Um olhar sobre a terceira idade (notas para a compreensão do processo social do idoso)

Claúdio Sérgio Reis Maffioletti

*Trabalho apresentado no III Fórum Brasileiro da A.C.P. realizado entre os dias 10 a 16 de outubro de 1999, em Ouro Preto, Minas Gerais

Introdução

Toda trajetória é, sem dúvida, parte do envelhecer crescendo e da realidade que estas duas condições estão sempre juntas. Já não há mais tempo para se pensar que as pessoas com mais idade estacionaram na contramão da velhice.

Apresento aqui contribuições para mim surpreendentes que recebi ao longo destes anos de acompanhamento de pessoas idosas, Grupos de Bairros e do desenvolvimento dos estudos sobre os processos envolvidos no envelhecimento. Somo a isso a agradável oportunidade de trabalhar com crianças, adolescentes, adultos jovens e de meia idade.

Procurarei falar sobre um movimento muito grande e multifacetado que, a título de entendimento adoto aqui como “Movimento da Terceira Idade”. Depois sobre algumas das coisas que aprendi com os idosos, fonte inesgotável de sabedoria com sabor caseiro, isto é, um saber adquirido no vivido e, por isso mesmo mais autêntico, e do agente social que lida com esses seres mais criteriosos e seletivos, intuitivos e criativos, amorosos e sinceros que os adultos, e espelhos da infância e adolescência. É com muita preocupação que sou tentado a pensar que a idade denominada como adulta, considerada a mais produtiva, torna-se o ocaso da espécie humana, como a civilização que esta produtividade sustenta, que ergue-se em torno da vaidade, da ambição, do rancor e do preconceito, porões bolorentos e doentios dos seres humanos.

O Movimento da Terceira Idade

Provavelmente esse título não seja o mais apropriado, pois como a infância não se confunde com a adolescência, nem esta como a fase adulta, nem esta última com a maturidade e muito menos com a idade mais avançada. Em cada uma há um pouco das outras. Já na infância os seres humanos têm experiência com idosos. E, parece-me que são mais sinceras que as que envolvem as demais idades. Pois bem, mesmo que nos diferentes momentos da humanidade, nas diversidades culturais originadas como resultados do trabalho humano, os idosos não tenham sido tratados de formas semelhantes, nos dias de hoje os humanos têm condições de abalizar melhor a sua qualidade de vida. E, talvez, como humildade, a organização de suas capacidades produtivas.

E por que isso? Sem dúvida nenhuma, se lançarmos um olhar as formas antigas de organização da produção humana e de sua aprendizagem, notaremos nítidas diferenças na construção da intimidade humana, à luz do que pretende ser um respeito ao indivíduo de acordo com aquilo que ele possui e não pelo fato de ele ser. E nessa rede maniqueista de relações de produção – consumo o conflito de gerações é uma célula vital, tal como a perversão do amor sua irmã gêmea. Justamente por isso hoje a humanidade já reúne condições de inverter esses parâmetros.

No entanto a inversão populacional no Brasil é um fato atual e em tendência a expansão desde que, da década de setenta para cá há uma queda dos índices de reprodução da espécie à taxa de substituição onde cada par formado por homens – mulheres que antes produziam até dez ou mais filhos, opta em sua maioria por dois filhos devido as dificuldades da vida moderna e a política da saúde da mulher que inclui a esterectomia em larga escala nos países considerados periféricos e semi-periféricos na economia mundial.

Outro determinante desse fenômeno é o aumento da expectativa de vida que é resultado da queda do índice de mortalidade pela melhoria da campanha de controle das epidemias, dos tratamentos das doenças de longa duração e do desenvolvimento alimentar. Outro fator ainda é o saneamento das cidades e o consumo de produtos que previnem as pessoas contra as agruras do meio.

