Supervisão de Apoio Psicológico com educadores de rua da Pastoral do Menor em Santana – S.P.

Ana Frota

* Trabalho apresentado no III Fórum Brasileiro da A.C.P. realizado entre os dias 10 a 16 de outubro de 1999, em Ouro Preto, Minas Gerais

I. INTRODUÇÃO:

Este trabalho constituiu-se numa proposta de supervisão de apoio psicológico a educadores de rua de uma Pastoral do Menor.

Nas palavras de Fédida[1] , a supervisão pode ser entendida como “o momento em que alguém se dirige à alguém ou a uma instituição, solicitando sua formação”. Ela ocorre quando um profissional leva em conta algo da objetividade de seu próprio caso, encontrando o outro, e assim iniciar um trabalho de ajuda. A dúvida gerada na prática do ofício é o momento de historicização de si mesmo e que pode corresponder à avaliação interna feita pelo profissional a partir de seus questionamentos pessoais. É isso que conduz à demanda por supervisão. Esta pode ser compreendida, portanto, como seu próprio encaminhamento para maior compreensão e conhecimento do ofício atuado. O sentido de supervisão de apoio psicológico, do qual partimos para a realização deste trabalho, é uma situação contextualizada, na qual o profissional acompanhado possa resgatar sua própria condição de indivíduo com dúvidas e estranhamentos na sua prática profissional de ajuda a outros, e, partindo de seus questionamentos, apresentar-se mais propriamente receptivo e disponível. É importante que o profissional sinta-se localizado geográfica e historicamente, condição indispensável para um comprometimento político e ético, uma vez que é no caráter de concreticidade do universal abstrato que se torna possível uma transformação verdadeira[2].

Foi partindo destas premissas básicas expostas acima, que sustentamos esta experiência que agora relatamos:

As prioridades do trabalho desta Pastoral, regional sul 1, ligada à CNBB, São Paulo, são a formação de agentes e educadores de rua; a implementação e concretização do Estatuto da Criança e do Adolescente; e a socialização da comunicação, via agentes multiplicadores da ação pastoral. Seu objetivo principal é, “à luz do Evangelho e da consciência crítica, estimular um processo que visa a conscientização, a sensibilidade e mobilização da sociedade, como um todo, na busca de uma resposta transformadora global, unitária, integrada à situação da criança e do adolescente, promovendo nos projetos de atendimento direto, a sua participação como protagonista do mesmo processo”[3]. A pastoral do Menor preocupa-se em proporcionar um melhor atendimento às crianças, adolescentes e seus familiares através da ação de seus agentes pastorais e educadores, buscando a implementação dos Conselhos de Direito Tutelares. Assim, busca aprofundar junto aos educadores a linha pedagógica em vista do trabalho direto com a população, visando melhoria nas condições de vida e conscientização de suas cidadanias.

Esta entidade religiosa[4] conta com um quadro de educadores, que tem como função atender crianças e adolescentes em situação de risco[5]. A condição de trabalho do educador de rua é extremamente estressante: de um lado tem o desafio de encarar as condições sócio-econômicas enfrentadas por sua clientela; por outro, lida constantemente com situações de crise. Morato e Rocha[6] revelam a experiência de tensão vivida por estes profissionais e o constante questionamento acerca de sua identidade profissional. Não existe uma política específica de formação dos educadores de rua, a escolaridade não é um requisito fundamental. Sua capacitação, quando ocorre, é feita a partir de cursos voltados para uma atuação politicamente organizada, orientações religiosas ou discussões técnicas, dependendo da instituição contratante deste educador .

