TRANSFORMANDO DORAS EM CARMOSINAS:UMA TENTATIVA BEM SUCEDIDA

Vera Cabrera DUARTE

Artigo Publicado: Living Drama in the Classroom: Uma Proposta de Abertura à Aprendizagem Significativa. Psicologia da Educação – Revista do Programa de Estudos Pós Graduados da PUCSP, São Paulo, n. 12, p. 9-32, 2001.

“… Mas, Senhor Presidente, existe o antes, a infância e porque não o período da minha educação primária. Acho que é aí que tudo começa. Ao trabalhar o mundo da Professora Dora, do ‘Central do Brasil’, lá na infância, é que fui buscar na minha memória as primeiras professoras que me alfabetizaram. Credenciadas, respeitadas, prestigiadas professoras da minha infância. Professoras de escolas públicas que eu freqüentei no subúrbio do Rio.” [1] e [2]
“Aprendendo a Aprender: a Importância da Reflexão” é um módulo que norteado pelos aspectos afetivos envolvidos no processo ensino-aprendizagem, se alicerça em suas duas vertentes centrais: a aprendizagem e o ensino. Em se tratando de reflexão acerca do fazer e do saber do professor, parece inadequada a cisão entre o aprender e o ensinar. No entanto, tal separação é feita apenas com o intuito de focalizar, em primeira instância, a aprendizagem – promovendo uma reflexão retrospectiva acerca das diferentes formas sob as quais diferentes tipos de aprendizagem ocorreram nas histórias de vida dos professores/alunos do módulo. Em seguida, a vertente ensino é focalizada, levando-se em consideração que, muitas vezes, as formas pelas quais aprendemos determinam, em parte, as formas pelas quais ensinamos. Assim, relembrando nossos sucessos e fracassos em diversos momentos de aprendizagem escolar (ou não), somos capazes de identificar, na nossa prática educativa, as várias práticas de nossos ex-professores e educadores.

“… Lembro especialmente, com muito carinho, de Dona Carmosina Campos de Menezes. A professora que me alfabetizou. E mais do que isso, que me ensinou a ler, o que é um degrau acima da alfabetização. Naquele tempo, as professoras ainda se chamavam Carmosinas, Afonsinas, Ondinas..”

Aprender significativamente é o que ocorre quando se leva em consideração os objetivos pessoais do aluno e, portanto, a ênfase a ser dada é no aluno situado no seu momento histórico, determinado por um contexto socioeconômico, político, cultural e religioso (Duarte, 1996: 37). É o que se observa nas palavras de duas professoras que assistiram ao nosso curso:

About my learning process

Talvez soe estranho mas até aqui não havia me dado conta do quanto o processo de aprendizagem exige de um indivíduo. Não é só de trabalho, dedicação, esforço, disciplina que estou falando, mas também daquilo que vivenciei como aprendiz ao longo da minha vida escolar. Obrigada a repensar o meu próprio caminho de aprendiz, revivi momentos de forte ansiedade e sofrimento, que embora não estivessem esquecidos, imaginava fruto de uma experiência só minha…

O meu processo de aprendizagem parece ter ficado mais claro, consigo compreendê-lo melhor agora e, mais importante, dar-lhe maior valor. Foi a vontade de aprender que me segurou na escola, pois tive motivos de sobra para abandoná-la. Havia os castigos físicos, as humilhações, e isso repercutiu intensamente no tipo de aluna que fui ao longo do tempo: bem comportada, assustada, obediente a todas as regras do sistema escolar. Mas havia algo mais forte que a escola não conseguiu destruir: o meu desejo de aprender.

“… Busquei na memória a figura de Dona Carmosina para me aproximar da Professora Dora. Para mim, personagem não é ficção. E vi como seria trágico se a minha tão prestigiada e amada Dona Carmosina viesse um dia se transformar, por carências existenciais e sociais, numa endurecida e miserável Dora. Foi essa visão de tantas perdas que me deu o emocional da cena final do filme quando Dora escreve: ‘Tenho saudade de tudo…”

Reconhecer-se enquanto aprendiz ¾ reconhecer-se enquanto professor ¾ são objetivos desse módulo que promove o repensar, o refazer, o reconstruir do próprio processo de aprendizagem e aponta para uma nova atitude em relação ao ensino.

Os pressupostos teóricos que embasam o desenho do módulo estão calcados na Psicologia Humanista, em especial na Abordagem Centrada na Pessoa cujo precursor teórico foi o psicólogo americano Carl Rogers. No que se refere à vertente da Aprendizagem são apresentados e discutidos os Princípios Básicos e os Elementos da Aprendizagem Significativa (Duarte, 1996). A formulação dos pressupostos da Aprendizagem Significativa consiste numa sistematização da Teoria da Aprendizagem, feita na tentativa de explicitar o modo como uma pessoa aprende, e assim, Rogers sugere formas de como facilitar essa aprendizagem.