Todos nós hoje sabemos que o mundo inteiro passa por esse fenômeno sócio-econômico denominado inversão populacional. Ele significa que hoje os maiores de idade são cada vez mais numerosos, “enquanto a população idosa com menos de 20 anos cresceu 12% de 1980 a 1991, neste mesmo período a população de idosos cresceu 46% passando de 7.3 milhões para 10,7 milhões, um acréscimo de 34 milhões de idosos.”[1]

Assim, sou levado a crer que há um clamor para o desenvolvimento de uma nova consciência sobre a humanidade. Essa sim, uma nova velha consciência construída nas lembranças de milhares de experiências. Conseqüentemente, é de se considerar a emergência de projetos, medidas e soluções que atendam as demandas específicas desse super extrato das sociedades e que envolvem a ecologia humana, mundial e a ecologia cósmica. Nos planos da saúde – educação – ambientação e economia carecemos de soluções complexas que ameaçam o status político-social atual.

A maioria das pessoas procura encontrar ou estabelecer os limites dessa onda quer seja com um conceito mais apropriado, seja o da melhor idade, o de gerontes, ou de idosos. Cada um desses tem uma origem e vários motivos associados, outros buscam saber à partir de quando essa tal idade indica que a velhice chegou, sessenta, sessenta e cinco ou setenta, idades próximas a aposentadoria e a imaginada inutilidade obrigatória. Alguns grupos definem seu limite a partir dos cinqüenta, por questões de tamanho, ou de isolamento. Mas, tais indicações só nos dão uma idéia de volume e do tamanho desproporcional do fenômeno, bem como das categorizações produzidas pelas atuais representações sociais.

No entanto sou levado a crer que as questões da idade aparecem de formas variadas em cada pessoa e em intensidade e freqüências também diferentes. O que poderia redistribuí-los em ondas que seriam conjuntos numerosos com interseções que teriam suas origens naquilo que está contido no que está sendo denominado qualidade de vida.

O processo de envelhecimento é diferenciado, os indivíduos mudam de acordo com a idade, alimentação, esforço físico, stress/distress, fatores ambientais, a proliferação de radicais livres, a herança genética, a etnia, entre muitos outros fatores.

De modo que uma visão sobre esse processo deve abordar aspectos bio-psico-sociais, sem esquecer o processo produtivo historicamente situados.

A velhice (ou, melhor idade) é para a pessoa um processo que se anuncia de dentro para fora e se revela de fora para dentro. O idoso pode ser considerado como uma pessoa que sobreviveu por muitos anos, em uma busca permanente.

“ O idoso pode ser considerado como uma pessoa especial que, como particularidade, normalmente enfrentou e acumulou problemas durante toda a vida, não conseguindo impedir que certas carências ou deficiências se tornassem crônicas, chegando mesmo a quase impossibilitar ou inviabilizar sua recuperação.” [2]

A expectativa de vida está ligada a idade cronológica, mas o processo fisiológico pode variar em até 30 anos em relação a cronológica tanto para mais quanto para menos e é de tão difícil aferição adequada quanto as mudanças e comprometimentos psico-sociais. O conceito de metanoia dá conta da soma de vários processos de qualidade, intensidade e características diferenciadas de pessoa para pessoa.

De uma forma mais generalizada pode-se dizer que o conceito de ‘geronte’ indica mudanças generalizadas na vida dos indivíduos nos quais intensifica-se uma regressão anatômica e funcional de todo o organismo, notadamente uma mudança do rendimento cardiovascular e respiratório. Do ponto de vista psicológico alteram-se os limiares perceptivos, as funções da memória, os interesses e as motivações, a labilidade emocional e os conteúdos oníricos. Modifica-se o auto-conceito e a auto-estima é bastante atingida. A angústia vital, devido a certeza da proximidade da morte, torna-se mais presente nos seus significantes cotidianos, nas suas tomadas de decisões e atitudes do que a angústia existencial que tivera mais atenção nas faixas de idade anteriores.

Contudo a velhice deve ser considerada como uma etapa da vida na qual em decorrência da alta idade cronológica, pelo fato do corpo vivido e do corpo existencial suportarem um número extenso e intenso de experiências, as pessoas atravessam modificações bio-psico-sociais que afetam as relações dos indivíduos com o meio. Mas as pessoas de idade ainda estão no mundo e participam ativamente da sua ecologia.