A Pastoral do Menor de Santana tem como objetivo específico trabalhar com educação de rua, propondo-se a atender crianças e adolescentes em espaços abertos, começando pelas ruas, e dando continuidade ao trabalho em instituições abertas. Estes meninos de rua são descritos como “crianças que, em sua maioria, encontram-se entre os sete e dezessete anos de idade, vivem na rua onde trabalham para o auto-sustento e para ajudar no sustento de suas famílias, que quase sempre são demasiado pobres para atender às necessidades básicas de seus filhos. Têm pouco ou nenhum acesso a serviços básicos, tais como educação e saúde. Passam a maior parte do tempo na rua, onde tornam-se vulneráveis à exploração de terceiros e vítimas de danos físicos e morais”.[7]

No México, o programa “Menor en Situacion Extraordinária” tem como proposta conhecer o universo dessas pessoas, compreender suas necessidades e atuar de forma a oferecer uma perspectiva de vida a essas crianças e jovens. Para facilitar o seu desenvolvimento são utilizados desde trabalhos com a família dessas crianças até trabalhos feitos diretamente com elas, nas ruas. A Argentina também possui diversos programas de atendimento à população jovem de rua, através de oficinas e casas abertas, além de centros de promoção da infância e da família. Estes têm caráter preventivo, no sentido de evitar que as crianças sejam levadas à situação de rua. O Uruguai desenvolve o “Programa de Atención al Niño en la Calle” que visa, além de promover o desenvolvimento das potencialidades das crianças, permitir a sua participação e integração à comunidade. Procura, também, cobrir as suas necessidades básicas à nível de alimentação, saúde, higiene e vestuário. Podemos compreender o surgimento desses programas em função de diversos fatores entre os quais as crises econômicas que se abatem sobre estes países. Estas, somadas à urbanização descontroladas, a alta taxa de desemprego e a outros fatores, levam ao aumento do número de crianças e adolescentes em situação de rua. Também é necessário compreender que esses programas parecem refletir uma mudança política na forma de atuar junto a estas crianças: de uma atuação repressora a uma mais educativa. A primeira buscava o confinamento das crianças em instituições fechadas, massificadas, que não respeitavam a problemática desses jovens e crianças em situação de rua e que se voltavam apenas para a sua retirada das ruas. Já a situação educativa, proposta atualmente, procura respeitar a cidadania dessas crianças e jovens, realizando o trabalho em seu próprio ambiente, ou seja, na rua.

II. HISTÓRICO:

Ao final do ano de 1994, o Serviço de Aconselhamento Psicológico da USP recebeu um convite da Pastoral do Menor , região Santana, para trabalhar com seus educadores. Foi proposto um trabalho com grupos de supervisão de apoio psicológico, realizados semanalmente, com duração de duas horas cada.

De princípio, foram realizados 17 encontros no período de 06/03 a 26/06/95. A proposta inicial era que se realizassem oito encontros, ao fim dos quais seria feita uma avaliação do trabalho, juntamente com os educadores, considerando os objetivos perseguidos. Porém, percebemos que o trabalho de grupo demorou mais tempo para seu aquecimento e se fez necessário mais sessões para amadurecimento dos integrantes do grupo.

Novamente, no fim de 1995, a equipe da Pastoral de Santana entrou em contato com a coordenadora do serviço de Aconselhamento Psicológico da USP, solicitando um novo grupo, que somente pode ser iniciado em maio de 1996. Os primeiros contatos com a equipe foram feitos no final de julho. Esses se constituíram em reuniões da equipe da USP e a equipe de educadores da Pastoral, entrevistas individuais com os educadores e entrevistas com os meninos que freqüentavam a casa. No primeiro momento, cada integrante do grupo teve oportunidade de expor como se sentia em relação ao trabalho desenvolvido, como educador de rua. Muitas referências foram feitas ao trabalho de Supervisão de Apoio Psicológico, realizado no ano anterior, que foi considerado como um momento marcante na história deste grupo.