Os dez pressupostos teóricos básicos em relação à aprendizagem foram elencados por Rogers (1969), que enfatizou o caráter provisório deles. Mahoney (1976) contribuiu para a compreensão de tais conceitos ao fazer um estudo aplicando os recursos da análise lógico-formal às proposições de Rogers. Após cuidadosa análise, esta autora propôs um conjunto de nove princípios, o qual não diverge do conjunto proposto por Rogers:

Todo aluno tem potencialidade para aprender e tendência a realizar essa potencialidade; Todo aluno possui ‘capacidade organísmica de valoração’; Todo aluno manifesta resistência à aprendizagem significativa; Se é pequena a resistência do aluno à aprendizagem significativa, então ele realiza sua potencialidade para aprender; O aluno, ao realizar sua potencialidade para aprender, torna-se aberto à experiência e reciprocamente (sic); A auto-avaliação é função da ‘capacidade organísmica de valoração’; A criatividade é função da auto-avaliação; A autoconfiança é função da auto-avaliação; A independência é função da auto-avaliação. (Mahoney, 1976: 76).

A explicitação dos princípios básicos da teoria da aprendizagem de Rogers norteia professores e educadores que confiam na tendência humana à auto-realização, que acreditam no desenvolvimento do aluno como um todo, não apenas no que diz respeito ao seu desempenho quanto ao domínio de conteúdos programáticos, mas, principalmente, quanto ao desenvolvimento de atitudes que o conduzam ao crescimento pessoal. Alunos mais abertos à experiência, capazes de auto-avaliação, criativos e independentes são aqueles que aprenderam a aprender:

O único homem que se educa é aquele que aprendeu como aprender, que aprendeu como se adaptar e mudar e que percebeu que nenhum conhecimento é seguro e que só o processo de buscar conhecimento oferece alguma fonte de segurança (Rogers, 1971: 104).

Rogers (1969) propôs uma definição de Aprendizagem Significativa, apontando elementos que, no conjunto, propiciam a compreensão do que seja o referido construto. Mahoney (1976: 42) resumiu tal definição:

… aprendizagem significativa… é envolvimento pessoal, a pessoa toda – sentimento e intelecto – está no evento da aprendizagem, é auto-iniciada, mesmo quando o estímulo vem de fora, a sensação de descoberta, de alcançar algo, de compreender, vem de dentro do aluno… é pervagante, altera o comportamento, as atitudes, talvez, mesmo a personalidade do aluno… é avaliada pelo aluno, ele sabe se está ou não satisfazendo sua necessidade, se caminha para o que quer aprender. O lócus da avaliação reside no próprio aluno. A sua essência é significativa.

Uma das professoras reflete sobre sua aprendizagem ilustrando da seguinte forma o conceito de Aprendizagem Significativa:

… A meu ver, o processo para a minha aprendizagem se dá quando existem o desejo e a procura deste conhecimento e ainda quando percebo a importância de determinado conteúdo para a minha vida. Caso contrário, fica muito difícil qualquer tarefa para eu executar. Tenho uma resistência grande para o novo, o desconhecido. Há pessoas que se arriscam mais, as que ‘vão à luta’, como dizem, e talvez não percebam as conseqüências futuras. Porém gosto de estar atualizada, dedicar-me às aulas e modificar constantemente meu cotidiano pedagógico. Essa vontade de mudança é intrigante, pois me incomoda sair da minha vida planejada e segura e lançar-me ao desafio.

… Todavia, a própria vida nos faz mergulhar e nadar ‘através do túnel’. Apesar de me parecer que este ‘túnel’ não tem fim: é um ciclo de ‘aprender e ensinar’ constantemente.

“… duas mulheres: Carmosina e Dora. Vejo essa passagem de tempo, claro, com alegrias e ganhos, mas também com muitas perdas e dor. Sou atriz e confesso minha deformação profissional. Esse sentimento de perda, essa nostalgia, me ajudaram a resgatar o emocional dessa desprotegida e amarga Dora ao intuir que dentro dessas Doras desiludidas existe sempre uma Carmosina à espera de um ombro e de um socorro.”

Refletir sobre o próprio processo de aprendizagem! Quando, ao longo do módulo, um professor começa a refletir sobre sua aprendizagem até aquele determinado momento, muitos questionamentos emergem e ele se pergunta: quantas vezes eu cumpri as tarefas solicitadas para satisfazer exigências do professor e da instituição (não as minhas necessidades)? Fui eu o responsável pelo meu aprendizado (ou depositei no professor tal responsabilidade)? Eu era um aprendiz autônomo e independente do professor? Havia um “querer” próprio envolvido no processo (ou eu queria o que o professor quisesse)?

