UMA MEDITAÇÃO CON-CENTRADA NA PESSOA

MATHEUS CAUTIERO MOTA MIRANDA

“Aquele que olha para fora sonha,

aquele que olha para dentro desperta.”

Carl Jung

INTRODUÇÃO

Nossa mente é condicionada a evitar toda e qualquer situação de desprazer.

A princípio, parece muito lógico, afinal, quem gosta de vivenciar sentimentos desagradáveis? Nós nos cobramos e somos cobrados pela convivência social a estarmos sempre bem. Portanto, nossa primeira reação é querer expulsar imediatamente qualquer sentimento que nos faça sofrer.

Muitas vezes, através de comportamentos compulsivos, procuramos as mais diversas formas de alienação capazes de nos dis-trairmos, de modo a não enfrentarmos o que nos aflige. É preciso lembrar que, por mais que tentemos esconder, negar, mentir, esquecer, é impossível fugir de nós mesmos. Evitar a dor, acreditando que “com o tempo passa”, não nos livra dela. Apenas adiamos o encontro com aquilo que não vai bem dentro de nós, pois, de uma forma ou de outra, a vida se encarrega de nos mostrar o que não queremos ver. Nossos relacionamentos são a maior prova disso. É comum nos envolvermos com pessoas que irão refletir exatamente nossas maiores dificuldades. Não vemos coerência em atribuir tal ocorrência à mera atuação de um acaso sem sentido, mas sim, como um encontro lógico que, lembrando Sartre, conduz o ser à revelação de si pelo encontro com o outro. Assim como alguns pais desesperados que, ao se queixarem do mau comportamento de seus filhos exclamam: – o que eu fiz para merecer isso? Eles não imaginam que o comportamento dos filhos geralmente são apenas o espelho de suas próprias dificuldades não trabalhadas.

Quando não assumimos, para nós mesmos, quem somos, o que sentimos, o que escolhemos, entramos em desacordo interno. Perdemos energia na dúvida entre “ser ou não ser”. Dúvida enraizada no medo de enfrentar a realidade por ser essa, percebida como ameaçadora. Medos que nos paralisam, nos aprisionam, sem que, muitas vezes, sequer damos conta da existência deles. Em nome do medo doentio, nos tornamos inautênticos, vítimas de nós mesmos, reféns das próprias fantasias. Dessa forma, nós mesmos impedimos a operacionalização do que Rogers (1975) chamou de tendência atualizante.

Considerada como pilar de sua teoria, definiu-a como uma tendência que desperta, no homem, a capacidade de renovar-se, de organizar-se e encontrar caminhos para seu amadurecimento e desenvolvimento. Assim como a planta tende a procurar luz, pois, em alguma dimensão do seu organismo, sabe que é a partir dela que irá extrair alimento para continuar vivendo e se expandindo, essa tendência se manifesta no homem como algo que o move ao encontro com a auto-realização nos mais diferenciados níveis de experiências. Assim, a ênfase da Abordagem Centrada na Pessoa (ACP) criada por Rogers, está nas potencialidades do homem, na sua saúde, no bem-estar, na capacidade de aceitar e expressar sentimentos de forma mais livre e transparente, enfim, numa forma mais plena de viver a vida. Tais argumentos fazem dessa teoria não apenas uma teoria, muito menos um emaranhado de técnicas, mas uma filosofia de vida, um jeito de ser.

