Uma reflexão sobre a questão do grupo de pertinência na ACP

Marisa Japur

Ao aceitar o convite que a Henriette me fez para participar dessa Mesa Redonda, não cheguei a ter presente a dimensão exata do quanto me seria difícil essa tarefa.

E o seu convite me chegou junto com um desafio – o de que ela gostaria de me ver dizer em publico, algumas coisas que tenho pesquisado sobre questionamentos teóricos da Abordagem e sobre os quais algumas vezes conversamos.

Ao elaborar esse relato não encontrei nem a clareza e nem a consistência necessárias para responder a esse desafio.

Por isso, vou me limitar a trazer algumas impressões minhas sobre a forma como percebo nosso próprio funcionamento enquanto um grupo de pessoas que se define com uma afiliação à Abordagem Centrada na Pessoa.

Antes, porém, sinto necessidade de explicitar um pouco melhor qual a minha perspectiva frente a Abordagem que vocês possam dar a minha fala a dimensão relativa que ela necessariamente tem.

Reconheço que coexistem na minha relação com a Abordagem dois lados.

Por razões da minha própria história e por significados muito pessoais e subjetivos, tomar contato com a Abordagem representou para mim a possibilidade de reconfigurar o sentido da própria vida. E por isso, falo, antes de tudo, do lugar de uma pessoa que faz seu primeiro vínculo com ela de forma apaixonada, de uma paixão com um sabor de reencontro comigo mesma, que me permitiu ter acesso a um desejo profundo, até então irreconhecido, de estar comprometida com o permanente processo de recriação do humano.

Meu contato pessoal com Rachel, profundamente significativo, tem muito a ver com isso, mas e por esse, mesmo contato, que falo também do lugar de uma pessoa interessada em dividir o valor dessa experiência e de uma profissional interessada na divulgação e desenvolvimento da Abordagem, mergulhada na vida acadêmica onde os esquemas conceituais e o rigor metodológico são os critérios institucionalizados de aceitação e reconhecimento, e onde não sobra muito espaço para a paixões. E embora eu não me contente com esses critérios, como formas exclusivas de construção de um conhecimento que fundamente a nossa ação sobre a realidade, não posso negar que também os valorizo.

Falo, então, da perspectiva de alguém que não podendo aceitar o risco de ver subestimada nos meios acadêmicos uma visto que restitui à pessoa, a sua humanidade, acredita legitimo, valorizar esses mesmos critérios e assumir seu poder instituído para tentar relativizá-lo.

À medida que estou tentando dar forma a esses dois lados da minha relação com a Abordagem, vou me apercebendo que eles se configuram pra mim como uma encruzilhada, na medida em que representam duas faces que nem sempre tem em mim uma coexistência pacifica.

E é com a ambigüidade que dela decorre que colho as impressões que me disponho a relatar, na esperança de que elas possam ter um sentido um pouco mais coletivo.

Embora reconhecendo na Abordagem várias outras encruzilhadas de caráter teórico, metodológico e ato político-social considerando a nossa realidade de pais da América Latina, optei por considerar um aspecto bem mais particular, com o qual me sinto envolvida na medida em que me assumo como sujeito dessa história em construção.

Na minha experiência como docente de um curso de psicologia, tenho visto se repetir com freqüência uma situação que me preocupa. Ano após ano, tenho encontrado vários alunos que ao entrarem em contato teórico e vivencial com a Abordagem prontamente a identificam como um referencial de trabalho que lhes faz sentido, reconhecendo ns suas propostas de aço seus próprios valores pessoais e seu jeito de conceber a vida. A tentativa desses jovens profissionais de continuar sua formação, de modo contínuo e sistemático, esbarra com a dificuldade de serem raras, ou muito pouco conhecidas, as oportunidades para isso.

O que tenho assistido e uma boa parte deles buscarem outras alternativas, para as quais sobram oportunidades. E, somente, alguns poucos que se dispõem ao risco do um caminho mais assistemático continuam buscando enriquecer sua formação na Abordagem.

Sinto que esse é um caminho de difícil acesso e para bem poucos; um caminho que faz do anonimato a sua tônica.

Além disso, tanto quanto posso avaliar, essa é uma forma de se fazer pertencer em um grupo, de contornos tão imprecisos e indefinidos, que acaba dependendo de se chegar a ele pela mão de outra pessoa, que de alguma forma, tem com ele algum vinculo.

Acredito ainda, que essa situação não seja só a do iniciante, mas também de qualquer pessoa que tendo se interessado pela Abordagem deseje integrar-se a ela. Reconheço nessa forma de funcionar o valor, que para mim é indiscutível, do estarmos nos recusado outra forma de funcionamento que estabeleço a autoridade externa e instituída como critério de definição da competência.

Mas, ao mesmo tempo, receio que estejamos substituindo esses esquemas indesejáveis, por critérios bem menos claros de inclusão e de exclusão, que passam até chegar a se estratificarem com a mesma conotação dos ritos de iniciação dos grupos marginais, de grupos que seguem a parte.

