Um pré-contrato com a pré-terapia de Garry Prouty

Henriette T. Penha Morato

Na recente estada do professor Garry Prouty, da Universidade de Illinois (EUA), no Brasil, tivemos a oportunidade de entrar em contato com um novo método de trabalho com pacientes severos. Este foi o te ma desenvolvido por Prouty no Seminário “Pré-Terapia: Um trabalho com clientes esquizofrênicos e deficientes promovido pelo Instituto da Psicologia da USP e pelo Núcleo Paulista da Abordagem Centrada na Pessoa, da 6 a 10 de agosto 1.990.

Carry Prouty faz sua formação básica em Psicologia na Universidade de Buffalo (E.U.A.) e desde então tem se dedicado à prática e pesquisa com populações de clientes internos em hospitais públicos para doentes mentais e clínica particular além de pertencer à Universidade de Illinois na qualidade de professor adjunto. Nos últimos anos, tem também sido convidado para oferecer seminários sobre seu método e técnica de trabalho bem como manter treinamento específico e dar superviso para profissionais alemães, belgas e italianos envolvidos com atividades na área de saúde mental em instituições.

O interesse despertado pela proposta da Prouty revela o sempre fundante questionamento e a necessidade de reflexões no encontro com o alienamento psicológico (doença mental) como formas de busca para novas possibilidades de aço com que se defrontam os profissionais de saúde e educação. Nesse contexto, a terapia se oferece como possibilidade de contato para cura. Propõe-se como uma relação de ajuda no encontro com outro alienado para poderem ser resgatados seus elos perdidos de contato com o eu, com o mundo e com os outros. Estar em contato, pois, condição básica para terapia. Contudo, os profissionais envolvidos no trabalho terapêutico com pacientes esquizofrênicos e com retardamento mental continuam experimentando as dificuldades de uma experiência desafiante: como ultrapassar o isolamento psicológico vivido por esses pacientes e criar possibilidade para o estabelecimento de um contato que possa propiciar o processo terapêutico?

Foi a partir dessas experiências que Garry Prouty iniciou suas pesquisas para buscar um método que possibilitasse aos profissionais estabelecer contato com pacientes com dificuldade de contato e criar condições para a ocorrência de processo terapêutico. E surgiu a pré-terapia. Partindo das colocações técnicas de Carl Rogars sobre a Terapia Centrada no Cliente, apresentadas no artigo “Condições Necessárias e Suficientes para Mudança Terapêutica da Personalidade” (in Journal of Consulting Psychology, 21, 1957), e das reformulações teóricas acrescentadas por Eugene Gendlin sobre o processo de experimentação em terapia, apresentadas no artigo “Uma Teoria sobre Mudança na Personalidade” (Worchel and Byrna [Eds.], Personality Change, N.Y., 1964), Prouty assume a relação e a experimentação como dimensões válidas do processo terapêutico. Relação seria a possibilidade de percepção de contato e de comunicação com o outro e com o mundo, enquanto experienciação seria a possibilidade de percepção ao contato e comunicação com suas próprias sensações e emoções (Com o self, portanto). Se essas funções psicológicas encontram-se prejudicadas ou com dificuldades de serem acessadas e desenvolvidas (como no caso de esquizofrênicos), questões sobre a noção relação/experienciação e sobre os objetivos terapêuticos para mudança na personalidade começam a ser formuladas. Coloca-se, dessa forma, em foco a questão de uma “pré” relação ou de um método “pré” experiencial através dos quais seria buscado o restabelecimento da possibilidade de contato psicológico (contato de realidade, afetivo e comunicativo) com esse tipo de clientela para posterior ocorrência do processo terapêutico. Assim, a pré-terapia seria alternativa metodológica para ultrapassar esse questionamento, utilizando-se de técnicas especificas (reflexões de contato) para resgatar as funções de contato (com a realidade, afetivo e comunicativo) e facilitar a emergência de manifestações comportamentais (comportamentos de contato). Seria, então, possível apresentar a pré-terapia como: a) um conjunto de técnicas terapêuticas, b) um conjunto de funções necessárias para a ocorrência da terapia; e c) um conjunto de comportamentos resultantes mensuráveis. A descrição pormenorizada do método e técnicas propostas pode ser melhor compreendida através do mais recente artigo da Prouty “Pre—Therapy: a theoretical evolution in the person-centered/experiential psychotherapy of achizophrenia and retardatiori” Lietaer, C. et alli [Eds.], Client-Centered and Experlential Psychotherapy in the Nineties. Leuven University Press 1990.

Propondo-se como alternativa metodológica para o resgate da percepção de contato (ou contato psicológico), torna-se evidente que a pré-terapia dirige sua preocupação para a consciência funcional. Isto revela sua base metodológica fundamentada no questionamento fi1osófico desenvolvido pela Fenomenologia e pelo Existencialismo: a inter-relação e experienciação com o self, com o mundo e com o outro. Redimensiona, dessa forma, a visão da doença mental como uma condição existencial (situacional/psicológica/social) e que reacende a discussão crítica levantada pela antipsiquiatria quanto metodologia e as técnicas dos tratamentos terapêuticos tradicionais a clientes psiquiátricos. Recoloca ainda a questão polêmica da visão do doente mental institucionalizado ser compreendida numa dimensão sociológica.

A originalidade e qualidade das experiências vividas bem como a profundidade e atualidade das questões levantadas por Garry Prouty, durante o seminário em São Paulo, possibilitaram a oportunidade para novas ref1axões e discussões para aqueles que se dedicam ao trabalho com a população psiquiátrica institucionalizada ou não e que se preocupam em repensar as condições desse trabalho e suas possibilidades de mudança na realidade brasileira. Foi pensando em poder repartir e ampliar essas oportunidades de reflexo que se abriu o espaço para entrevistas com Garry Prouty, que juntamente com as aulas apresentadas no curso, se encontram registradas em vídeo (uma delas já foi publicada no l no. da Revista “Insight”), no acervo do centro de documentação no NPRCP, em processo de tradução e transcrição, para possve1 publicação posterior.

Publicado no Boletim da ACP – São Paulo – no. 10 novembro 1990