Nas entrevistas iniciais foi dito que as atividades com as crianças e os adolescentes estavam suspensas em virtude de um “quebra-quebra” que ocorreu na casa, recentemente comprada pela Pastoral. Por ocasião deste episódio, as dependências da casa foram danificadas por adolescentes que viviam no porão da mesma, fazendo-o também de ponto de tráfico de drogas, mesmo antes da sua compra pela Pastoral. Antes disso, a casa ficava aberta durante o dia para receber esses adolescentes e as crianças com as quais os educadores já desenvolviam um trabalho na rua. Era um espaço amplo, no qual os meninos permaneciam o dia inteiro, faziam suas refeições, assistiam à televisão e tomavam banho. Essa casa era uma demanda antiga deste grupo de educadores, e dos meninos acompanhados por eles. Por isso, a quase destruição dela foi muito desestruturante para os educadores, pois a nova casa representava o começo de um novo trabalho, cujo projeto ficou abalado com o “quebra-quebra”. Parecia, assim como nos dizia um dos educadores, “que eles tinham se quebrado junto com a casa”. Todos os educadores estavam extremamente apáticos, desanimados e assustados com a situação que se criou. Os meninos menores haviam sumido, temendo a agressão dos maiores. Os educadores também compartilhavam deste temor.

O grupo de educadores estava, então, numa situação caótica, acreditando que uma ajuda externa pudesse facilitar o recomeço de seu trabalho. Um dos educadores, nas entrevistas iniciais, falou sobre seu temor de que o trabalho de supervisão desencadeasse conflitos internos à equipe e desestruturasse ainda mais o grupo. De todo modo, era muito grande a esperança depositada na equipe de Supervisão, um desejo muito grande deste poder ser um marco de recomeço no trabalho da Pastoral de Santana.

Começamos o segundo momento de Supervisão deste grupo de educadores de rua já sabendo da realidade apresentada acima. Para nossa surpresa, os meninos foram retirados do porão à partir de denúncias da vizinhança, alterando o quadro anterior. Agora não havia mais a tensão constante causada pela ocupação do porão. Ao mesmo tempo havia sido autorizada, pela Pastoral do Menor, uma reforma da casa, com o conserto dos vidros, portas e janelas quebrados e a elevação do muro externo da casa. O grupo estava mais animado, escrevendo um plano de trabalho, conversando sobre a possibilidade de tornar o trabalho uma entidade jurídica, enfim, planejando: o que há muito não conseguia fazer.

Dentro do trabalho que havíamos nos proposto a fazer, também havia entrevistas com alguns dos meninos acompanhados pela equipe daquela casa. Nossa intenção era entrar em contato com pelo menos 10 crianças e adolescentes, e entrevistá-los antes e depois do processo de supervisão com o grupo de educadores. Pretendíamos compreender a relação estabelecida entre os educadores e os meninos, e como estes percebiam o trabalho daqueles. Além disso, era nosso interesse percebermos de que maneira nosso trabalho de supervisão estaria influenciando na prática dos educadores de rua. Porém, antes de encerrarmos as primeiras entrevistas, o contato com as crianças e adolescentes que ainda usavam a casa foi rompido, o que impossibilitou a continuidade das entrevistas. Este tipo de imprevisto não é novidade quando se trabalha com meninos de rua, devido à própria situação instável em que (sobre)vivem.

Vejamos como evoluiu este grupo dentro do processo de Supervisão de Apoio

III. O TRABALHO DE SUPERVISÃO PSICOLÓGICA:

As sessões visaram proporcionar, para os educadores, um espaço de discussão do trabalho que desenvolvem, facilitando a expressão de cada um dos participantes, suas reflexões sobre o papel de educador e sobre sua prática diária.

Inicialmente, a Pastoral se apresentou como um grupo muito peculiar: ao mesmo tempo em que eles eram um grupo de trabalho, pareciam apenas pessoas reunidas dentro de uma casa, sem saberem muito bem o que faziam ali. A supervisão visava compreendê-los enquanto educadores, nas dificuldades e inquietações ligadas à sua prática. A primeira etapa deste trabalho de supervisão foi realizada por dois facilitadores: um estudante do curso de graduação e um outro, do curso de pós-graduação(mestrado) do IPUSP. O grupo era composto por três educadores contratados pela casa, dois voluntários e duas pessoas que trabalhavam no Centro de Defesa da mesma região, além dos facilitadores.