Hoje já se vê a olhos nus o retorno das pessoas de idade aos espaços públicos, projetam-se com suas experiências em experiências ousadas no trabalho, na educação e na reeducação. Falam, se informam sobre essa unicidade que envolve a saúde do corpo, o cuidado da mente e de espírito. Muitas já são críticos a destruição da natureza externa que foi promovida pela sua própria geração.

Criam-se novos espaços, todos importantes. Dentre eles há também o da reeducação da percepção, das aptidões, da sensibilidade, dos movimentos, das emoções. Podemos considerar que é um resgate das condições internas para melhor reabastecimento do imaginário, das atitudes e dos movimentos.

Essas condições permitem o contínuo fluxo energético continuar fluindo e se tornando humano no encontro com a natureza. Assim, temos observado, homens e mulheres resgatam a auto-confiança na luta pelo cotidiano e auto-estima na lida com a humanidade.

A Substituição da Espontaneidade

Nós sabemos, e o saber adquirido no vivido é o mais autêntico, pois fica impregnado no ‘EU’, que a sociedade educa para o ter e não para o ser em si. O projeto de acúmulo de bens materiais é alicerçado nas células da família, da escola, do trabalho; e é reforçado pelos grupos de referência que agem através dos acessos ao emprego, a propriedade, aos meios de preservação de uma saúde de qualidade, através da aceitação social que vem do reconhecimento pelo fato da pessoa ter representado um papel no drama das relações produtivas. Ou por estar em formação.

As sociedades organizam-se colocando os homens e mulheres em subsistemas onde grupos se comportam de formas estratificadas, pré concebíveis, com vários padrões que poderão acondicionar as estreitas dessemelhanças de atividades, pensamentos e linguagens.

Os diferentes grupos de referência controlam-se via a intrincada rede de preconceitos, valores e interesses. Pois eles, para além das relações inter pessoais e intra e inter grupais estão ligados aos aspectos ideológicos que constroem historicamente as diferentes sociedades.

Assim é que o processo de desenvolvimento das pessoas é monitorado afastando-as de sua ecologia, construindo uma segunda natureza, esta perversa, pois lhes rouba a espontaneidade, afastando-as do simples fazendo a vida mais complexa, mais difícil de ser vivida, trocando a essência pela aparência. Como numa ilusão, homens e mulheres justificam suas vidas pelo ter. Assim, abdicam do ser e tornam-se mercadorias descartáveis até mesmo antes de serem ‘velhas’.

“ Durante os primeiros anos, uma criança é valorizada não por suas realizações, mas simplesmente por si mesma. Nas famílias onde isso se dá, a criança desenvolver-se-á de acordo com suas habilidades individuais. Nas famílias onde as crianças são julgadas primariamente por suas realizações, toda a espontaneidade desaparecerá nos primeiros anos. Estas crianças tornar-se-ão adultos sem experimentar a adolescência. Tais adultos podem de tempos em tempos sentir saudades inconscientes da adolescência que perderam, um desejo para procurar aquelas capacidades instintivas dentro deles, cujo desenvolvimento foi impedido.” [3]

Mudanças nos Objetivos Educacionais

O curso aqui proposto organiza-se para idosos, mas também tem uma importância intergeracional, ou seja, ele tem utilidade para pessoas em idades diferentes quer estejam em seu grupo etário, quer em grupos interativos com idades variadas. Isto se deve a importância do contato entre pessoas da mesma geração e de gerações com conteúdos diferentes, para a preservação e valorização da história, e para preparação para as transformações.

