDIFERENTE

A rosa (Rosinha) é uma flor acostumada a receber a corte. Mesmo sendo uma flor delicada é também conhecida como a rainha das flores, portanto vaidosa em ser cortejada. Sua vaidade na canção torna-a indiferente, surda aos apelos e às artimanhas da sedução masculina. Contrapondo-se ao conquistador, a indiferença de Rosinha pode estar ancorada:

– na internalização dos signos historicamente impostos ao feminino (recato, pudor, ponderação, contenção, refreamento dos impulsos)

– na estratégia de negacear para seduzir mantendo vivo o interesse e aguçando o desejo do seu enamorado. O não dito, o não feito não significa necessariamente o não sentido. Rosinha pode estar querendo estimular a “falta”, a carência, o vazio de não tê-la, protelando o prazer para consegui-lo em aliança.

– Rosinha contrapõe-se à corte, persistente do enamorado porque não vê nessa união a possibilidade de um encontro pleno. Estaria num nível mais elevado, não apenas de ser escolhida, mas de fazer sua própria escolha amorosa.

– Por outro lado, o elemento masculino incorpora o conquistador, encarna o D.Juan, as investidas, a ação, a iniciativa da conquista, a luta para ganhar Rosinha:

Ele: chega perto fala sério faz castelo faz juras fala de amor

Ela: se afasta debocha derruba não acredita não dá ouvidos

– Ele admite que está sendo desdenhado e confessa isso, continua sua luta, pois no apaixonado o desejo prevalece sobre a razão.

– Registro inequivocadamente erótico-sexual: um fluxo libidinal perpassa toda a ação dele.

– É eu lhe ver me arripeio (me excito)

– É eu ardendo em desejo (inflamado)

– Eu de paixão morrendo (doente)

PEBA NA PIMENTA

João do Vale / José Batista / Adelino Rivera

Seu Malaquias preparou

Cinco pebas na pimenta

Só o povo de Campina

Seu Malaquias convidou mais de quarenta.

Entre todos convidados

Prá comer peba foi também Maria Benta.

Benta foi logo dizendo

Se arder não quero não

Seu Malaquias então lhe disse:

“Pode comer sem susto, pimenta não arde não”.

Benta começou a comer

A pimenta era da braba e danou-se prá arder.

Ela chorava, se maldizia

Se eu soubesse desse peba eu não comia.

Ai, ai, ai, ai, Seu Malaquias

Ai, ai, ai, você disse que não ardia.

Ai, ai, que tá bom, eu sei que tá

Ai, ai, ai, mas tá me dando uma agonia.

Depois houve arrasta-pé

O forró tava esquentando

O sanfoneiro então me disse:

“Tem gente aí que tá dançando soluçando”

Procurei prá ver quem era

Pois não era Benta que ainda estava reclamando!

Ai, ai, ai, ai, Seu Malaquias

Ai, ai, ai, você disse que não ardia.

Ai, ai, que tá bom, eu sei que tá

Ai, ai, ai, mas tá me dando uma agonia.

PEBA NA PIMENTA

Malaquias – “mala”, esperto, astuto, malandro, matreiro

Maria Benta – pura, benta, abençoada (virgem).

Peba – iguaria que é conhecida a nível de senso comum, como afrodizíaca, carregada.

Pimenta – afrodizíaco cujo uso foi outrora proibido para reprimir a excitação que levava à masturbação. Aumenta a temperatura do corpo. Fulando é “quente” , é fogoso. Fig. Erotismo.

Condição imposta por Benta: Se arder não quero não

Benta comeu, sentiu o ardor e se maldisse, censurou a mentira de Malaquias, mas continuou a comer: (que tá bom eu sei que tá, mas tá me dando uma agonia)

Mesmo mais tarde, quando o forró esquentou, Benta caiu na dança, continuou soluçando e envolvida na dança

O registro claramente sexual:

O peba aludindo ao pênis – que se esconde em caminhos subterrâneos, ocultos (vagina).

O peba é um animal notívago (em geral o sexo é feito à noite)

A ardência – primeira cópula, rompimento do hímen

A ambiguidade

XOTE DA PIPIRA

João do Vale / José Batista

Mané, tem um viveiro,

Tem passarim de toda qualidade

Zabelê, canário e currupião

Pipira, sabiá, tem azulão.

Rosinha, por lá brincando,

Pipira lhe beliscou

O dedo inchava, ela chorava

Ai, ai, ai dor

– O que é menina?

– Foi a pipira de Mané, me beliscou.

Já vi menina de carne reimosa,

Papira do bico venenoso,

Deixou todo mundo em alvoroço

Que a menina tá inchando

Do dedo até o pé do pescoço.

Por via disso lá no Bacabau

Ninguém pode ver outro engordando,

Censura, ai meu Deus que é um horror!

Fica o povo comentando:

– Mais um que a pipira beliscou

Vosmicê tá duvidando?