Os dois primeiros encontros nortearam-se por assuntos de formação do pessoal e da prática que tinham. Não sabiam direito qual o objetivo que visavam atingir com o trabalho e nem mesmo se acreditavam no potencial dos meninos, o que acabava fazendo-os duvidarem da validade de seus próprios esforços . Nas ocasiões de encontro, o grupo, ficava inerte, esperando que os facilitadores lhes dessem uma configuração. Parecia-nos que ele não tinha referencial nenhum em termos de metodologia do trabalho.[8]

O terceiro encontro tornou-se um marco nesta primeira etapa da supervisão, uma vez que se fez possível explicitar tensões existentes na casa, entre os educadores, que passaram a falar do modo que cada um exercia seu trabalho e da falta de organização interna. Ficou clara a ausência de funções definidas, assim como o engajamento diferente das pessoas neste trabalho. É a partir daí que se fala das cobranças existentes entre eles, por parte deles mesmos, e de como elas aparecem veladamente, encoberta pelas falas cotidianas. Fala-se de co-responsabilidade, que, segundo eles, possibilitaria uma coordenação mais democrática. Invoca-se a verdadeira coordenadora do trabalho, que, por seu turno, afirma ser coordenadora apenas no papel e que na prática a casa tem total autonomia. Parece-nos que é como se todos pegassem o trabalho para si mas como ninguém fica realmente responsável, ele é de todos e de ninguém ao mesmo tempo. Outra particularidade do trabalho deste grupo de educadores que nos saltava aos olhos é que eles atendem a todos os garotos que procuram o serviço. Não possuem nenhum tipo de limite, o que nos fez pensar em uma obrigação religiosa em relação ao atendimento daquela população. Em verdade, os educadores tentam dar conta de tudo e acabam não realizando efetivamente um trabalho concreto, o que deixa frustração nos meninos e neles mesmos.

Nos próximos 3 encontros, os educadores falam de projetos que tentam implantar na casa e que não dão certo, assim como da não procura dos meninos pelas oficinas que oferecem. Acreditam que a não concretização de seus projetos deve-se à pouca mão de obra de que dispõem.

Até esse momento do trabalho de supervisão, eram muito comuns as faltas e/ou atrasos dos membros do grupo para as sessões. A nós parecia que o movimento dos educadores neste momento era de repetir o dos meninos: tinham o espaço da supervisão de apoio psicológico mas não conseguiam utilizá-lo. Nosso trabalho esbarra em semelhanças com o desenvolvido com os meninos: é grande a desorganização do grupo, eles não assumem suas necessidades, são extremamente individualistas, não conseguem falar de si mesmos nem diretamente ao outro. É comum os educadores usarem o outro para falarem de sua própria frustração e impotência. Percebemos uma tentativa de emergência do grupo, não concretizada.

No sétimo grupo pedem para ter mais dois ou três encontros por acharem que agora estão iniciando efetivamente uma avaliação de suas práticas e precisarem da nossa ajuda para concretizá-la. Resolvemos assumir essa demanda, fazendo encontros mais dirigidos. Assim, o oitavo encontro, último previsto de princípio, inicia-se com a coordenadora dizendo que não vê resultado no trabalho de supervisão. Paira um desânimo sobre o grupo e uma das educadoras fala em sair da casa. Eles não tem alguém a quem se reportar pelo trabalho e ninguém se importa se o trabalho é ou não desenvolvido. Além da desqualificação salarial, existe a desqualificação profissional . E por isso acabam não encontrando sentido em tornar-se uma equipe em relação à execução do trabalho. Acabam não tendo ligação com aquilo que fazem. Parecem exercer uma atividade mecânica. A Igreja não lhes tem oferecido uma infra-estrutura necessária para conduzirem um trabalho de tal monta. Coloca-se a possibilidade de fechar a casa. Um dos educadores acha que é preciso concentrar-se em um único projeto, pois só assim aprenderão a lidar com os seus próprios limites.