“ Ninguém sabe o propósito da vida, e a educação que cada geração passa para a seguinte não é mais que uma continuação de hábitos de pensamento da geração prevalente. A vida tem sido um trabalho árduo desde o começo da espécie humana; nós não podemos ignorar as grandes dificuldades sociais criadas pela existência de muitos milhões de pessoas que viveram no mundo, nos poucos séculos passados sob circunstâncias tão difíceis, a educação melhorou somente no sentido do que é possível e necessário fazer, para que a geração nova se torne capaz de substituir a velha, sob condições mais ou menos semelhantes.” [4]

Só que, há algumas décadas que uma onda crescente de descontentamento com esse modelo estático, competitivo, amesquinhado e pobre de recursos emergentes vem sendo anunciada. Desde o questionamento da visão Newtoniana, passando pelos genocídios das guerras político-econômico-religiosas, atingindo as sociedades com a revolução dos costumes e o retorno ao místico e transcendental e, mais claramente agora com a inversão da ampulheta geracional, o mundo sai da era de ‘Peixes ’ para a de ‘Aquários’ onde os sonhos podem ser sonhados e o tesouro da vida é redescoberto: O importante não é contar cronologicamente a apurado da vida em anos, mas vivê-los com atenção e intensamente. Está sendo necessário educar o homem integral para um mundo complexo. Não bastam mais crenças fragmentadas alicerçadas em teorias assertivas. A previsão cede espaço ao experienciar.

A ênfase nas condições originárias para a sobrevivência, como a sensação, a percepção, os interesses fraternos, e os valores essenciais crescem a cada momento.

– O Paradoxo de nosso Tempo –

“O paradoxo de nosso tempo na história é que temos edifícios mais altos, mas pavios mais curtos; auto-estradas mais largas, mas pontos de vista mais estreitos; gastamos mais, mas temos menos; nós compramos mais, mas desfrutamos menos”

“Temos casas maiores e famílias menores; mais conveniências, mas menos tempo; temos mais graus acadêmicos, mas menos senso; mais conhecimento e menos poder de julgamento; mais proficiência porém mais problemas; mais medicina mas menos saúde.”

“ Conquistamos o espaço exterior, mas não nosso espaço interior. Fizemos coisas maiores, mas não coisas melhores, poluímos o ar e a alma. Dividimos o átomo, mas não nossos preconceitos. Escrevemos mais, mas aprendemos menos. Planejamos mais, mas realizamos menos.”

“Multiplicamos nossas posses, mas reduzimos nossos valores. Falamos demais, amamos raramente e odiamos com muita freqüência. Aprendemos como ganhar a vida, mas não vivemos essa vida. Adicionamos anos à extensão de nossas vidas, mas não vida à extensão de nossos anos. Já fomos à lua e dela voltamos, mas temos dificuldade em atravessar a rua e nos encontrarmos com nosso vizinho.”

“É um tempo em que há muito na vitrine e nada no estoque; um tempo em que a tecnologia pode levar-lhes estas palavras e voce pode escolher entre fazer alguma diferença, ou simplesmente apertar a tecla Del.”

(texto extraído da Internet.)

Autor desconhecido

Configurando o Idoso

Agora vamos juntar algumas das miríades de informações que existem sobre a vida do idoso. Ele, ela onde e como estão nesse momento?

“Em 1900 havia apenas 3 milhões. Na virada do século a expectativa média de vida não ultrapassava aos 47 – e na década de 80 chegou aos 70 anos para os homens e a 78 para as mulheres.” [5]

Já no Brasil a Prof.a. Suzana A R. Medeiros, nos apresenta o seguinte quadro: “O Brasil possui atualmente cerca de 7.540 milhões de pessoas com mais de 50 anos, ou seja 4,8% da população…São mais de 260 mil pessoas por ano ingressando nessa faixa de idade… Na década de 40, quando os idosos atuais se encontravam na ‘Flor da Idade’ a renda per capita do país era US$ 782. Hoje esta na casa dos R$ 3.545. A frota de veículos, na mesma época, não chegava a 120 mil automóveis. No primeiro semestre deste ano (96) o Brasil ultrapassou a casa dos 16 milhões de veículos.” [6]

Se aumentarmos telescopicamente esses dados incluindo a construção civil, o crescimento urbano e dos sistemas de educação e empregos, vemos caoticamente que o processo de envelhecimento dessas pessoas vem se dando com muito trabalho forçado, no enfrentamento cotidiano com condições precaríssimas, no cenário de uma concentração de renda muito imperativa. Aliás, no início do século os Srs. Feudais ainda tinham direitos de vida e de morte. Mas, será que a situação mudou?