Um curso de desenvolvimento do professor que possibilita a reflexão é enriquecedor, pois, além de apontar as diferentes formas de aprender, esclarece que muitas das ações do professor em sala de aula são o reflexo de ex-professores:

… they (the participants) are encouraged to recall their own experiences as learners, to remember their own teachers and fellow students and use this as basis for discussion on what makes a good teacher … (Campbell, 1995: 1).

Tais reflexões são promovidas no decorrer do módulo a partir da leitura de textos “provocativos” que sugerem a importância da autodescoberta – do querer aprender, da necessidade de mudança em relação a sua postura acerca da sua própria aprendizagem. Trata-se de exemplos de aprendizagem apresentados em especial em um conto, em um filme, em uma fábula e, em textos sobre motivação e aprendizagem. O conto e o filme têm como protagonistas um aprendiz numa determinada situação de aprendizagem. Trata-se de duas produções artísticas que ilustram o conceito de aprendizagem significativa e apontam para a compreensão, de uma forma ligada à vivência, do que venha a ser aprender significativamente. Cada uma dessas manifestações artísticas tem uma linguagem própria: trata-se do conto Through the tunnel, cuja autora é Doris Lessing (1989), e do filme Educating Rita (1983) (O Despertar de Rita, na versão em português), com produção e direção do cineasta Lewis Gilbert. Penso que a arte esclarece e explica, com muita precisão, muito do que acontece no dia-a-dia e tem mostrado que atinge diretamente as emoções e, por vezes, encurta caminhos que levam à compreensão da realidade.

Muitos aspectos psicológicos do “aprender” são enfocados e, por isso, é solicitado aos participantes que observem, no conto e no filme, os seguintes aspectos: o aprendiz nos dois contextos – suas semelhanças e suas diferenças; seus objetivos; os obstáculos por ele encontrados; seus estilos de aprendizagem; tipos de orientação dada em ambos os casos; resultados obtidos; auto-avaliação feita pelos outros e componentes afetivos envolvidos no processo. Os tópicos que geralmente emergem nas discussões são os seguintes:

a) os obstáculos – “sofrimento” que envolve a aprendizagem como contraponto da coragem e do desejo de ultrapassá-los;

b) a mudança da situação de “não-aprendizagem” para a situação de “aprendizagem”, envolvendo etapas que se complementam e preparam o próprio aprender. Isso traz “sofrimento” e, até certo ponto, isolamento do aprendiz;

c) o papel do aprendiz – sua responsabilidade – em cada uma das etapas do processo;

d) os elementos, externos ao aprendiz, facilitadores ou bloqueadores da aprendizagem num determinado momento;

e) o papel da orientação do facilitador como estímulo do processo de aprendizagem;

f) a satisfação em alcançar os objetivos estabelecidos (avaliação do processo) e a retomada do processo ao estabelecer outros novos objetivos.

São feitas reflexões individuais, na forma de relatos, diários e discussões em grupos. Assim, os aspectos teóricos da Aprendizagem Significativa são constantemente retomados e ilustrados pelas histórias dos personagens do filme, do conto e da fábula, como também pelas próprias histórias de aprendizagem dos participantes do curso. A reflexão retrospectiva feita é relevante, não só para o desvelar de alguns aspectos da aprendizagem, mas também para a interferência consciente no processo. Esse ir-e-vir da experiência à reflexão propicia um tipo de “aprendizado autodescoberto, auto-apropriado” (Rogers, 1987: 254).

Por conta dessas reflexões e pela especificidade do curso “Reflexão sobre a Ação”, é conseqüência natural pendermos para a outra vertente do processo: o Ensino. O professor/aprendiz é professor sempre! O ir-e-vir entre o aprender e o ensinar é uma constante como nos mostra uma professora:

Trago da adolescência a imagem muito nítida de um professor de Português, por quem eu tinha especial admiração; e jamais esqueci dentre as coisas interessantes que dizia, a definição de Inteligência: ‘Inteligência é a capacidade de se adaptar a situações novas’. Guardo ainda de cor alguns versos que ele declamava e me impressionava lembrar a nitidez da voz e de sua imagem andando em sala de aula…

Desta experiência resulta minha crença de quão forte é o valor da emoção no processo ensino-aprendizagem. Tudo que toca a sensibilidade tem o poder de conduzir ao ato de pensar. Me parece ser o empurrão que necessitamos a todo momento. Não tenho dúvida que tudo que nos toca, emociona, surpreende é mais facilmente incorporado ao ilimitado universo do aprendiz enquanto ser humano..

A Abordagem Centrada na Pessoa propõe um tipo de relacionamento interpessoal propício ao desenvolvimento do ser humano. Trata-se de um tipo de ambiente favorável, um clima facilitador, capaz de provocar mudanças construtivas na personalidade dos indivíduos. Esse clima pode se estabelecer por meio de condições facilitadoras que o professor deve expressar em três atitudes facilitadoras apontadas por Rogers: Congruência, Consideração Positiva e Empatia.

