Uma outra visão de nosso futuro

David J. Cain

Introdução

Maria A. Bowen e eu compartilhamos uma profunda preocupação em relação ao futuro da ACP. Estamos preocupados com seu contínuo crescimento, como processo de seu desenvolvimento e a natureza de sua identidade. Como Maria, eu também sei que Carl Rogers influenciou muito milhares de pessoas, inclusive a mim mesmo. Sei também, que a inevitável morte de Carl trará um grande vazio, que vai exigir um ajustamento. E mesmo assim, acredito que, no momento, devemos olhar para nós mesmos e não para Carl, para liderança, para mapear nossa rota futura. Antecipando nosso futuro, acredito que precisamos desenvolver uma organização coesa e forte, dedicada ao crescimento pessoal e intelectual da Terapia Centrada no Cliente e da ACP.

Neste ensaio vou responder às afirmações e dúvidas de Maria, oferecendo alguns pontos de vista alternativos.

Crescimento e Interesse Modestos

Primeiro, discordo que a ACP tenha crescido a passos gigantes. Enquanto que a ACP se espalhou por vários países na Europa, para alguns na América do Sul, para poucos na África e para Austrália e o Japão, seus números permanecem modestos, assim como sua influência em relação a outras escolas de pensamento psicológico. Não me parece que a ACP seja uma força principal em qualquer país, inclusive em seu país de origem. De fato, nos EUA, nossos números e influência diminuíram nos últimos 20 anos. Quando terapeutas nos EUA são – solicitados a identificar sua abordagem psicoterápica, normalmente menos de 5% se identificam como centrados no cliente.

Não só nosso número diminuiu, como diminuiu também o interesse em pesquisar e escrever. O número de publicações na ACP diminuiu, principalmente porque o número de professores universitário entre nós é menor que há 20 anos. A conseqüência lastimável é que há menos de nós; disponíveis para ensinar a próxima geração de estudantes graduados. Consequentemente, são poucos os profissionais jovens iniciando-se na ACP como clínicos, professores, terapeutas ou pesquisadores. O ponto disto tudo é que devemos nos preocupar com nossos números. Precisamos demais pessoas para ensinar (em todos os níveis), realizar pesquisas, supervisionar e aplicar nossos conhecimentos a uma grande gama de pessoas e situações.

Necessidade de 0rganização

Para aumentar nosso número e impacto, devemos nos dirigir para, ao invés de nos distanciarmos de um desenvolvimento de organizações – funcionais e efetivas. Devo dizer aqui que vejo uma organização – de maneira diferente de uma instituição, apesar de não perceber a última como inerentemente ruim, como Maria parece perceber. Porém, como Maria, eu seria contra uma organização ou instituição que – controlasse ao invés de conceder poder aos seus membros. Diferente de Maria, eu não acredito que o desenvolvimento de uma tal instituição seja possível. Um dos motivos é de que não existe um precedente para tal. Enquanto os freudianos, adlerianos, analistas transacionais e outros têm virias formas de organização, nenhuma que eu conheço tem uma subsidiária “oficial” e “central’, que controla as outras. Não posso imaginar que pessoas, cujas vidas são influenciadas pelos valores da ACP desejassem ou permitissem o desenvolvimento de tal instituição. Não conheço ninguém que gostaria de “institucionalizar” a ACP. Enquanto que pessoas interessadas em aceitarem cargos numa organização centrada possam ter algum interesse em política e administração (como parecer ser apropriado), achei a sugestão de Maria que nossa organização estaria (então) nas mãos de políticos e administradores, algo inacreditável. A realidade é que pessoas que detém cargos nas organizações são, possivelmente, pessoas dedicadas e trabalhadoras, que aceitam fazer o trabalho mundano, porém necessário, para atender aos seus membros. Existe pouco espaço para “políticos” e “administradores” interessados, principalmente, em poder e controle.

Apesar das redes de comunicação serem importantes para ajudar seus membros a se contatarem e a se comunicarem, elas não fazem mais do que isso. A maior falha das redes, tão desejável seja a sua existência, é que não conseguem realizar muito. Isto é assim, principalmente, porque a associação na rede se dá de maneira muito solta. Nas redes de comunicação geralmente falta um grupo central de indivíduos que estão dispostos a dedicar o tempo e o esforço necessário para desenvolver e levar adiante os objetivos de seus membros.

