Terapia de Grupo: 4ª. Fase da Abordagem Centrada na Pessoa?

Maria Stella Dunhee de Abranches
Recife, outubro de 1994.

Resumo

Este trabalho tem por objetivo propor a criação de uma 4ª. Fase na Abordagem Centrada na Pessoa, a partir de 1974, com o surgimento de uma nova forma de terapia de grupo, onde a especificidade do aspecto grupal se sobrepõe à terapia individual antes estendida ao trabalho com grupos.

Introdução

A Abordagem Centrada na Pessoa passou por períodos distintos no que se refere a elaboração de seus conceitos.

Difícil tarefa é a de delimitar no tempo o início e o fim de uma teoria. Podemos dizer que a ACP iniciou-se com os estudos de Carl Rogers, mas também, se quisermos ir mais além poderemos fazer referência, por exemplo, ao existencialismo europeu que impregnou os EUA durante a 2ª. Guerra Mundial, à mística judaica com a sua posição antagônica a teorização e a erudição, à Otto Rank com sua terapia da relação e a outros mais.

Nessa época, haviam dois movimentos no âmbito da psicologia que sobressaiam: a psicanálise, com sua visão determinista psicogênica e o behaviorismo que possuía uma visão determinista ambiental. E foram essas duas correntes que ocuparam os estudos de Carl Rogers por algum tempo. Em 1925, ele inicia sua carreira psicológica dentro de uma perspectiva behaviorista, objetivista, e em 1927 tem os seus primeiros contatos com a psicanálise, quando se depara com a questão da subjetividade. Posteriormente, entra em contato com a terapia da relação de Otto Rank, e tenta dar a ela um caráter de cientificidade.

Durante toda a obra de Rogers nota-se claramente este confronto da subjetividade com a objetividade. E é muito natural que isso ocorresse justamente por ser esta uma fase de transição dentro da psicologia onde um novo modelo estava sendo criado, mas ainda Rogers se encontrava muito preso ao empirismo e ao pragmatismo característico do modelo cultural de sue época. Primeiramente, ele ainda no esteve ciente de necessidade, posteriormente evidenciada em sua obra, da mudança de paradigma na ciência. Por isso, inicialmente, faz a tentativa de elaborar sua teoria dentro dos moldes da ciência tradicional, e só bem mais tarde assumiu a necessidade de uma mudança do paradigma científico.

O trabalho de Rogers, em síntese, foi realizado utilizando pragmaticamente um método fenomenológico-existencial, ou melhor, ele aplicou pragmaticamente um método fenomenológico numa atitude existencial de psicoterapia.

Esta questão traz em seu bojo algumas contradições, já que a própria fenomenologia surge como uma critica ao empirismo, e o próprio conceito de subjetividade está fora por principio de uma psicologia empirista.

Aliás, Rogers em sua obra menciona muito POUCO a fenomenologia, não fazendo referência a Husserl, nem a Heidegger, citando apenas alguns fenomenólogos americanos, tais como Sthendal e Gendlin.

Uma Breve Retrospectiva das Três Primeiras Fases da ACP

O início da psicoterapia Centrada na Pessoa varia segundo diferentes autores.

Para Hart ele se dá em 1940, para Gondra em 1939 e para Vera Cury o inicio da psicoterapia propriamente dita só aconteceria em 1951, quando Rogers mudaria a idéia de aconselhamento para psicoterapia de fato.

Vamos, para efeito deste trabalho utilizar as delimitações temporais de Hart.

Segundo Joseph Hart, a 1ª. fase da psicoterapia Centrada na Pessoa denominada não-diretiva (1940 a 1950), caracterizou-se pela criação de uma atmosfera permissiva, não interventiva, de aceitação e clarificação.

Esta fase, que poderíamos caracterizar como pobre em termos de formulações teóricas, teve a importância de servir de oposição às técnicas vigentes de diretividade, onde Rogers coloca sua insatisfação com as abordagens existentes de psicoterapia.

Ele enfatiza a capacidade do individuo de se auto-dirigir e explicita as atitudes do terapeuta que deveriam ser de aceitação e respeito pela pessoa do cliente da forma como este se percebe.

A função propriamente dita do terapeuta era basicamente técnica, de clarificação verbal do material trazido pelo cliente, numa tentativa de elucidar o sentido do que estava sendo dito. Por isso pode-se dizer que o objetivo do trabalho terapêutico era a obtenção do INSIGHT, através da utilização da técnica de CLARiFICAÇÃO VERBAL.
O processo terapêutico resumia-se na catarse, que produziria o insight, o qual deveria ser seguido por ações positivas. Para tanto, o terapeuta se colocava numa postura de distanciamento do ciente, priorizando e compreensão intelectual, dentro de um critério de ACEiTAÇÃO POSITIVA INCONDICIONAL.

Nesta época Rogers ainda se referia ao termo paciente, estava bastante preso ao modelo médico, e até aproximadamente o ano de 1951, também se utilizava do termo consulta psicológica, em lugar de psicoterapia. Isto porque só médicos podiam fazer psicoterapia. Pela mesma razão utilizava o termo aconselhamento.