É justamente pela identificação com esses princípios humanistas de desenvolvimento das potencialidades e com a abertura em relação às experiências vivenciadas, que ousamos estabelecer uma relação entre a Abordagem Centrada na Pessoa e o processo de meditação. A meditação, assim como a psicologia, é dotada de várias vertentes teóricas que se diferem entre si com relação à metodologia de cada prática. Cláudio Naranjo, é um pesquisador, escritor e psiquiatra que se enveredou pela área transpessoal. Em um de seus livros, Psicologia da Meditação, ele investiga as várias técnicas de meditação e ressalta a natureza dos processos psicológicos existentes em cada uma delas. Nesse livro, Naranjo constata que todas as diferentes formas de meditação possuem pontos em comum: todas consistem em deter-se em algo, requerendo um esforço para a focalização da atenção (concentração), seja num objeto, sensação, verbalização, tema, estado mental ou atividade. Ele conclui que toda meditação conduz a uma imobilização da mente. “Após sentir o gosto do ‘estado de concentração’e observar as dificuldades que este estado apresenta, estamos mais preparados para a observação de qualquer ‘estado interior’.” (Naranjo, 1991, p.24)

Este é um dos pontos que nos interessa: a meditação como uma ponte para um encontro consigo mesmo, que se aprofunda à medida em que se pratica. Dentre tantas correntes, elegemos a que Naranjo chamou de meditação concentrada ou absortiva. Utilizamos este viés como forma de concentrar-se na própria pessoa. Uma técnica em que “(…) o indivíduo se concentra sobre sua própria experiência, se entrega à sua própria existência, se faz receptivo ao que é sem olhar através da lente de uma construção simbólica.” (Naranjo,1991, p.46) Algo que, além de considerarmos semelhante à atitude de aceitação incondicional proposta por Rogers, é visto como essencial e facilitador para o funcionamento da tendência atualizante. Carl Rogers, afirma que: “(…)não podemos mudar, não podemos afastar do que somos enquanto não aceitarmos profundamente o que somos.” (Rogers, 1991, p25)

A proposta é que a pessoa entre em contato com seu mundo interno e aceite sua experiência sem crítica, sem julgamento e que se posicione como um expectador de si mesmo, onde será possível contemplar, com os olhos da consciência, fenômenos psíquicos que podem emergir das mais variadas formas.

Examinamos a meditação como um exercício de centrar-se, tanto no sentido de concentrar nossas energias, como no de achar o centro de nosso ser. Consideramos a meditação como um exercício de entrega a nossa verdadeira natureza, de naturalidade, de receptividade e de permitir que fluam energias geralmente enterradas sob representações, programações, preconceitos e intenções conscientes. (Naranjo, 1991, p.47)

A partir do fluxo dessas “energias enterradas” é que se faz possível um trabalho de conscientização e desidentificação dos significados opressores contidos nas próprias “representações, programações e preconceitos”, incongruentes com o bem-estar e o crescimento humano.

Diante disso, gostaríamos de apresentar o trabalho experimental que vem sendo realizado semanalmente, desde fevereiro de 2002. Trata-se de um trabalho voluntário que se encontra em nível de desenvolvimento, portanto, sujeito a reformulações, de acordo com os indicativos oferecidos pela prática. Formamos um grupo de encontro nos moldes da ACP e incluímos a vivência de processos meditativos no começo de cada encontro. Após a prática de meditação, o espaço fica aberto para a manifestação espontânea dos participantes. Observamos que, ao se voltar para seu interior de forma receptiva, a pessoa entra em contato com sensações, emoções, sentimentos, imagens, palavras, que se afloram fazendo de cada experiência uma nova descoberta que o atualiza. Ao se expressar para o grupo, compartilhando a própria experiência, a pessoa tem a oportunidade de elaborar melhor o que lhe ocorreu. Por tratarmos de um nível de consciência diferente da elaboração racional normalmente trabalhada na clínica convencional, o significado dessas experiências pode não apresentar um sentido lógico-racional de entendimento. O estado de consciência racional tem suas utilidades reflexivas, analíticas, etc, mas impõe barreiras e defesas nesse outro processo, de modo a não permitir que entremos em contato com experiências mais profundas e, tantas vezes, incompreendidas. Um material onírico, simbólico ou pictórico é comum de ser percebido pelos participantes, como aparece em alguns dos relatos de pessoas que chamaremos de V, J, F, T e B descritos abaixo:

V: Quando estava meditando eu vi um rio. Era um rio muito sujo, feio…

Depois de outros relatos, outro integrante leu um texto que falava sobre culpa, o que fez com que V retomasse a sua fala anterior, dizendo:

V: É isso! Este rio sou eu. E a sujeira é a culpa que estou sentindo agora. Deixei meus filhos em casa… eles não queriam que eu viesse mas achei que era importante vir… Foi uma decisão difícil… depois que me separei, tenho vivido todos estes anos em função das vontades deles e agora quando tento fazer o que quero, viver a minha vida, me sinto culpada.