Já de início, a segunda etapa deste primeiro momento do processo de supervisão mostrou-se bastante diferente dos outros que havíamos feito. As discussões versaram sobre a relação dos educadores com a prática do trabalho, os limites que não conseguiam definir, a dificuldade em lidar com a mística da Igreja Católica, a não definição de funções específicas. Abriu-se, então, um espaço para discussão da prática que eles exercem e, mais do que isso, passamos a discutir o que eles acreditam que fazem pelos meninos e do que pensam sobre a educação de rua. Para os facilitadores, ficou uma sensação de que os educadores tentam com aquele trabalho ascender aos céus. A partir daí passamos a discutir o engajamento de cada um deles no trabalho da Pastoral. Compreendemos as características da vinculação de cada educador àquela instituição, ressaltando-se o compromisso profissional que cada um deles tinha com o trabalho. Tornou-se possível falarmos de desentendimentos dentro do grupo. Aqui parece que eles começam a se dar conta de que existem modos diferentes de trabalho e de engajamento dentro da casa. A coordenadora, que não participa muito assiduamente dos encontros, coloca-se meio de fora, dizendo que trabalha em um Centro de Defesa e que seus problemas eram outros. É colocado para ela que ela é a coordenadora oficial daquele grupo. Nesse momento a coordenadora se exime da responsabilidade, dizendo que o grupo pode auto-gerir-se. Os educadores falam em co-responsabilidade, mas na verdade não sabem como se organizarem para isso. Quando o número final de encontros que inicialmente havíamos proposto estava se aproximando, o trabalho finalmente começou a acontecer. Uma discussão disparada por um atraso e uma falta quase que coletiva, propôs-se a arrolar o que estava sendo feito ali e ao que gostariam de chegar. Pela segunda vez resolvemos incluir mais alguns encontros a este processo de supervisão de apoio psicológico.

Nos próximos três encontros, discutiu-se a prática do trabalho e o que eles efetivamente já faziam com os jovens. Além disso, buscamos entender as implicações políticas e a influência da Igreja nas suas práticas. A partir destes encontros sentimos necessidade de transferir para a prática as discussões teóricas. Os últimos encontros foram feitos através de atividades dirigidas, onde uma tarefa era proposta para o grupo e a partir disso realizava-se uma discussão que abarcava o envolvimento com o trabalho executado pelos educadores. As situações de trabalho tentavam dar conta da prática cotidiana destes educadores e do posicionamento deles enquanto tal. Por fim, para fecharmos o caminho que percorreramos até ali, foi proposta uma avaliação, ao final da qual ficou muito marcado o passo que cada um, individualmente, tinha dado ao longo destes 14 encontros. Foi possível constatarmos crescimento na dinâmica do grupo, enquanto à nível individual uma reflexão mais aprofundada sobre os reflexos da prática do educador de rua, não foi alcançada.