Isso, a meu ver, aponta para uma marcada contradição interna do próprio grupo. Ao mesmo tempo em que o sinto, aparentemente, de braços abertos para receber de forma acolhedora, quem quer que chegue, sinto que ele se mantém de portas semi-cerradas, com pequenas frestas, para os que conseguem chegar.

Penso que certa dose de marginalidade talvez faça parte da natureza mesma da Abordagem me pergunto se a forma como estamos nos instituindo, aparentemente nos recusando a essa mesma instituição, não está definindo alguns elementos da sua própria identidade: a persistência para fazer valer a própria escolha, a tolerância para conviver com a ambigüidade dos contornos imprecisos, a paciência para com os momentos caóticos e a confiança para acreditar que esse processo vai configurar uma nova forma criativa de organização da Abordagem que seja coerente consigo mesma.

Mas reconheço também nisso um campo muito propício para o exercício do poder velado e não assumido, Constituir-se e definir a própria identidade pela marginalidade, valorizando processo, e não o produto, pode ser uma opção legitima. E existe um lado meu que claramente quer assumir esse risco.

No entanto, existe um outro lado meu que teme ver tudo isso desaparecer na indiferenciação. E a diferenciação, não só extra-grupo, como intra-grupo, o confronto das diferenças, para se atingir níveis mais complexos de integração, me parecem os caminhos inevitáveis do crescimento e do desenvolvimento.

Quando falo da diferenciação extra-grupo, me refiro a necessidade que sinto do ver a Abordagem superar sua relativa inexpressidade e assumir um espaço maior de confronto naqueles lugares que a cultura elegeu como formas legitimas de articulação do conhecimento e da práxis, quais sejam, os meios de divulga científica.

Quando falo da diferenciação intra-grupo, me refiro ao meu desejo de nos ver mais capazes de não camuflar sob a capa da aceitação incondicional, nossa dificuldade de confrontar diferenças, de precisar limites e de reconhecer competências especificas.

Para mim, tal como consigo ver agora, a perspectiva do desenvolvimento e crescimento da Abordagem passa por vários desafios, entre eles, esse que optei por destacar: o de não abrir de seus fundamentos e da sua auto-coerência, que hoje traz essa certa face do marginalidade, e ao mesmo tempo, integrar-se no fluxo da corrente, dispondo-se ao confronto para que do interior dessa contradição possa emergir com uma identidade diferenciada, construída pela sua ação concreta na busca da superação dessa mesma contradição.

Reconheço nessa minha opção de focalizar esse confronto quando percebo outros tantos, os sinais claros da minha própria tentativa pessoal de integrar em mim os dois aspectos nem sempre harmônicos da minha relação com a Abordagem, enquanto alguém que se identifica com seus referenciais teóricos, com seus valores e com suas propostas de ação, mas que também, enfrenta as dificuldades de concretização de sua práxis no papel de quem está voltada para o ensino e a formação profissional num contexto de produção de conhecimento e reflexão sobre ele.

Mas reconheço também essa perspectiva como um caminho que apesar difícil, me parece viável. Já pude experimentar a capacidade dos grupos de constituírem-se como organismos diferenciados, mesmo estando inseridos na cultura comum.

Por outro lado, todos sabemos das condições facilitadoras necessárias para que esse processo ocorra. E a meu ver, só a partir do compromisso pessoal de cada um com a facilitação mútua desse processo que ele poderá se concretizar.

Quero acreditar que a capacidade que temos procurado desenvolver, como pessoas o profissionais, do promovermos a facilitação, do crescimento, nos possa ser útil para facilitarmos o crescimento do nosso próprio grupo de pertinência e da Abordagem Centrada na Pessoa.

Essa parece para mim, uma perspectiva estimulante, dentre várias outras, e por isso acreditei valer a pena refletir e falar sobre ela.

Para finalizar minha fala, gostaria de dizer apenas mais uma coisa. Eu vi Rachel Rosenberg assumir esse desafio. E sei que o vi, mais ou menos como o caipira, da história do Guto, que viu mudar a cerca. E o vi com um engajamento que, por mais — que tivesse me custado decidir se deveria dizê-lo, não pude deixar de fazê-lo.

Mas em alguma coisa, muito importante, meu depoimento e muito diferente do tal caipira. Eu não sou a única testemunha e não me surpreenderia em ver tantos depoimentos, quantos foram as pessoas que encontraram Rachel.

Sua plasticidade podia conter aspectos muito particulares de cada um de nós. E como pioneira cumpriu a tarefa essencial de nos permitir nos encontrarmos. Sua irredutível confiança na capacidade do recriação do humano e sua harmoniosa integração em si mesma, fê-la não desistir do risco de aproximar tantas diferenças.

Agora estamos juntos. E uma certeza me muito forte. Rachel não escolheria por cada um de nós, o que fazermos com isso.

Publicado no Boletim da ACP – São Paulo – especial do II Simpósio da Psicologia Fenomenológica Existencial – USP – junho 1988