Teoria Viva

Maria Stella Dunshee de Abranches

Resumo

Este trabalho é uma tentativa de expressar a vivência organísmica através da escrita.
Revela um possível estágio entre o vivido e a descrição dele num encontro de razão e emoção, que ora se integram, ora se alternam, expressando teoria e vivência, teorizando sobre a vivência e dando vida a teoria.
A vida me empolga, mãe interessa acima de todas as teorias, me transforma todos os dias, me leva além da esfera do intelectual, numa transcendência imprevisível.

Quero escrever sobre ela. Impossível fazê-lo de uma forma distante e impessoal. Ao mesmo tempo a exigência do saber científico me pede uma escrita linear e coerente, a qual dificulta minha expressão e a aprisiona. Decido ignorá-la.

O que é ser centrada na vida?

Questão que se faz presente em mim. Necessita da explicação, do racional.
É simples e complexo, é buscar, encontrar e seguir adiante, desdobrar o potencial existente no limite máximo possível. É encontrar o sentido da aparência e também entender a necessidade de conhecer a essência. Reconhecer a importância do vivido sem desprestigiar a razão. Perceber que a sincronicidade do mundo está em mim.

Palavras, palavras, símbolos do pensamento! Tentativas precárias de expressar o vivido.

Os que pensam, os intelectuais são privilegiados? Mas só pensar não basta, e até pode adoecer. Mas também é preciso pensar, porque faz parte do potencial humano. Mas o privilégio do pensar é pobre.

Ele se perde na complexidade do ser, limita a existência, aprisiona. Diz Fernando Pessoa: O sentimento abre as portas da prisão com que o pensamento fecha a alma.

Nietzsche percebeu as limitações do socratismo. Mas pensou sobre o assunto, precisou das palavras (símbolos do pensamento) para transmitir suas idéias, porque sentiu a necessidade de expressá-las como parte de seu vivido.

Esquematizar as idéias de uma forma racional, coerente, de acordo com os conceitos limitantes e externos, é importante. Mas o escrever livre, também.

Agora, aqui, as idéias fluem. Quero apenas escrever desta forma fluida, como se fosse psicografado. De mim para eu mesmo. E depois jogar no mundo.

Esse é o fluir de minha vivência organísmica. O registro do meu momento presente que sai de mim e que vem junto com a solidão de quem entende a impossibilidade da apreensão da subjetividade do outro. Busco apenas a confirmação dessa diferença.

O que é para mim estar centrada na vida?

É poder ir ao mundo e voltar a mim, num fluxo e refluxo contínuos. E sentir o corpo e a mente ligados num só corpo. É ouvir música pelos pés, pelo corpo todo. E me arrepiar de emoção e chorar pelas mãos. É olhar para elas, as mãos, e me emocionar por tê-las. E pagar o preço da entrega e da não entrega também. É como disse Caetano Veloso, saber a dor e a delícia de ser o que é.

Sinto que a vida passa, às vezes sem sentido. E de repente o sentido chega, avassalador, arrazador. E eu tombo, e eu me levanto, atordoada. A vida atordoa, o não viver não. Esse cansa, agoniza de tédio.

Mas o viver também não perdoa. Ele se expressa com uma crueldade que não é boa nem má, simplesmente é. A vida pode ser cruel, porque também pode ser magnânima, bondosa!

Nada além, nada além de uma ilusão, diz a canção. Uma idéia. Carl Rogers dizia: o mundo se assemelha a uma grande idéia. Os homens pensam, constroem as teorias e a própria realidade em torno delas. Se fecham nelas, ficam presos, querendo ir além e morrendo por não conseguirem ir. Adoecem, apodrecem, cheiram mal. Mas quando ousam, conseguem cumprir seus ciclos, entram em sintonia com o fluxo da vida. Apenas envelhecem.

Que louca idéia esse mundo! Cidades, campos, casas, ruas, escolas, fábricas, asfalto, cadeia, nota, esquerda, direita, médico, doença, fumaça, verde, mar, rios e montanhas. Que mistura fantástica.

É o ar que entra, o ar que sai, dos pulmões para o mundo. É o mundo todo que eu respiro. È ter tudo, ver tudo. Se sentir parte de tudo e do nada. É a vida que flui através de mim, pelas veias. Diz Chico Buarque: meu sangue errou de veia, se perdeu. . . Que agonia! O sangue perdido! A vida perdida! A importância do se perder para se achar!

E a consciência pré-reflexiva? Pode ela ser expressa pelas palavras? Será que é isso que estou fazendo?

A rapidez da minha mão, quase não acompanha as minhas palavras. Essas vem de dentro, aos borbotões. Aparentemente não há a intermediação do pensamento. Será isso possível? Podem as palavras não serem meras representações das idéias? E sim as próprias idéias gravadas no papel? Palavras = Idéias. Que coisa mais maluca, mas é assim que parece ser. Não é o processo linear que aprendi: vivência – descrição – simbolização-. como se existisse um estagio entre a vivência e a descrição dela. Penso que é onde se encontra a arte.

Vou sentindo e escrevendo. É a vivência desenhada em forma de letras e palavras, quase que imediatamente. Quase que! Então não é ela. Mas também não é a descrição dela. Parece com a arte. É arte.

Somos todos artistas quando criamos o verdadeiro!

Lembro Nietzsche ao dizer que a ciência ao se ocupar na busca da verdade se incapacita para criá-la, pois o faz sob o pressuposto de que o verdadeiro existe em si mesmo. Para ele a verdade só existe enquanto criação do homem. O próprio mundo só existe como produto da criação humana!

Assim, esta é a minha criação. Mistura de razão e emoção, que só a mim cabe entender.
O outro pode até dizer:

– Gostei, não gostei, está bom, está ruim, me acrescentou algo ou não valeu nem a pena ler.

Mas só eu realmente posso saber o sentido que essas palavras tem para mim nesse exato momento da minha vida.
Trabalho apresentado ao VII Encontro Latino Americano da Abordagem Centrada na Pessoa, realizado de 9 a 16 de outubro de 1994, em Maragogi – AL — Brasil.