Na 2ª. fase da psicoterapia Centrada na Pessoa, denominada REFLEXIVA (1950 a 1957) Rogers baseia suas hipóteses sobre a relação terapêutica em observações de suas próprias experiências subjetivas na interação com o cliente (CURY, 1987, p. 14).

Esta fase é caracterizada pela reflexão dos sentimentos e por uma maior valorização das atividades do terapeuta. A EMPATIA aparece como um dos principais conceitos desta fase.

Aliás este conceito é bastante polêmico hoje em dia nas teorizações sobre a ACP. Podemos entendê-lo do ponto de vista empírico, tal como foi elaborado por Rogers, e do ponto de vista fenomenológico. Para Rogers empatia é a apreensão da subjetividade do outro, já o conceito fenomenológico de empatia pressupõe a abertura para a diferença do outro e também a tensão da diferença entre um e outro, ou seja, o encontro de duas intencionalidades, de duas consciências de si, inviabilizando portanto, a apreensão da subjetividade do outro.

Esta fase caracteriza-se por uma intensa produção teórica, por uma modificação quantitativa nas atitudes do terapeuta que no entanto ainda não estabelece com seu cliente uma relação dialógica, pois o terapeuta ainda não entra na relação com seu mundo fenomenológico, ele apenas focaliza o referencial do cliente, agindo como um espelho. Não é mais a distância da primeira fase, mas ainda não existe a inter-relação vista na 3ª. fase.

Na obra Psicoterapia e Relações Humanas, Rogers define alguns constructos teóricos: tendência atualizante, noções do eu, dos estados de acordo e desacordo internos, já fala em consideração positiva incondicional no lugar da aceitação incondicional (Cap. VIII). Define sua teoria da personalidade e da dinâmica de comportamento (Cap. X). Teórico-filosoficamente se refere também às teorias das relações familiares, da educação, da aprendizagem e das relações humanas (Cap. XI). Descreve também como deveria ser o funcionamento ótimo da personalidade (Cap. XIII).

Podemos dizer também que nesta fase notamos nitidamente a presença de conceitos fenomenológícos, no que se refere à possibilidade do cliente de vivenciar e expandir seu vivido na relação com o terapeuta. E o conceito de consciência organísmica, do vivido como o experienciar organísmico do cliente. Outro conceito importante na obra de Rogers é o de CONGRUêNCIA, que significaria o estado de acordo interno entre o sentir e o simbolizar, ou melhor, entre a experiência vivida e a simbolizada. O estado de congruência significaria em última instância, o estado de funcionamento saudável da pessoa.

Nesta 2ª. fase, para Rogers, a mudança terapêutica se daria pelo desenvolvimento da congruência do conceito de SELF e do campo fenomenológico (Rogers in HART, 1970, p. 8).

A imagem de SELF é a imagem que o ser faz de si mesmo, estruturado pela mediação com o ambiente, ou seja, o constructo da consciência do ser em si no mundo.

Outro conceito importantíssimo desta fase é o de TENDÊNCIA ATUALIZANTE, que seria o potencial de crescimento e auto-realização. Essa capacidade de crescimento seria geneticamente determinada, possuiria uma predisposição para o desdobramento desse potencial e sena comum a todos os seres vivos. O sentido de auto-realização, incluiria a consciência de si e portanto sena próprio do homem.

Posteriormente, Rogers irá estender este conceito para o universo como um todo através do seu constructo TENDÊNCIA FORMATIVA DO UNIVERSO, o que representa um passo importantíssimo para o novo enfoque de trabalho com grupos que surgiu na década de 1970 e que será exposto na 3ª. parte deste trabalho.

A 3ª. fase, denominada Psicoterapia Experiencial (1957 a 1970) caractenzou-se por uma grande variedade do comportamentos (intervenções) que expressam as atitudes básicas, focalização na experienciação do cliente e expressão da experienciação do terapeuta (HART, 1970. p.8).

Nesta fase a mudança de personalidade ocorre pelo crescimento do continuum do processo inter e infra-pessoal e pela aprendizagem da utilização da experiência direta (HART, 1970, p. 8). Esta 3ª. fase veio posterior ao trabalho de Rogers com esquizofrênicos, quando sentiu a necessidade de uma maior expressividade do terapeuta.

A visão da terapia como um processo exponencial levou Rogers a descrever também os fenômenos vivenciados pelo terapeuta. Neste sentido, ambos, terapeuta e cliente, afetam-se mutuamente embora estejam em níveis diferentes na escala de experiênciação. Esta parece ser a única diferença significativa entre o terapeuta e seu cliente – a disponibilidade do primeiro para fluir de acordo com as experiências diretamente sentí-las durante a interação num grau mais aprofundado do que o cliente (CURY, 1987, p. 21,22).

De uma certa forma, nesta 3ª. fase, Rogers supera a dicotomia entre objetivo e subjetivo, dando ênfase à subjetividade que se constitui na relação com o mundo. Rogers reconhece que o modelo linear de causalidade não se adapta mais a realidade humana. Nesta fase expenencial a relação cliente terapeuta em vez de linear se toma recíproca. O enfoque que antes era dirigido só ao cliente passa a abranger à relação.