Afortunadamente os aspectos positivos das redes de comunicação podem facilmente ser incorporados numa organização flexível. Assim, o desenvolvimento de uma organização formal não está em oposição, ou não exclui, as redes de comunicação.

Sobre a Cultura e Valores

Maria e eu acreditamos que “a ACP veio transcender barreiras culturais e raciais”. Sua filosofia e valores básicos parecem ser universais, respeitando a dignidade e o trabalho de todos seres humanos. A implementação destes valores e filosofia, porém, inevitavelmente vai requerer alguma adaptações para satisfazer as necessidades culturais, étnicas e raciais de diferentes grupos. Como Maria coloca, diferentes países desenvolveram suas organizações para satisfazer suas características e objetivos específicos. E é assim que deve ser.

Não posso imaginar, como Maria sugere, que uma instituição “oficial’, “americana”, “central” poderia subordiná-las. O fato de vários países já terem suas organizações trabalharia contra esta possibilidade. Uma diversidade de organizações não pode ser subordinada à uma organização central, assim como as Nações Unidas não poderiam subordinar seus próprios membros.

Um dos valores básicos da ACP é de dar poder ao indivíduo e respeitar estilos e preferências individuais. A delegação de responsabilidade, necessária numa organização, não retira necessariamente poder de seus membros. Ela requer que alguns membros confiram a outros a responsabilidade de atender is necessidades do indivíduo e da organização. Não posso imaginar, porém, como os membros ou coordenadores de uma organização ACP teriam qualquer autoridade real ou controle sobre seus membros, como Maria sugere. Não vejo como, ou porque, uma organização ACP tentaria moldar ou controlar seus membros.

Uma organização, porém, para ser efetiva, necessita ter um foco e um objetivo, uma vez que não pode ser tudo ou fazer tudo para todas pessoas. Pessoalmente, não vejo que problema isto poderia causar. Participa-se de uma organização, se esta preenche nossas necessidades. As organizações inevitavelmente têm algum critério de admissão, mesmo que este seja um de simples interesse comum. Organizações não tomam decisões sobre quem pertence e quem não. Pessoas decidem. Existem várias organizações das quais poderia fazer parte, mas escolho não fazê-lo.

Concordo, que algumas organizações têm critérios de admissão definidos, mas o objetivo destes critérios, normalmente, é de manter o nível e objetivos da organização. Alguns critérios são desejáveis e mesmo essenciais. Caso alguém deseje ser membro da American Medical Association, será necessário ser médico. O fato de as organizações terem critérios, na minha opinião, não significa que a organização avaliará aqueles que não preenchem estes critérios. Da mesma maneira, não posso acreditar que uma organização centrada julgaria aqueles que escolheram não pertencer ou que não atendessem aos critérios específicos da organização.

Precisamos de mais organização e não de menos, se quisermos concentrar nossa energia de uma maneira que nos possibilite definir e levar adiante nossos objetivos futuros. Enquanto que as redes de comunicação são realmente desejáveis para nos ajudar a nos contatarmos, falta-lhes, em geral, a estrutura e clareza de objetivos para realizar coisas e levar-nos adiante em nosso desenvolvimento. Em muitos países já existem vários tipos de organizações centradas. Surpreendentemente, o lugar de nascimento da Terapia Centrada no Cliente e da ACP tem-se mostrado lento no desenvolvimento de uma organização formal. Não existe mais motivo para se temer que nos tornaremos ortodoxos e rígidos em nossa maneira de pensar, se formarmos uma organização. Um medo maior é que nossa energia será dissipada sem grupos e/ou organizações com as quais possamos nos identificar. Precisamos pensar além do presente, para a próxima geração de estudantes e clínicos. A não ser que possamos dar a eles alguma forma de aproximação com objetivos comuns, poderemos talvez verificar que nossos números e nosso impacto futuro continuará a ser modesto, se não diminuir. Isto não necessita ser nossa praga. Podemos dar a outros oportunidade de aprender e crescer como pessoas e profissionais e a compartilhar com outros a filosofia e os valores da ACP.