– Foi um que a pipira beliscou

Fica o povo comentando

– Mais um que a pipira beliscou

XOTE DA PIPIRA

Mané – Parece “trouxa”, bobo, mas o nome é usado para disfarçar sua periculosidade, sua traquinagem, sua virilidade, sua capacidade sexual.

Passarim – Chauí, 1991, p.35, considera o pássaro um símbolo para o órgão masculino. O passarinho é um dos apelidos que no nordeste é dado ao pênis.

Pipira – ave frugivóra, de coloração preta e avermelhada. Vive em cativeiro quando alimentada com frequência (animal guloso)

Rosinha – que era uma menina (portanto virgem)

– brincando ( o verbo brincar se presta ao jogo sexual), a pipira de Mané lhe beliscou

Rosinha ficou – inchada, chorando, sentindo dor, soltando ais. Rosinha tinha a carne reimosa (que tem reima, que causa prurido). Corpo que reage, que responde, que se altera, que se modifica. Não só sua anatomia, mas também seu funcionamento psico-emocional está alterado.

Pipira do bico venenoso – substância que altera e destrói funções; vírus ou principio contagioso. Fig. Aquilo que corrompe moralmente, má intenção.

Deixou todo mundo em alvoroço – não só Maria, mas também a sua família e o povo que notou. Maria inchada (alusão à gravidez)

Lá em Bacabau – ninguém pode ver outro engordando que logo censura que é um horror ( o falatório das cidades do interior nordestino) –

Conseqüências

a vergonha para família

o ridículo perante a sociedade

a honra do pai ultrajada

a perda da solidariedade familiar pela desobediência.

fulana foi comida

fulana se perdeu

fulana agora é rapariga

fulana foi deflorada,

fulana foi derrotada,

fulana foi desgraçada.

MANÉ GARDINO

Ari Monteiro / Elias Soares

Tá aí, tá aí, tá aí, Mané Gardino

Tá aí, tá aí pra você ver

Tá aí, tá aí, tá aí, Mané Gardino

Fulorinda bota os home prá roer

Mané dizia

Que era mentira minha

Que a mulher que ele tinha

Não dançava com ninguém

Eu disse a ele

Compadre não se avexe

Tu vai ver como ela mexe

Quando cai no xenhenhém

Mané Gardino

Quando viu tremeu o queijo

Olhando pro remelexo

Da mulher no xenhenhém

Franziu a testa

E disse num desafogo

Que botava a vida em jogo

Sabendo a mulher que tem

Tá aí, tá aí, tá aí, Mané Gardino

Tá aí, tá aí pra você ver

Tá aí, tá aí, tá aí, Mané Gardino

Fulorinda bota os home prá roer

MANÉ GARDINO

Esta composição retrata o medo da infidelidade

da cangalha

do chapéu de bode

do chifre

A nível pessoal

A credulidade do Mané. Mané acredita na mulher amada. Acredita que Filomena lhe é fiel em reciprocidade ao seu sentimento. O medo do corte, do luto de uma ruptura, da separação mutiladora.

A nível social. O medo do ridículo, do julgamento social, do aviltamento em sua condição de homem que pelos postulados patriarcais deveria estar hierarquicamente superior à mulher e dominá-la.

REFERÊNCIAS

1. BÍBLIA SAGRADA. São Paulo: Ave Maria, 1993.

2. CABRAL, Jussara Terezinha. Sexualidade no Mundo Ocidental. São Paulo: Papirus, 1995.

3. CASTRO, Josué. Geografia da Fome. 11 ed. Rio de Janeiro: Gryphus, 1992.

4. CHAUÍ, Marilena. Repressão sexual: Essa nossa (Desconhecida, 12 ed. São Paulo: Brasiliense, 1991.

5. DEL PRIORE, Mary. (org.) História das mulheres no Brasil. São Paulo: Contexto, 1997.

6. FREIRE, Gilberto. Casa grande e senzala. 14 ed. Rio de Janeiro: José Olímpio, 1969.

7. ________. Nordeste. 6 ed. Rio de Janeiro: Record, 1989.

8. HEILBORN, Maria Luiza (org.) Sexualidade: O olhar das Ciências Sociais. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed., 1999.

9. MOTT, Luiz R.B. O sexo proibido. Escravos, gays e virgens nas garras da Inquisição. Campinas: Papirus, 1988.

10. PARKER, Richard G. Corpos, prazeres e paixões. 3 ed. São Paulo: Nova Cultural, 1991.

11. PENNA, Maura. O que faz ser Nordestino. São Paulo: Cortez, 1992.

12. RIBEIRO, Darcy. O povo brasileiro: A formação e o sentido do Brasil. São Paulo: Companhia das Letras, 1995.

13. ROY PORTER, Mikulas Teich. (org.) Conhecimento sexual, ciência sexual. São Paulo: UNESP, 1998.

Apresentado no XI ENCONTRO LATINO-AMERICANO DA ACP – Socorro – Brasil – Out/2002