A culpa que a participante experimentava foi representada pelo rio sujo. E foi entendida por ela como uma necessidade de reavaliação de sua postura como pessoa e mãe na relação com seus filhos.

Este outro relato, diz o seguinte:

J: Foi estranho… me vi dirigindo um carro numa estrada à noite, tinha um homem do meu lado, e quando joguei o farol alto, vi um cavalete, uma barreira no caminho. Enxergava que existia mais estrada adiante mas a barreira estava lá impedindo a passagem. Não entendi… estou muito sonolenta.

Somente no final do encontro é que J consegue dar sentido para sua experiência:

J: O fato de me ver dirigindo ao lado de um homem me remete à relacionamento. Estou começando uma relação com uma pessoa e sinto muitas dificuldades… ao jogar o farol alto, é como se quisesse ver o que tem na frente, um futuro em que fico fantasiando um monte de coisas ruins que podem acontecer… aí é que aparecem barreiras, impedimentos… quando na verdade, existe mais estrada para percorrer.

Este outro participante fala mais objetivamente do sentimento experimentado em sua vivência:

F: Acho que não meditei. Fiquei com muito medo. Por um momento pensei até em abrir os olhos… mas quis enfrentá-lo com minha força… antes de começar, já sabia que ia ser difícil. Quis acolher este medo e devagarzinho ele foi passando.

É interessante ressaltar, como F já trazia em si a sensação de que “ia ser difícil”e, ao fazer silêncio e fechar os olhos, enfrentou a situação (ao invés de tentar fugir), entrando em contato com o sentimento que o afligia até que fosse “passando”.

Nos exemplos anteriores, a experiência com a meditação remeteu a pessoa a uma questão de sua personalidade a ser conscientizada e trabalhada. Outros relatos indicam a presença de experiências que parecem estar além da personalidade, que poderiam ser interpretadas como indícios de uma patologia psicótica por outras teorias e que são aceitas pela psicologia transpessoal como um possível acesso a uma dimensão da realidade que não é menos real por não ser percebida empiricamente.

No relato a seguir, logo após a meditação, o participante descreve sua percepção que inclui mudanças até em suas sensações corporais:

T: Foi sensacional! Eu senti muito forte a presença de uma pessoa querida que já faleceu. Eu senti seu cheiro, seu olhar… ela estava aqui. Ela parecia estar muito bem. Ela teve uma morte trágica mas agora está bem. Eu estou me sentindo ótimo! Nunca senti nada igual. Estava o dia inteiro com uma tensão nos ombros e agora passou. Incrível!

Este outro, relata a dimensão de sua experiência em poucas palavras:

B: Vi todo universo e me senti como um pequeno pontinho dentro dele… estou sentindo uma paz muito profunda.

Experiências que, como essas, ainda pouco valorizadas pelo meio acadêmico, são cada vez mais comuns em grupos que, ao invés de se armarem com julgamentos pré concebidos, prezam pela liberdade de aceitá-las, interpretá-las e expressá-las com a espontaneidade em que são experimentadas. Ao diluir a presença de dogmas e ideologias capazes de reprimir e distorcer a própria realidade subjetiva, as pessoas tendem a se permitirem vivenciar as dimensões transcendentes e espirituais sem o medo de serem consideradas loucas ou fanáticas. Carl Rogers já nos alertava para o futuro que irá bater nas portas dos psicólogos levando-os a repensarem sua próprias convicções:

Na próxima geração de psicólogos, possivelmente liberada das proibições e resistências universitárias, talvez se incluam alguns poucos indivíduos que ousarão investigar a existência de uma realidade que não é acessível a nossos cinco sentidos, uma realidade em que o presente, o passado e o futuro se confundem, uma realidade que somente pode ser percebida quando nos mantemos passivamente receptivos, ao invés de ativamente decididos a conhecer. Este é um dos desafios mais empolgantes propostos à psicologia.(Rogers e Rosemberg, 1977, p.50)

Com esse e vários outros comentários, Rogers apresenta-nos uma tendência da ACP em transpessoalizar-se para lidar com a necessidade de se entender experiências que fogem à compreensão do modelo atual de ensino acadêmico da personalidade humana. A psicologia transpessoal tem, como interesse central, o estudo da consciência e seus estados alterados, que ultrapassam os limites do ego, estão para além da pessoa.

O modelo transpessoal considera nossa consciência comum um estado contraído e defensivo […] A consciência ótima é considerada bem mais ampla e potencialmente disponível a qualquer momento, se a contração defensiva for relaxada. A perspectiva fundamental do crescimento é pois, abandonar essa contração defensiva e remover os obstáculos ao reconhecimento do potencial ampliado sempre presente por meio do apaziguamento da mente e da distorção perceptiva.

( Boanaim, apud Walsh e Vaughan, 1991, pp. 60-1)

Portanto, a diretriz do trabalho é exatamente esta: mudar o foco do nosso olhar de fora para dentro. Há milênios, as filosofias orientais nos ensinam que, dentro de nós, possuímos as soluções para nossos problemas.

Quando a pessoa concentra sua atenção para dentro de si, começa um movimento para estabelecer uma empatia consigo mesma. Com alguma prática, depois do seu corpo já se encontrar confortavelmente imóvel por alguns minutos, vai cessando sua atividade racional, aceitando se fazer presente apenas no aqui e agora e, aos poucos, alterando suas freqüências de ondas mentais e criando um estado de silêncio interior que, em si mesmo, é uma condição mais do que facilitadora, é uma condição atualizante. Onde o ser tende a buscar sua própria luz.

Com as mesmas atitudes facilitadoras de aceitação, compreensão empática, respeito, autenticidade, propostas pela ACP, é que procuramos acolher os participantes e suas experiências compartilhadas, sejam elas pessoais ou transpessoais, agradáveis ou conflitivas. E, ainda, como um típico grupo de encontro, é comum o enfoque nas relações entre os integrantes. A criação desse trabalho tem por objetivo último a manutenção de um espaço social com condições propícias para que cada um possa buscar a própria transcendência, a partir do encontro consigo mesmo e com o outro.

BIBLIOGRAFIA
– BOAINAIN Jr., Elias, Tornar-se transpessoal: transcendência e espiritualidade na obra

de Carl Rogers / Elias Boainain. São Paulo: Summus, 1998.

– NARANJO, Cláudio, Psicologia da meditação. São Paulo: Instituto Thame, 1991.

– POELMAN, Johannes, O homem a caminho de si mesmo. São Paulo: Edições Paulinas,

1993.

– RAJNEESH, Bhagwan Shree, Meditação. A arte do êxtase. São Paulo: ed. Cultrix, 1976.

– ROGERS, Carl R., Tornar-se pessoa. São Paulo: Martins Fontes, 1991.

– ______________, Grupos de encontro. 2. Ed. São Paulo: Martins Fontes, 1978.

– ROGERS, C.R. e KINGET, G.M. Psicoterapia e relações humanas. Belo Horizonte,

Interlivros, 1977.

– ROGERS, C.R. e ROSEMBERG, R.L. A pessoa como centro. São Paulo, EDU/EDUSP,

1977.

Apresentado no XI ENCONTRO LATINO-AMERICANO DA ACP – Socorro – Brasil – Out/2002