Propusemos, mais uma vez, estendermos por mais três sessões o processo de supervisão. Insistimos que se fechassem questões que ficaram pendentes relativas às relações interpessoais. O grupo tendia a colocar na equipe de facilitadores todas suas possibilidades de crescimento, buscando evitar o sofrimento, a dor e os confrontos. Na nossa presença inauguramos uma ausência que se tornou importante no sentido de proporcionar-lhes uma outra maneira de organização interna, tomando para si o cuidado com o grupo e consigo mesmo. Optamos, então, em fazer algumas alterações em nossa abordagem, sempre no sentido de facilitar o fechamento e trazer para o grupo questões relativas ao dia-a-dia da atuação daqueles educadores de rua. . Assim, o grupo inteiro trabalhou buscando um rumo para o trabalho. O primeiro tema focal trabalhado foi a questão da sexualidade. Verificamos crise, confusões e dificuldades com a sexualidade, seja dos adolescentes seja dos educadores. Refletimos sobre essa descoberta e acerca dos posicionamentos dos adultos sobre este assunto. Questionamos a crença e a disponibilidade dos educadores em realmente escutarem os meninos com os quais trabalham. Fechamos a discussão referindo a necessidade de um claro posicionamento dos educadores frente a transição na qual vivem os adolescentes. No segundo encontro, o tema de interesse escolhido foi sexualidade. Os educadores representaram uma situação comum na sua prática de educador, referente à masturbação. Foi possivel percebermos que a dificulde em lidar com a masturbação dos meninos também se refere às dificuldades pessoais ligadas à própria sexualidade. No encontro final tínhamos a proposta de fazermos um fechamento geral, mas o grupo estava bastante excitado com as situações que haviam acabado de vivenciar com alguns adolescentes. Segundo eles, pela primeira vez, o atendimento tinha sido permeado por situações relativas a sexualidade. Voltamos a discutir esse assunto, enfatizando a falta que sentiam de saber o que realmente pensavam a esse respeito, para então, discutirem e assumirem uma posição de grupo. O fechamento propriamente dito foi feito através de uma colagem coletiva, onde puderam retratar o significado dos encontros para cada um e para o grupo como um todo. Sentiam que começavam a se relacionar como um grupo de trabalho, que se auto-apoia sem abafar as diferenças individuais. Pretendiam buscar cursos que pudessem apoi-a-los em sua formação e instituir um horário de reunião de equipe e discussão do trabalho.

Atendendo pela segunda vez solicitação da casa da Pastoral de Santana, iniciamos uma segunda etapa de supervisão do grupo de educadores de rua desta instituição. Dessa feita, a equipe era composta de 3 funcionários contratados pela Cúria da Igreja Católica; 5 voluntários; e 1 coordenador. Com exceção dos três funcionários, que têm período integral na instituição, os outros aparecem semanalmente para darem sua contribuição. O trabalho desenvolvido por este grupo é feito na rua e, posteriormente, na sede da entidade. A intenção do grupo segue os objetivos da Pastoral do Menor, descritos anteriormente. A equipe de facilitação da USP era constituída por cinco pessoas: duas psicólogas (sendo uma aluna de pós-graduação, doutorado) e três estudantes de graduação da Psicologia. Uma das profissionais não pode participar até o fim do processo. Planejamos trabalhar com um número de sessões que variasse entre 6 a 8, com uma periodicidade semanal e com duração de 2 horas cada. As sessões de grupo e as entrevista iniciais e finais foram feitas com todos os educadores da Pastoral do Menor, sendo gravadas para posterior compreensão destas falas. O processo do grupo neste momento foi extremamente diferente do anteriormente descrito, como é possível vermos através das descrições das sessões que se seguem:

De princípio as colocações giraram em torno do “quebra-quebra” da casa e de como isto tinha afetado cada um deles. Alguns relacionaram-no à desorganização do grupo, percebida e manipulada pelos meninos. Para todos essa desorganização foi favorecida pela entrada de um novo coordenador na equipe, que segundo eles, “mais descoordena do que coordena”(sic). Facilitado pela ausência do coordenador nas duas primeiras sessôes, o grupo foi extremente catártico, expressando suas opiniões e sentimentos em relação a ele. O coordenador era colocado como o maior responsável pelos conflitos do grupo, ao mesmo tempo em que ficou claro que estes conteúdos ainda não haviam sido discutidos com ele. Percebemos que a fala dos educadores caracterizava-se pela impessoalidade, não assumindo responsabilidades por possíveis falhas dentro da desorganização da equipe. Falava-se sempre em termos de “o grupo”, mesmo quando se emitia opiniões sobre o coordenador e o serviço.