Congruência ¾ segundo Rogers, ser congruente é ser genuíno e significa estar consciente dos próprios sentimentos. É sendo real, autêntico consigo, e nas relações, que o outro poderá também ser veraz, tendo em vista que se trata de um processo recíproco. A veracidade é condição básica na situação de aprendizagem e ser um professor real, sem máscaras em relação ao aluno é recompensador.

Consideração Positiva ¾ é a aceitação do outro, como ele é, em sua totalidade, como ele se sente no momento: é o apreço genuíno pela pessoa do aluno e por sua capacidade de desenvolver-se. É o resultado da confiança no organismo humano. Ao experienciar consideração positiva, o aluno sente-se valorizado enquanto pessoa, com seus sentimentos, suas potencialidades e percebe-se como um ser em processo de desenvolvimento. O interesse está na pessoa do aprendiz independentemente de dominar esta ou aquela informação.

Empatia ¾ a empatia, um dos constructos elaborados por Rogers, é uma “forma de ser” em relação a outra pessoa. A relação é um processo no qual o professor ouve o aluno como se estivesse vivenciando a situação dele. Quando há a atitude de estar na situação do outro (como se), de ver pelos olhos do aluno, a reação do estudante obedece mais ou menos a um padrão que se exprimiria assim: “Finalmente alguém compreende como é que é e parece estar do meu lado, sem querer analisar-me ou julgar-me. Agora posso desabrochar, crescer e aprender” (Rogers, 1985:132).

Essas atitudes fazem parte de um “jeito de ser” do facilitador, de uma forma de propiciar a emergência de forças internas inerentes ao homem numa busca de desenvolvimento e crescimento (Duarte, 1999). Elas inter-relacionam-se, sendo difícil estabelecer os limites da atuação e da influência de cada uma separadamente. A conjugação das três é indispensável para a compreensão do sistema teórico rogeriano.

Appel (1995: 45), ao escrever “Diary of a Language Teacher”, aponta a educação humanista como aquela capaz de propiciar a facilitação da aprendizagem por intermédio de certas “qualidades atitudinais”:

… One basic assumption of humanistic education is that learning is “facilitated” not so much through teaching skills but rather through certain attitudinal qualities that exist in the personal relationships between the teacher and the students. There is some empirical evidence to show that these attitudinal qualities make a difference to learning.

Os professores-alunos do módulo refletem acerca das atitudes, identificam-nas em seus ex-professores e em si mesmos e buscam assumir essas atitudes no dia-a-dia da sala de aula de forma planejada. Assim, eles levam para a discussão “alunos-problemas”, “classes problemáticas, indisciplinadas” e juntos, discutimos, à luz das atitudes facilitadoras do professor e da Aprendizagem Significativa, as inquietações que emergem.

Transformação ao longo do percurso

Durante esses três anos de implantação do projeto, o módulo sofreu alterações significativas em termos da ênfase nas vertentes mencionadas: a Aprendizagem e o Ensino. Assim, a questão “em que centrar-se? no aprendiz ou no professor?” ganhou evidência.

Centrar-se no aluno, no aprendiz, naquele que, consegue superar as ameaças e crescer; naquele que (re)aprende a autodirigir-se; naquele que, engajado no seu próprio processo de aprendizagem, (re)descobre habilidades para enfrentar as circunstâncias em mudança e em incessante desenvolvimento e para se adaptar a elas. Tudo isso é de vital importância para o professor, como ilustrado pelas palavras de uma participante:

… Em cada situação levo sempre comigo a clareza de que para sensibilizarmos o outro, é fundamental colocarmo-nos em seu lugar. E ainda, ao compreendermos o nosso constante aprendizado e de que forma as mudanças nos atingem e como reagimos a elas, avançamos um tanto mais na direção das reformas que surgem na formação e crescimento de todos nós Educadores …

No entanto, é o professor – aprendiz que está diante de nós, inserido num curso que, como o próprio nome sugere – “Reflexão sobre a Ação: o Professor de Inglês Aprendendo e Ensinando”, possibilita ao participante (re)aprender a aprender e a ensinar. Nesse sentido, nas palavras de Adrian Underhill, percebemos a grande responsabilidade e importância de um curso de desenvolvimento para professores:

Teacher Development is the process of becoming the best teacher you can be …it is a continuous process of transforming human potential into human performance, a process that is never finished (Underhill, in Bowen, 1994: 1).

