Trabalho com pais e participação comunitária

Monica Allende Serra

As dificuldades encontradas no trabalho com comunidade podem ser mais facilmente compreendidas se observadas sob uma ótica social e psicológica.

O CEAF – Centro de Estudos e Assistência à Família – ao organizar grupos de pais nas comunidades mais pobres da Grande São Paulo procura, principalmente, estimular em cada um a consciência do que possuem, de seu saber, de seu poder, de que são, para que, enfim, promovam mudanças e determinem a si mesmos seus caminhos.

A tarefa de motivar a população para o comparecimento ao grupo do pais não é certamente fácil: transpor as barreiras do conformismo é um desafio que muitas vezes exige competência e criatividade para quem se propõe a trabalhar com a população carente.

As condições de vida afetam o estado psicológico das pessoas, alterando a percepção de si do mundo. Circunstâncias adversas geram, por um lado, o isolamento e a marginalização e, por outro, o conformismo calcado no sentimento do descrença nas próprias potencialidades. A falta de dinheiro, de educação formal, de poder e de participação levam o indivíduo a estender a outras áreas de sua vida a sensação de “não ter”, ‘‘não saber ‘‘não poder” , “não ser” subtraindo um bem muito valioso para o humano que é a responsabilidade em conduzir dignamente sua história.

Potencializar o ser e o pensar individual e social são fatores fundamentais para brecar a reprodução da marginalidade.

É possível observar que, freqüentando as reuniões de pais, o individuo cria a sensação inicial de que “eu tenho alguma coisa” (este grupo é meu) ou que “eu penso alguma coisa” (eu concordo ou discordo), “eu sou alguém” (sou reconhecido) ou “eu posso fazer algo” (posso realizar).

Surge um novo tipo do consciência do poder individual quando se é reconhecido como pessoa e isto leva não só à identificação de outras formas de poder, como também à compreensão da existência do um coletivo.

A partir desse momento é que naturalmente o grupo passa a encontrar e partilhar suas próprias soluções sem que o coordenador, pessoa de fora, venha “doar” idéias ou fórmulas de executá-las. As vezes, numa fase inicial, é bastante difícil levar o grupo a romper com expectativas e vencer a frustração de não obter soluções prontas de alguém que pense e aja por todos. Mas, por outro lado, a satisfação de identificar potencialidades é intensa e produtiva e supera qualquer custo.

O papel do coordenador é o de ser um líder cuja função é a de conduzir o grupo na descoberta de seus próprios lideres. Seu, desempenho esbarra frequentemente em alguns confrontos: a confiança adquirida a respeito do seu “saber” com a confiança a ser desenvolvida no “saber” da população;, o caos de algum momentos com momentos Seguintes de intensa criatividade; ou até a imagem que se tem dele como detentor do “ter”, ‘‘saber’’, e “ser” com suas carências pessoais passíveis de despertar a qualquer instante.

É muito provável que, na tarefa do propiciar o encontro da condição da dignidade humana, o coordenador esteja, ele mesmo, indo ao encontro de sua própria condição de pessoa, nesses confrontos de gente para gente.

Publicado no Boletim Paulista da ACP – São Paulo – No. 1 – Out. Nov. Dez./1987