Na segunda sessão, o grupo voltou ao tema anterior, retomando o desagrado frente às atitudes do coordenador, descrito como muito autoritário, e que se definia como “um misto de Mussolini e Hitler”(sic). Porém, já foi possível percebermos que cada integrante do grupo assumia responsabilidade por seu próprio sentimento com relação a ele. Um dos educadores chamou atenção para a possibilidade do coordenador não ter se apercebido da reação do grupo frente a sua postura autoritária. Ao mesmo tempo, cada participante pode começar a refletir um pouco sobre sua parcela de responsabilidade na “quebração”. Interessante observar que, no decorrer desta sessão, houve um movimento do grupo no sentido das pessoas assumirem autoria pelo que falavam e sentiam, com relação ao próprio trabalho, às relações com os colega, e o desagrado com a coordenação do grupo.

Na terceira sessão, contamos com a presença do coordenador, o que gerou inicialmente um desconforto perceptível. Foi difícil iniciar o grupo, com as pessoas caladas. Com a quebra do silêncio, o grupo conseguiu transmitir o desagrado com relação às atitudes do coordenador, que escutou, reconheceu seus limites e propôs ao grupo trabalhar mais próximo e com mais diálogo. Foi possível que as pessoas se colocassem de forma não-destrutiva, facilitando um clima de pouca defensividade. Acreditamos que a postura do coordenador, de certa forma humilde e reconhecendo suas dificuldades com a clientela atendida pelo grupo- meninos e meninas de rua- além de suas características pessoais, facilitou ao grupo poder se abrir mais e reconhecer seus limites pessoais e dificuldades encontradas no trabalho.

O tema básico desta sessão, quarta, foi limites – pessoais e profissionais. Neste momento começou a ser pensado o que cada um compreendia pelo papel de educador, a proposta de educador de rua, a idéia que cada um tinha da problemática dos meninos de rua, o que se achava ser possível ser feito dentro da realidade brasileira e outras questões afeitas à prática do grupo. As colocações dos educadores, neste momento, transitavam entre o extremamente pessoal e o interpessoal, agora bem mais assumido. Percebemos um grande crescimento do grupo e dos seus integrantes, que podiam se ver, e ao outro, enquanto educador e pessoa.

O grupo foi iniciado, no quinto encontro, sendo entregue um plano de ação da Pastoral, que serve de guia aos educadores de rua. Tratamos dos projetos que os educadores tinham discutido entre eles. O grupo já não se sentia mais imobilizado. Considerando o crescimento da dinâmica grupal e individual dos seus integrantes, avaliamos que a próxima sessão seria a conclusão do trabalho de supervisão.

Assim, no sexto encontro, foi feita uma avaliação do processo do grupo por cada integrante, tendo sido considerado positivo, possibilitando aos educadores uma continuidade dos trabalhos, sem a necessidade de intermediação da equipe da USP. Para os facilitadores do grupo, o objetivo inicial foi atingido. Foi possível que os integrantes do grupo de educadores parasse e refletisse, não só seu trabalho, mas seus sentimento e atitudes pessoais, que puderam ser integrados por eles. O trabalho cresceu desde o ponto de dissolução despersonalizada no grupo até assumir responsabilidade pessoal pelo que lhe deve. Resgatou a crença na capacidade de auto-gerir-se, mesmo que dizendo do desejo de poder contar com nosso trabalho, caso voltassem a precisar.