Identificar aspectos facilitadores e bloqueadores da própria aprendizagem é enriquecedor. No entanto, o como tornar a sala de aula um ambiente adequado a aprendizagem parece quase inatingível para alguns desses professores:

… Por ser uma pessoa extremamente crítica e exigente comigo mesma, inúmeros momentos em minha profissão venho enfrentando problemas por exigir uma produção discente baseada em objetivos ideais, que esporadicamente suplantam a possibilidade real de ser efetuada. Diante deste fato, tanto eu quanto meus alunos acabávamos nos tornando desmotivados, frustrados e até despreocupados para futuras etapas da aprendizagem …

E ainda outro professor afirma:

… Sabe, muitas vezes, sinto uma angústia por não conseguir fazer mais pelos alunos, por não conseguir nem saber o nome de “seres” que passam anos comigo e na verdade, não são mais que números, os medianos, se é que posso assim chamá-los, passam sem que eu os perceba…

No início do projeto, minha ênfase era na aprendizagem – centrava-me no professor enquanto aprendiz e as discussões eram basicamente acerca de seus próprios processos de aprendizagem. Por conta da necessidade, dos professores/participantes, a cada módulo, gradativamente, fui deslocando o foco de reflexões acerca de sua aprendizagem para reflexões acerca do fazer do professor. A indagação que surgia era: como promover esse ambiente propício à aprendizagem, especialmente numa realidade de sala de aula tão pouco propícia ao desenvolvimento do aluno, que é a rede pública de ensino?

Assim, leituras e discussões acerca do componente afetivo das relações interpessoais em sala de aula e, em especial, das atitudes facilitadoras do professor ganharam mais ênfase a cada semestre. Nas palavras de uma participante:

… certamente não sou a mesma depois de tão valiosa oportunidade de troca e de entendimento de “papéis”, que nos que nos possibilitou ora como aprendiz, ora como facilitadores da aprendizagem, resgatarmos conceitos e práticas, mecanismos e estratégias que norteiam o milagre da Educação …

A partir dessa ponderação entre as duas vertentes, ocorreu que a voz do aluno (o jovem aluno de inglês da rede pública) dos professores-participantes começou a ser ouvida em relatos, depoimentos e registros de conversas. Era o fazer do professor sendo contemplado. Assim, a seguir, o relato de uma professora e de dois de seus alunos de 7ª série após uma “conversa” que tiveram na qual a professora busca o ambiente facilitador a que Rogers se referia, ilustra como surgiu a voz do jovem aluno da rede:

Para realizar a tarefa, desta semana achei melhor pedir uma redação a alguns alunos. Desta forma teria como perceber melhor o “efeito” de algumas conversas que tivemos em sala de aula…

… Escolhi dois alunos da 5ª, dois de 7ª série que no início do ano achava-os insuportáveis e a recíproca era verdadeira.

A seguir o relato do aluno[3]:

Um dia exatamente uma segunda-feira, eu e meu amigo sentamos em frente da professora de Inglês que ‘do nada’ começou a conversar. Olha eu entendo de ‘carcada’ de professor mas essa foi inesquecível, uma verdadeira carcada.

Ela falou umas palavras estranhas ao meu vocabulário como ‘indiferente’. Falou da sua vida íntima, como um desabafo a três: eu, meu amigo e a professora, que há uma semana não conversava educadamente, só na grosseria, não com palavras, mas sim com o tom da voz.

Isso foi depois da suspensão que levei.

Aí começou uma, digamos assim, amizade com ela. Eu a ‘surpreendi’ com um livro de poesia e ela me ‘surpreendeu’ com a coleção de dicionários e texto. Falamos de tudo um pouco… Depois daquela conversa ou carcada eu sofri uma metamorfose como a do Raul Seixas, uma metamorfose ambulante.

A essa professora, só posso agradecer.

Obrigada pela carcada…*.

*Carcada: chamada, uma conversa, um puxão do fundo do poço.

“… Senhor Presidente, nessa nossa confraternização de artistas e autoridades, como não lembrar o milagre que a educação e a cultura produzem em todo o ser humano…”

É importante salientar que, apesar das inúmeras falhas de alfabetização, como demonstra o texto escrito pelo aluno (anexo 2), ele comunicou ter experienciado um tipo de relacionamento professor / aluno que propiciou uma mudança de atitude em relação à aprendizagem, contemplando, na sua fala, os Princípios Básicos da Aprendizagem Significativa.

Outro aluno da mesma professora relata sua transformação:

Um certo dia, minha professora de Inglês me fez sentar em frente à mesa dela e me deu uma lição de vida, percebi que o que ela me falou era para o meu bem.

Hoje, significa muito para mim e vi que minha professora não é a pessoa chata que eu pensava que fosse, percebi que eu era a pessoa chata. Espero que minha amiga e professora não me considere mais aquela pessoa chata e arrogante.

Passei a gostar dela e da aula dela e senti que não teria nada a perder, muito pelo contrário, só teria a ganhar.

Professora, desculpe-me pelas ‘baboseiras’ que lhe falava. Só hoje sei o quanto me envergonho por respondê-las.