Podemos dizer que esta fase não trouxe contribuições teóricas de porte para a ACP. O que realmente caracteriza a fase experiencial é o fato de que a pessoa do terapeuta esta presente na relação, como o diferente, afirmando a autonomia da produção de sentido do cliente, possibilitando a confirmação da sua experiência, de seu vivido.

O experiencial para Rogers é pré-reflexivo, possui significações e conteúdos implícitos. Pode ser conhecido pelo indivíduo se ele estiver em estado de acordo interno. É, portanto, um conceito que emerge da fenomenologia e se dá no nível pré-conceitual da consciência, como evidência imediata na relação entre o sujeito e o mundo.

Uma Nova Forma de Terapia de Grupo: 4ª. Fase da ACP?

Sabe-se que as formulações de Rogers sobre terapia individual dessas três primeiras fases, foram ampliadas para a terapia de grupo desde 1945, mas somente a partir dos anos 70 começou-se a trabalhar com grupos dentro de uma nova formulação: a de tratar o processo grupal de forma diferenciada do somatório dos processos individuais. O processo grupal passa a ter uma especificidade que o caracteriza e o difere do processo individual. Assim, em vez de se trabalhar com pessoas dentro do grupo, passa-se a se trabalhar com o coletivo grupal, percebendo-se que a tendência formativa do grupo é diferente da soma das tendências atualizantes dos indivíduos que o constitui.

Algumas das vantagens de se trabalhar com grupos: aspecto financeiro (terapeuta ganha mais, ciente gasta menos), o cliente interage com uma quantidade de pessoas as quais não têm com ele um vínculo de pagamento em dinheiro aumentando as possibilidades de relação, a recriação pelo grupo da situação cultural em que a pessoa está inserida de uma forma mais fidedigna que na terapia individual.

É fundamental no trabalho com grupos o clima de segurança criado pelo facilitador e pelo próprio grupo, como também a descentralização do poder do terapeuta. O grupo deve se desenvolver em função da multiplicidade das vivências de seus participantes.

As mesmas contradições enunciadas no inicio deste trabalho quando nos referíamos ao desenvolvimento da Abordagem Centrada na Pessoa, se evidenciam também no trabalho com grupos, já que, inicialmente era estendido aos grupos as mesmas condições da terapia individual, e só mais tarde percebeu-se que seria necessário alterar esse modelo devido a outras implicações que o processo grupal trazia em seu bojo. Assim a cultura americana pragmática e empírica, centrada na individualidade, e portanto apolínea nesse aspecto, se contradiz com a fenomenologia européia que privilegia a relação, a consciência coletivizada dionisíaca.

Nos grupos, constata-se que os momentos em que a consciência de si se dissolve no coletivo são regeneradores da própria individualidade, possibilitando um retomo a si mesmo enriquecido pela experiência da multiplicidade, e não desinidores da consciência de si como entende o psicologismo, que é o entendimento da psicologia sem levar em conta a cultura, a antropologia, a sociologia, etc.

Assim podemos dizer que a partir de 1974 a Abordagem Centrada na Pessoa, ao sentir a necessidade da adaptação ao funcionamento do grupo, teve que assumir uma perspectiva dionisíaca em detrimento do viés apolíneo, socrático e religioso no qual vinha se desenvolvendo desde o seu nascimento.

Podemos então considerar o inicio em 1974 de uma 4ª. fase para a ACP? Acredito que sim. Fase esta filosoficamente diferenciada, na qual o processo grupal aparece como a grande força, libertando-se dos paradigmas da terapia individual, e até mesmo trazendo para esta algumas contribuições tais como a influência das variáveis ambientais e culturais no processo terapêutico, a extensão dos resultados obtidos com grupos para a resolução de conflitos internacionais e para as relações humanas em geral.

Obs.: Pretendo desenvolver esse questionamento na monografia de conclusão do curso de especialização na Abordagem Existencial Fenomenológica Centrada na Pessoa que irei concluir em dezembro deste ano de 1994.

Bibliografia

1. CURY, Vera Engler – Tese de Mestrado apresentada ao Instituto de Psicologia da Universidade de São Paulo, 1987.

2. CURY, Vera Engler – Tese de Doutorado apresentada à Faculdade de Ciências Médicas da Universidade de Ciências Médicas da Universidade Estadual de Campinas, 1993.

3. FONSECA, Afonso Lisboa – Grupos Fugacidade, Ritmo e Forma, São Paulo, Agora, 1988.

4. HART, Joseph – New directions in client centered therapy, New York: Houghton Mifflin, 1970

5. ROGERS, Carl – Psicoterapia e Relações Humanas, Belo Horizonte, Interlivros, 1975.

6. ROGERS, Carl – Um Jeito de Ser, São Paulo, EPU, 1983.

Trabalho apresentado ao VII Encontro Latino Americano da Abordagem Centrada na Pessoa, realizado de 9 a 16 de outubro de 1994, em Maragogi – AL — Brasil.