Poderíamos apontar que um pouco aqui sim outro acolá não. As regras do jogo para a maior parte da população – os trabalhadores -, ainda é muito estreita e pretende continuar, o que indica que os idosos de hoje e de amanhã vão ter que ir à luta. E, do lado bom, o trabalho desenvolvido pelos e com os idosos tem encontrado valores há muito tempo literalmente fora de moda e modos, como o respeito pelo outro, a necessidade de pedir ajuda e ajudar, um olhar muito condescendente para o cotidiano, e vejam só, a esperança, a certeza que a humanidade precisa da união. Assim, é importante valorizar ecologias antes desacreditadas como as sensações, as emoções, a memória, a intuição, os processos criativos, o espiritual e o cósmico. Olhar o homem como parte da humanidade como parte da natureza e não como uma ordem de perdidos. Ë importante pensar que a humanidade é possível, e os idosos, hoje numerosos, devem pensar o que podem e devem fazer a partir de agora. Lugar de idoso não é mais fundo de rede, mas no seio da família e sociedade emergente.

E por que é na idade mais avançada que o homem redescobre esses valores solapados durante muito tempo? , talvez seja, podemos supor, que o fato de dizer para sí mesmo que deve fazer coisas, ser produtivo e continuar construindo. Essa é uma dimensão diferente e que participa da resistência, da idade residual.

A Pressão Social

A sociedade industrial é o nosso atual modelo de organização. Ela é fruto do processo de desenvolvimento científico e tecnológico que acompanhou o crescimento numérico da humanidade, o séc. XX vive a ameaça da superpopulação. Não é por acaso que a partir de meados deste século as mudanças sociais, políticas e econômicas tenham se acentuado rapidamente. A tecnologia, a ciência, os instrumentos de poder e instrução também se aperfeiçoaram e a mídia deu o acabamento para a venda e o consumo de produtos descartáveis e muitas vezes supérfluos.

Um dos mecanismos mais utilizados é o conflito de gerações. Observem como a infância vem sendo explorada nos últimos tempos pela indústria de brinquedos, vestimentas e diversões. Agora é também a vez dos mais velhos. Visões aparentemente mais liberais, são acrescentadas as antigas que apresentam a pessoa idosa como alguém que é improdutivo e por isso não passível de amor, respeito e cidadania, e criam uma obrigação a mais tornarem-se jovens para assim serem reconhecidos. Vendo de outra forma, geram as condições para torná-los consumidores dos produtos específicos para a sua geração, mas competidores de igual para igual no mercado de trabalho e nos demais standers sociais.

“ Ser velho, além de um fato, é um conjunto de convenções sociais da pior espécie. Não sei o que pesa mais sobre os velhos, se a idade ou a idéia que eles fazem de sí, mesmos, movidos pelo modo como são tratados, levados pelas idéias tantas vezes negativas que orientam o comportamento da maioria frente a eles.” [7]

O peso da idade é grande e não adianta amenizá-lo, mas criar meios para desconstruí-las sem alterar o processo pois ele faz parte do viver. No entanto o mosaico de preconceitos gerado pela concepção preconceituosa de que o velho é inútil, um entulho para a família e para a sociedade está bem cimentado nos princípios da sociedade de produção onde os interesses, os valores e as motivações são pragmáticas e maniqueístas.

“ A condição do velho dependerá do contexto social em que ele está inserido, bem como da proximidade ou afastamento da produção para a coletividade. Outra variável a ser considerada é a situação econômica, o poder e a conseqüente manipulação advinda dessa riqueza. O velho poderá ser querido, respeitado e amado, ou desprezado, ridicularizado e odiado.” [8]

Diante dessas condições a pressão social enclausura os idosos em situações não reforçadoras a sua integração e valorização por serem humanos e ainda possíveis. Na verdade a sociedade faz vistas grossa para a capacidade produtiva do idoso, recusando de propósito sua colaboração na produção do cotidiano.