Espero que tudo o que me disse sirva para outras pessoas que ainda não acordaram para a vida. Só depois daquele dia eu vi o quanto a senhora é legal e o seu aluninho chatinho só tem a agradecer.

Muito obrigado.

A transformação social, tão almejada por nós, educadores, e aparentemente tão distante, parece tornar-se mais viável se nos preocupássemos com o desenvolvimento, pessoal do aluno. É claro que a prática psicopedagógica não suprirá nem a necessidade de mudanças estruturais da sociedade nem o nosso comprometimento com as práticas sociais: “o geral não explica o particular como o particular não explica o geral. Não podemos, por medo de não enxergar a floresta, deixar de ver as pequenas árvores” ( Duarte, 1996: 38).

O aluno de 7ª série desabafa apontando sua transformação por conta de uma “carcada” da professora, por conta de um “puxão do fundo do poço”. Ele diz ter se transformado, tendo ocorrido uma “metamorfose ambulante”, como a do Raul Seixas. Esse relato nos estimula e aponta para a tão sonhada metamorfose social na qual a educação ocupa um dos papéis de maior destaque.

Ao final de cada um dos módulos a emoção é intensa, pois num curto espaço de tempo discutimos, compartilhamos e experienciamos ¾ meus alunos/professores e eu ¾ elementos muito significativos da nossa docência, e claro da nossa vida. O querer, e em especial o querer ser professor é revivido e é dele que renasce a (re) escolha da docência como comprometimento consigo mesmo e engajamento social. Assim, a cada módulo que se encerra percebo que existem Carmosinas habitando Doras; e não são poucas as Carmosinas capazes de operar o milagre da educação.

“Senhor Presidente, precisamos urgentemente de muitas, muitas Carmosinas e, se possível, nenhuma Dora. Vossa Excelência tem poderes para transformar as Doras em Carmosinas. O país lhe deu este poder. Eu tenho um sonho, que certamente é também um sonho de Vossa Excelência e de muitos, muitos brasileiros. Eu tenho um sonho, parodiando o notável reverendo americano, que um dia, realmente, realmente, todas as desesperadas Doras serão resgatadas desses ônibus perdidos que atravessam esse nosso sertão de miséria e que a ela será dado nem que seja uma parcela daquele reconhecimento e respeito social das professoras Carmosinas da minha infância. Doras com visão de futuro, com auto-estima, economicamente ajustadas, professoras Doras inventivas, confiantes, confiantes do seu magistério, para que possam ser amadas como seres humanos e, por que não, como personagens também”.

Referências

APPEL, J (1995). Diary of a Language Teacher – The European Language Classroom. Oxford. Heinemann.

CAMPBELL, C. and H. Kryszewska (1995). Towards Teaching – The European Language Classroom. Oxford. Heinemann.

DUARTE, V. C. (1999). A relevância das atitudes facilitadoras do professor para o desenvolvimento da oralidade do aluno de inglês. Claritas – n° 5. pag. 57-70.

___________________ (1996). Aprendendo a Aprender, Experienciar, Refletir e Transformar: um processo sem fim. Tese de Doutoramento. PUC-SP.

LESSING, D. (1989). Through the tunnel. In: Adkins, A. and M. Shackleton (eds.) Recollections. London. Edward Arnold.

MAHONEY, A. A. (1976). Análise lógico-formal da teoria da aprendizagem de Carl Rogers. Tese de Doutoramento. PUC-SP.

ROGERS, C. (1969). Freedom to learn. Charles E. Merril. Columbus, Ohio Publishing Company.

_____________ (1985). Liberdade de aprender em nossa década. Trad. José Octavio de Aguiar Abreu. Porto Alegre. Artes Médicas.

_____________ (1971). Liberdade para aprender. Trad. Edgar de Godoi da Mata Machado e Marcio Paulo de Andrade. Belo Horizonte. Interlivros de Minas Gerais.

_____________ (1987). Tornar-se pessoa. Trad. Manuel José do Carmo Ferreira. São Paulo. Livraria Martins Fontes.

UNDERHILL, A. (1994). In: Mark, T. and J. Inside Teaching – The Teacher Development Series. Oxford. Heinemann.