CARTA AO DR.DAVID CAIN

Rogério Christiano Buys

Prezado Dr. David Cain,

Recebi de Maria C.Villas-Boas Bowen a Revista Renaissance (Volume 5, Number 2, 1986) onde constam algumas divergências de ponto de vista entre Maria e o Senhor, sobre o futuro da Abordagem Centrada na Pessoa.

Acho muito oportuna esta discussão e gostaria de fazer alguns comentários a respeito que me parecem cabíveis. Focalizarei aqui apenas um de seus aspectos o que trata da questão da criação ou não de uma instituição centralizadora. Eu não participo do receio de Maria Sowen de que uma instituição “oficial”, só por esta posição possa tornar-se autoritária, centralizando e uniformizando (no mau sentido), portanto extinguindo, o crescimento científico e técnico da nossa Abordagem, dogmatizando-a. Também não penso que a criação desta instituição necessariamente, contrarie os princípios mais caros e fundamentais da proposta de Rogers.

Naturalmente estes perigos existem e a cautela de Maria me parece de todo pertinente. Entretanto, as considerações seguintes me tranqüilizam.

Karl Popper em sua obra “The Open Society and its Enemies” principalmente nos capítulos 23 e 24, do 2º. volume, aborda com muita propriedade o assunto. Sucintamente, para este autor, existe o conhecimento público, experimental, que está à disposição para ser criticado e refutado, e existe o conhecimento que pertence a uma autoridade, que e seu porta-voz, que o interpreta aos demais e que detém todas as condições de controle de quaisquer mudanças que nele se possam operar. Este não é um conhecimento público nem refutável – é autoritário. Pensando com Popper, concluo que uma instituição voltada ao saber será autoritária caso o conhecimento com o qual lida seja “autoritário” e será científica (democrática) se trabalhar com conhecimento público – caso da Abordagem Centrada na Pessoa. Não me é possível imaginar a inversão dessas posições.

Uma organização só pode controlar seus membros quando centraliza “a verdade” do seu saber. Neste caso “a verdade” é ditada pela autoridade; os membros não têm como contradizê-la porque só ela possui os critérios e meios através dos quais legitima os seus dogmas. Uma instituição científica que trabalha com o conhecimento experimental, ao contrário, não tem como controlar seus membros já que a experimentação, o critério universal da legitimação do conhecimento, está à disposição de todos e é público.

Se meu pensamento é verdadeiro, o perigo levantado por Maria se desloca para a possibilidade de o conhecimento representado pela Abordagem Centrada na Pessoa se torne, ele próprio, autoritário (que então poderia respaldar uma instituição autoritária).

Esta possibilidade me parece remota, não pela filosofia subjacente ao pensamento Centrado na Pessoa, como também por toda tradição experimental iniciada por Rogers há mais de 40 anos. E, ainda que se assim fosse, essa instituição seria fatalmente repudiada pelos que vivem os princípios humanísticos inerentes à essa filosofia.

Acho, por outro lado, vantajosa a criação de uma instituição oficial pelos motivos abaixo relacionados:

l. Todo sistema necessita limites que o distingam do meio circundante e a Abordagem Centrada na Pessoa é um sistema (axiológico-teórico-experimental-técnico). Uma instituição central muito auxiliaria no sentido de precisar seus limites;

2. A instituição poderia centralizar (no bom sentido) a contribuição das instituições e pessoas que trabalham na área no sentido de sistematizá-la e enriquecê-la e redistribuí-la. Os indivíduos ou pequenas instituições, por mais atualizados que se mantenham não têm a abrangência que uma instituição como a que discutimos poderia ter;

3. Só as organizações maiores são capazes de rea1izar pesquisas importantes. Uma instituição central poderia se colocar na vanguarda do pensamento Centrado na Pessoa através de pesquisas básicas, como as que acho que ela necessita urgentemente.

Finalizando, penso que a criação de uma instituição que representasse o pensamento Centrado na Pessoa, como a embaixada de um pais democrático o representa, seria de grande valia ainda que comporte, a meu ver, um remoto perigo.

Publicado no boletim Rede de Comunicação ACP – Rio de Janeiro – no. 0 – novembro 1987