“ À medida que essa marginalização progride, o idoso volta a incômoda posição infantil de relativa dependência, à qual, com freqüência é obrigado a se habituar. A atitude que se espera que os velhos tenham está sempre relacionada à acomodação e à serenidade, e essa imagem é por vezes, reforçada por eles próprios.” [9]

Para mudar a qualidade de vida dos idosos é preciso uma reeducação das sociedades e dos mesmos. O processo de mudança social no que diz respeito a essa situação não é fácil. A representação social do idoso é muito sedimentada, como a dos deficientes, de algumas clínicas e do masculino/feminino. E elas são paredes que sustentam formas de afirmação e dominação. É realmente preciso um esforço de cada um e dos mais sensíveis para que essas paredes sejam demolidas aqui acola até que grandes espaços sejam abertos na sua textura.

Reeducar: Uma questão Central, Política e Criativa

O Plano de ação governamental integrado para o desenvolvimento da política nacional do Idoso dentro dos seus objetivos específicos, onde trata da necessidade de definir ações e estratégias para cada órgão setorial, dentre outras, inclui as seguintes diretrizes:

I – “Viabilizar formas alternativas de participação, ocupação e convívio do idoso, proporcionando-lhe integração às demais gerações;.”

III – “Priorizar o atendimento ao idoso por intermédio de suas próprias famílias, em detrimento do atendimento asilar, a exceção dos idosos que não possuam condições de garantir sua sobrevivência;”

V – “Capacitar e reciclar os recursos humanos na áreas de geriatria e gerontologia;”

VII – “Estabelecer mecanismos que favoreçam a divulgação de informações de caráter educativo sobre aspectos bio-psico-sociais do envelhecimento:” [10]

Teríamos que elogiar a criatividade das intenções, pois há todo um mundo a ser inventado pelo e para os idosos. Embora haja muita distância entre a intenção e o gesto, percebe-se nas entrelinhas que a comissão de alto nível, reconhece a impropriedade do sistema atual para o mundo e homem/mulher produzido pelo pós-neo-liberalismo. Ou nos humanizamos ou nos destruiremos. Triste sina da humanidade, carma pesado, eco de muitos genocídios.

Para construir um novo tempo apesar dos pesares a experiência e a pouca força dos mais velhos vai valer muito. E, por mais que os adultos não creiam, a deles também. Na fala de Roberto Cremar (91): resumindo: “aprender tornou-se uma questão de vida ou morte.” [11]

Atualmente o grito contra a condição de vida de homens e mulheres cresce em totalidade, chega de distorcer nossa percepção das coisas. O processo de envelhecimento faz parte da vida, é uma parte desconhecida, precisa ser construída pois com certeza a experiência dos antigo poderá calar fundo no coração dos ainda não adulterados. A conservação falando para madeira pura.

Falando assim:

“Si pudiera vivir nuevamente, mi vida. En la próxima trataría de cometer más errores.

“Correría más riescos, haría más viajes, contemplaría más atardeceres, subiri más montañas, nadaria más rios.

“Pero ya vem, tenho 85 años, sé que me estoy muriendo.”

(Jorge Luiz Borges. Instantes.)

Teremos de transformar a idéia de homem – mulher – sociedade provocando profundas transformações na percepção, nos interesses e na motivação para o existir. Temos o desafio de inventar a alquimia que banirá a depressão do nosso meio.

Isso só se dará na crença que o homem é possível e parte integrante da natureza, e tornou-se também o maior alienígena dela.

A palavra que venho repetindo aqui é reeducação. Ela envolve o retorno ao simples, pois o mais simples é o mais complexo. O descondicionamento social, a compreensão da perversão que o atual sistema provocou na humanidade. A da separação, da competição, da guerra, e do estado como centro de nossas vidas.