DISCURSO DE FERNANDA MONTENEGRO AO RECEBER A

CONDECORAÇÃO GRAN-CRUZ DA ORDEM NACIONAL DO MÉRITO

Presidente da República, Sr. Fernando Henrique Cardoso, Dona Ruth Cardoso, Sr. Antônio Carlos Magalhães, Presidente do Senado, Dona Maria Emília, Ministra Interina da Cultura, demais autoridades, amigos e colegas, queridos colegas. Eu não estou aqui sozinha e se hoje recebo esta comenda, eu não a recebo sozinha. Há momentos em que os anos vividos nos obrigam a olhar em volta e fazer uma revisão das nossas perdas e dos nossos ganhos. Se hoje eu estou sendo agraciada com a mais alta condecoração do nosso país por generosidade de Vossa Excelência, Senhor Presidente, é porque sou resultado de muitas influências e convivências. Centenas de companheiros e personagens me formaram, me educaram e estão comigo sempre. Não me refiro só a minha família de sangue, mas principalmente a minha família de opção, no caso opção artística, teatral. Muitos já se foram: Dulcina, Murilô, Cacilda, Nélson Rodrigues, Jorge Andrade, Sadi Cabral, Daversa, Lucília Peres, Procópio, Jane Costa, Grande Otelo, Freigo Leite, Ziembinsky, Pernambuco de Oliveira, Sérgio Cardoso, Flávio Rangel, Flávio Império, Eugênio Kusnet. Vi todos esses atores, autores, atrizes, diretores, cenógrafos, figurinistas. Trabalhei com muitos deles e cada um me influenciou e me transformou. O mesmo eu posso dizer dos colegas com os quais convivo desde os primeiríssimos anos de profissão. Não vou enumerá-los todos porque atrasaríamos esta cerimônia, Senhor Presidente. Mas não vou me furtar de tê-los aqui neste agradecimento. Um lugar especialíssimo para Fernando Torres, o grande querido cúmplice da minha vida. Sem ele certamente a minha história seria outra. Ele é parte fundamental de todo e qualquer reconhecimento que eu possa ter como artista. Outros colegas e amigos se sucedem: Ítalo Rossi, Sérgio Brito, Natália Timberg, Zilka Salaberry, Antunes Filho, Dani Hatto, Celso Nunes, Millôr Fernandes, Guarnieri, Naum, Paulo Autran, Tônia Carrero, Derci Gonçalves, Maria Della Costa, Bibi Ferreira, Zé Celso Martinez Corrêa, Irene Ravache, Marília Pera, Jorge Dória, Leo Villar, Jacqueline Laurents, Eva Todor, Marieta Severo, Raul Cortez, Cleide Yáconis, Regina Duarte, Renata Sorrah, Eva Wilma, Regina Casé e muitos amigos. Me perdoem se não nomino todos. Muitos, muitos outros e mais, os jovens atores e atrizes com os quais tenho cruzado nestes últimos anos. Do cinema trago os nomes de Leon Hirschman, Arnaldo Jabor e Walter Salles pelos convites para filmes tão fortes e tão bonitos. A Walter Salles devo e agradeço este momento inesperado de tanta vivência e sucesso cinematográfico para o filme ‘Central do Brasil’ e para a Professora Dora. Todos estes nomes citados são colegas que eu encontrei já adulta e já com uma vocação e uma pequena base cultural: dirigidas para o palco. Mas, Senhor Presidente, existe o antes, a infância e, por que não o período da minha educação primária. Acho que é aí que tudo começa. É aí que tudo sempre começa. Ao trabalhar o mundo da Professora Dora, do “Central do Brasil”, lá na infância, é que fui buscar na minha memória as primeiras professoras que me alfabetizaram. Credenciadas, respeitadas, prestigiadas professoras primárias da minha infância. Professoras de escolas públicas que eu freqüentei nos subúrbios do Rio. Lembro especialmente, com muito carinho, de Dona Carmosina Campos de Menezes. A professora que alfabetizou. E mais do que isso, que me ensinou a ler, o que é um degrau acima da alfabetização. Naquele tempo, as professoras ainda se chamavam Carmosinas, Afonsinas, Ondinas… Busquei na memória a figura de Dona Carmosina para me aproximar da Professora Dora. Para mim, personagem não é ficção. E vi como seria trágico se a minha tão prestigiada e amada Dona Carmosina viesse um dia se transformar, por carências existenciais e sociais, numa endurecida e miserável Dora. Foi essa visão de tantas perdas que me deu o emocional da cena final do filme quando Dora escreve: “Tenho saudade de tudo”. Saudade é uma palavra forte e uma forma profunda de chamamento, de invocação. Entre Carmosina e Dora, lá se vão sessenta anos, mais um pouco. Penso que a minha vocação de atriz foi sensibilizada a partir das leituras em voz alta, leituras muito exigidas, cuidadas, orgânicas, que nós, alunos, fazíamos usando os livros de Português do antigo curso primário. As primeiras coisas que decorei na minha vida foram dois poemas que dona Carmosina mandou que decorássemos. A palavra é essa: mandou. Que decorássemos nas férias de dezembro: “Meus oito anos” de Casemiro de Abreu e “Canção do Exílio” de Gonçalves Dias. Na volta das férias daquele ano de 1937, eu, ao mesmo tempo tímida, envergonhada e encantada, declamei: “Ó que saudades que eu tenho da aurora da minha vida, da minha infância querida que os anos não trazem mais, que amor, que sonhos, que flores, naquelas tardes fagueiras, a sombra das bananeiras, debaixo dos laranjais”. Essas bananeiras e esses laranjais ainda não eram a liberdade poética. Os subúrbios das nossas cidades ainda não tinham sofrido essa degradação ambiental que, infelizmente, se fez presente com o passar dos anos. Vi muitos brasis entre esses meus oito anos, os oito anos do poeta e essas duas mulheres: Carmosina e Dora. Vejo essa passagem de tempo, claro, com alegrias e ganhos, mas também com muitas perdas e dor. Sou atriz e confesso a minha deformação profissional. Esse sentimento de perda, essa nostalgia, me ajudaram a resgatar o emocional dessa desprotegida e amarga Dora ao intuir que dentro dessas Doras desiludidas existe sempre uma Carmosina à espera de um ombro e de um socorro. Senhor Presidente, nessa nossa confraternização de artistas e autoridades, como não lembrar o milagre que a educação e a cultura produzem em todo o ser humano? E por ser este, me parece, o espírito que nos une aqui, neste espaço, e por estarmos diante da mais alta autoridade de nosso país, que é Vossa Excelência, a aliança cultural da reivindicação artística e social se apresenta.
Muitos até acham que isto também é uma deformação profissional de uma classe. Sempre que estamos juntos, Senhor Presidente, reivindicamos. Vossa Excelência vai compreender, não só reivindicamos, vamos dizer que solicitamos. É um desafio a gente se conter.