IV. CONCLUSÃO:

O trabalho de supervisão de apoio psicológico oferecido a educadores de rua objetiva facilitar o encontro entre a identidades pessoal e profissional do educador, resgatar sua auto-estima pessoal e profissional, colaborar na sua formação teórico-profissional, facilitar a compreensão do contexto social, familiar e desenvolvimental dos meninos com os quais trabalham, além de discutir programas de apoio a ações dirigidas a tal população[9] . Enquanto uma proposta de supervisão de apoio psicológico atua em um espaço de intersubjetividade, onde a facilitação se dá à partir do contato com os educadores. O facilitador empresta sua subjetividade e, através do encontro que se dá entre facilitador e clientes, revela-se a experiência emocional a ser compreendida. Nossa proposta é, então, oferecer um espaço onde, através da suspensão do ritmo e sentido habitual do lidar cotidiano, possa o olhar voltar sobre si mesmo e, assim, transformações ocorrerem[10] .

Consideramos que houve um crescimento notável no grupo de educadores da Pastoral do Menor de Santana, possibilitando um redimensionamento de cada participante, tanto à nível pessoal como profissional. Na primeira etapa de supervisão, ficou marcada a dificuldade do grupo se configurar enquanto tal, assim como das pessoas assumirem seus papeis e responsabilidades pessoais e profissionais. A configuração grupal era buscada fora, tal como as soluções para as dificuldades e conflitos encontrados no trabalho e nas relações interpessoais. O grupo necessitou de um tempo muito maior do que o previsto anteriormente para auto-gerir-se. Ao final da 17. sessão o grupo pode, finalmente, funcionar como um grupo, sem que seus integrantes tivessem que eliminar suas diferenças individuais. A nós ficou claro que um longo caminho existia pela frente para aquele grupo de educadores. Assim, quando fomos procurados 1 ano depois pela equipe da Pastoral de Santana, achamos que o trabalho seria continuado. Nesse segundo momento, a equipe tinha uma cara nova, assim como também foi novo o movimento do grupo. O trabalho foi bem mais fluido, podendo ser concluído ao final de sexta sessão. Agora os educadores puderam bem mais facilmente apossarem-se do que era de cada um e assumir responsabilidade por seus sentimentos, limites profissionais e desejos de direcionamento do trabalho.

Notas de rodapé, aqui convertidas em notas de fim de texto

FEDIDA, Pierre. “Entrevista com Perre Fédida”. Revista Id, n.1: 59-69. São Paulo. (p.64)
Para maior aprofundamento na compreensão do que seja a supervisão de apoio psicológico, como proposto pelo SAP, ver os capítulos anteriores que tratam sobre o assunto
Objetivo geral do plano de ação da CNBB – Regional Sul 1 – Pastoral do Menor, para os anos de 1996-1998.
“Alicerçada numa mística de compromisso e de solidariedade com o pbre e com o indefeso, a Pastoral do Menor tem uma Espiritualidade bem definida: com coragem e determinação; pela certeza de caminhar na companhia do Pai, insere-se na trama humana e assume seus riscos. Constroi daí sua identidade que se traduz no modo de ser, pensar e agir: olha a crinaça com olhar de Deus e compreende sua dignidade como imagem e semelhança do mesmo Deus”.
Plano de Ação da CNBB – Regional Sul 1 – Pastoral do Menor, para oa anos de 1996-1998.

São consideradas crianças em situação de risco aquelas expostas a situações de maus tratos ou abandono social.
MORATO, H. e ROCHA, C. Educador de Rua: um desafio à Abordagem Centrada na Pessoa. Boletim de
Psicologia, 42(96-97): 1-3,1992.

CARVALHO, E. Uma experiência de acessoria a educadores de rua: Temas Psicológicos.
Revista do NUCEPEC – UFC, Fortaleza, 1994.

Iremos, no decorrer do texto, tecendo algumas análises que fomos construindo durante o trabalho de grupo (em itálico).
MORATO, H. e outros. Uma Proposta par capacitação de educadores de Rua. (mimeo)
MORATO, H. e outros. Supervisão de Apoio Psicológico: espelho mágico para desenvolvimento de educadores de rua. (mimeo)