Entrevistei uma vez um cidadão que, criado e preparado para o campo assustou-se ao ser despejado do seu ventre. A cana chegou e ele sentou praça na polícia. Disposto no trabalho como todo bom sertanejo, destacou-se na pegação de bandidos e virou segurança de gente importante. Depois, foi dispensado de novo, mas com uma boa aposentadoria. Ele me confessou que o melhor que fez foi aprender a ler. Talvez a única que ele fez por ele mesmo!

O preconceito cega e torna homens e mulheres impotentes. A consciência tem que ser estimulada. Não que as pessoas não as possuam, mas que ela é alterada. Um dos mitos é o conflito de gerações.

Para construir uma nova relação entre homens e mulheres, e de ambos como produto de suas vidas, precisamos oferecer-lhes elementos diferentes sobre a condição humana. Valorizar o crescimento do ser e estar com, em detrimento do ter para poder ser, e no final, não estar com ninguém nem em lugar nenhum como estamos agora. O mundo dividido e homens e mulheres vagando turísticamente pelo consumo. Pois bem reeducar o homem para sí e para o bem estar social, a paz. Não só os planos de ações da ONU e dos países indica isso mas também as pesquisas.

“Felizmente, aumenta a consciência, seja lá o que for que isto signifique. Não é atribuído ou responsabilidade pessoal. Depende sim da interação entre o indivíduo e seu contexto.” [12]

Energizando a Consciência e a memória pela criatividade

Durante os desafios competitivos, homens e mulheres deixam vazar muita energia composta de elementos tóxicos, ácidos lácticos e radicais livres como produtos da dissonância entre a capacidade adaptativa e a base depressiva advinda das relações sociais (família, trabalho, o eu e o outro, e o universo); pelo processo da memória cumulativa, longitudinal, essas experiências, sempre muito fortes, sedimentam-se nas conecções que levam os estímulos nervosos ao cérebro alterando as informações que emitem os impulsos para a motivação diante de cada experiência, e cada atitude, determinando o ato, o gesto que dá intensidade e qualidade às respostas.

“Nos primeiros anos de vida, o homem é semelhante a qualquer outro vivente, mobilizando todos os seus poderes e usando cada função suficiente desenvolvidas as células do seu corpo procuram, como todas as células vivas, crescer e realizar suas funções específicas. Isto se aplica igualmente às células do sistema nervosos; cada um vive sua própria vida como célula, que participa das funções orgânicas para as quais existe. Entretanto, muitas células permanecem inativas, como parte do todo do organismo.” [13]

A repetição constante dos comportamentos social reforçado distância de outras possibilidades respondentes. Muitas células permanecem intactas ou pouco utilizadas. Elas continuarão sempre disponíveis para a estimulação.

Todo o ato é completo, uma série de funções estão envolvidas na sua organização. Se o movimento é tenso, torna-se estressante; exercitar, treinar movimentos leves, simples, é capacitar para possibilidades diferentes.

A criatividade é uma propriedade de todos. Se nos expressamos com inteireza e autenticidade o corpo e o espírito se rejubilam, e o coração e a consciência celebram a inteireza com novas pulsões energéticas. Se não o resultado é o cansaço, a frustração, o corpo fica alquebrado e o coração triste. O homem e a mulher agem e reagem por inteiro.

Todo ato também é único, criativo. A recreação, o lazer e a meditação pela sua autenticidade permitem a vitalização de processos inteiros e de pulsões adormecidas, mas disponíveis.

Nas pessoas mais antigas, soma-se ao enfraquecimento generalizado das funções uma quantidade enorme de energia inerte. O descomprometimento com o social contido na idéia de lazer e recreação já ajuda a travar novos compromissos. A atualização de funções adormecidas produz conforto, bem-estar, reforça o auto-conceito, melhora a pressão arterial e reforça a tomada de decisões coerentes.