É um desafio não reivindicar. Inclusive por temer tomarem a reivindicação como um gesto de deselegância. Já que estamos, repito, numa confraternização. Mas, Vossa Excelência é um democrata e um professor, por isso peço a Vossa Excelência me dar o direito de não resistir, mesmo porque acredito que estamos numa concordância de vontades.

Senhor Presidente, precisamos urgentemente de muitas, muitas Carmosinas e, se possível, nenhuma Dora. Vossa Excelência tem poderes para transformar Doras em Carmosinas.

O país lhe deu este poder. Eu tenho um sonho, que certamente é também um sonho de Vossa Excelência e de muitos, muitos brasileiros. Eu tenho um sonho, parodiando o notável reverendo americano, que, um dia, realmente, todas as desesperadas Doras serão resgatadas desses ônibus perdidos que atravessam esse nosso sertão de miséria e que a ela será dado nem que seja uma parcela daquele reconhecimento e respeito social das professoras Carmosinas da minha infância. Doras com visão de futuro, com auto-estima, economicamente ajustadas, professoras Doras inventivas, confiantes, confiantes do seu magistério, para que possam ser amadas como seres humanos e, por que não, como personagens também. Muito amadas e lembradas por todos os Vinícius e todos os Josués do nosso país. É certo que como atrizes não teremos mais as Doras amargas e infelizes para interpretar, em belas mas tristes histórias, em peças e filmes brasileiros. Mesmo assim, prefiro as Carmosinas, Senhor Presidente. Que a Dora compreenda e me perdoe. Vale a troca para o fortalecimento da nossa educação, da nossa cultura, vale a pena, Senhor Presidente, se a nossa alma, isto é, se a realização do sonho de todos nós, se essa realização não fosse pequena. Faço de Carmosina e Dora minhas companheiras neste meu agradecimento. Ignorá-las seria desprezar a minha infância e esta realidade da minha, não digo velhice, mas da minha madureza. Emocionada, Senhor Presidente Fernando Henrique Cardoso, eu quero lhe dizer, Senhor Presidente, ao receber a Gran-Cruz da Ordem Nacional do Mérito, agradeço muitíssimo à Vossa Excelência em meu nome e em nome da minha família. Eu agradeço a esta tão grande honra a mim concedida. Muito obrigada.

Vera Cabrera DUARTE

Biodata: Mestre e doutora em Psicologia da Educação pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo. Professora de língua inglesa do curso de Letras da PUC.SP.

Principais áreas de interesse: formação de professor, aprendizagem, autonomia e motivação em sala de aula, teatro e educação.

veracabrera@uol.com.br

[1] Discurso de Fernanda Montenegro ao receber a condecoração Gran-Cruz da Ordem Nacional do Mérito, no dia 12 de abril de 1999. O discurso encontra-se na íntegra no Anexo 1 e foi cedido pela própria atriz. Outros trechos serão inseridos ao longo deste artigo sempre em destaque.
[2] Optei por construir este texto entremeando várias vozes, dentre as quais a da atriz Fernanda Montenegro. Em diversos momentos suas idéias, acerca da Educação no Brasil são intercaladas com as reflexões dos professores/alunos do módulo “Aprendendo a Aprender: a Importância da Reflexão”, ministrado por mim.
[3] O relato do aluno foi submetido a correções uma vez que impropriedades de redação poderiam modificar o foco da interpretação. O original escrito por ele segue no Anexo 2.