Exercitar a criatividade para Thais Azabuja, “refere-se à necessidade de estímulos e exercícios para facilitar a expressão e criatividade nos idosos. São disciplinas que resgatam e dão forma a potencialidades inibidas ou latentes, auto-estima e a criação de novos elos com a vida e a comodidade. Através do lazer artístico, os alunos vão incorporando novas formas de percepção e ação, que podem trazer mudanças significativas ao seu estilo de ser e viver, para um maior sentido à sua existência, ao mesmo tempo que resgata e atualiza a sua memória afetiva em seus intercâmbios sócio-culturais.

Esses procedimentos pedagógicos necessitam ser generalizados e incentivados como prática cotidiana. Os resultados que tenho observado são surpreendentes. É uma oportunidade muito feliz, constarmos um modo prático de auxiliar a tarefa humana de ser feliz. Sentimo-nos participante na trajetória das crisálidas, próximas de se transformarem em borboletas.

ALVES, Maria Isabel Coelho e MONTEIRO, Mário F. G. Aspectos Demográficos da População Idosa no Brasil. IN: Terceira Idade, Um Envelhecimento Digno para o Cidadão do Futuro, Renato P. Veras; Relume – Dumara: UNATI/UERJ, 1995, pg. 70
SIMÕES, Regina. Corporeidade na Terceira Idade.
FELDENKRAIS, Mosche. Consciência pelo Movimento – São Paulo: SUMMUS, 1977, pg-36.
FELDENKRAIS, Mosche. Consciência pelo Movimento – São Paulo: SUMMUS, 1977, pg-33.
NEVES, Carlos e MORAES, J. André. Artigo: O Segredo da Maturidade – Revista Via Vida, ano I – n.º 0 – outubro, 96 – São Paulo, TECD Editor
Ibid. Pg. 55
GAIARSA, Angelo. Como Enfrentar a Velhice. São Paulo/ Campinas: Ed. icone/ UNICAMP, 1986. Pg. 09.
= 11…..pg. 52
FRANÇA, Lucia Helena de Freitas. A Percepção Social – Ambivalência, marginalização, Dependência e Preconceito. IN’ Questão Social do Idoso. Ver. Intercâmbio, Rio de Janeiro 4 (2): 49-56, Jan/Abril/1989. Pg. 55
Plano Governamental Integrado para O Desenvolvimento da Política Nacional do Idoso, MRAS, 1996.
Plano Governamental Integrado para o Desenvolvimento da Política Nacional do Idoso, MRAS, 1996.
NERI, Anita Liberalesso. Qualidade de Vida no Adulto Maduro. São Paulo, Ed. PAPIRUS, 1993, p.g.
FELDENKRAIS, Moshe. Consciência pelo Movimento. São Paulo. SUMMUS, 1977, 55

.Bibliografia

ALVES, Maria Isabel Coelho e MONTEIRO, Mário F. G. Aspectos Demográficos da População Idosa no Brasil. IN: Terceira Idade, Um Envelhecimento Digno para o Cidadão do Futuro, Renato P. Veras; Relume – Dumara: UNATI/UERJ, 1995, pg. 70

BRANDÃO, M. S. e CREMA, Roberto. Visão Holística em Psicologia e Educação.

FELDENKRAIS, Mosche. Consciência pelo Movimento – São Paulo: SUMMUS, 1977, pg-36.

FELDENKRAIS, Mosche. Consciência pelo Movimento – São Paulo: SUMMUS, 1977, pg-33.

FRANÇA, Lucia Helena de Freitas. A Percepção Social – Ambivalência, marginalização, Dependência e Preconceito. IN’ Questão Social do Idoso. Ver. Intercâmbio, Rio de Janeiro 4 (2): 49-56, Jan/Abril/1989. Pg. 55

GAIARSA, Angelo. Como Enfrentar a Velhice. São Paulo/ Campinas: Ed. Ícone/UNICAMP, 1986. Pg. 09.

NEVES, Carlos e MORAES, J. André. Artigo: O Segredo da Maturidade – Revista Via Vida, ano I – n.º 0 – outubro, 96 – São Paulo, TECD Editor