Ventos favoráveis estão soprando…

Maria Stella Dunshee de Abranches

Recife, outubro 1994

Resumo

Este trabalho tem por objetivo tecer algumas considerações sobre o momento atual da Abordagem Centrada na Pessoa, contextualizando-a dentro de um novo paradigma cientifico, além de fazer uma retrospectiva do panorama cultural no qual ela se formou e se desenvolveu.

Em seu período inicial, nos anos 40, a ACP encontrava um panorama cultural não muito favorável ao seu desenvolvimento. Nascia no seio de uma família que não estava muito preparada para recebê-la. O contexto cultural americano, basicamente pragmático e empírico, onde se duas forças da psicologia eram o behaviorismo e a psicanálise, não era, por assim dizer, o melhor lugar para o seu nascimento.

O behaviorismo que nasceu como uma reação à excessiva preocupação da psicologia com a introspecção como método para se chegar à consciência, valorizava o comportamento manifesto, o qual poderia ser medido e controlado através de estímulos externos, enquanto que a psicanálise, vinda da Europa, enfatizava os estímulos internos, mas que por sua vez, também controlariam o homem.

O homem estava preso, quer seja pelo meio, quer seja por si próprio. Nesse contexto, não havia saída para ele a não ser sucumbir ao seu aprisionamento.

Mas algumas sementes já estavam sendo lançadas, movimentos visíveis ou subliminares que resultariam na grande mudança de paradigma na psicologia que pudemos observar.

O existencialismo europeu cristão representado por Kierkegaard, o existencialismo europeu não-cristão representado por Nietzsche, a mística judaica da qual fazia parte, Martin Buber, a fenomenologia de Heidegger, a terapia da relação de Otto Rank, são algumas dessas sementes que mais tarde seriam suprassumidas na teoria da ACP e na de outras psicologias de base fenomenológica-existencial.

Na ACP encontramos o retomo a valorização da consciência de antes do behaviorismo, porém com uma diferença fundamental: é a consciência como uma vivência organísmica. Não é mais a consciência reflexiva num sentido socrático, mas sim uma consciência nietzscheana, de valorização do vivido.

Assim, diferentemente das correntes psicológicas que a precederam, onde o homem era passível de ser controlado pelos estímulos externos ou internos, a ACP traz para a pessoa a possibilidade de ser livre.

Para Rogers o critério de saúde é basicamente vinculado ao de liberdade. A pessoa saudável é aquela que consegue desenvolver uma liberdade experiencial e que pode sintonizar livremente na consciência a sua experiência organísmica a própria pessoa e fonte de avaliação e orientação para o seu comportamento.

Não há a possibilidade de manipukação e controle quando o processo do fluxo de vivência organísmica acontece plena e livremente.

Podemos entender porque a ACP não é uma psicologia valorizada por regimes autoritários, nem por sistemas arbitrários de poder. Ela valoriza a pessoa e somente a pessoa, como única fonte de avaliação fidedigna para si mesmo, na sua relação consigo e com o mundo. E é o próprio meio que irá facilitar ou não esse livre fluir da experiência organísmica. Num meio repressor e avaliativo a tendência do individuo é bloquear este fluxo. Dai a ACP ter desenvolvido em seu corpo teórico relativo e psicoterapia, atitudes que, assumidas pelo terapeuta facilitariam esse desbloqueio (os conceitos de empatia, consideração positiva incondicional e autenticidade ou acordo interno).

O momento atual, no entanto, me parece dos mais favoráveis a Abordagem Centrada na Pessoa.

Vivemos uma fase em que, apesar de não termos resolvido problemas básicos (me refiro a humanidade como um todo), e a condição humana ainda ser de certa forma deplorável em alguns aspectos, podemos perceber algumas mudanças.

No sistema econômico existe uma tendência à fusão de sistemas antigamente antagônicos. O comunismo ortodoxo e o capitalismo selvagem entraram em crise e vivem seus estertores finais. A social

democracia acena como uma fusão dos sistemas e com novas e variadas possibilidades.

Acredito ser a pessoa dotada de duas forças básicas: a individual e a social, precisando, portanto, desenvolver esses dois aspectos. Eles não se excluem, nem formam polaridades opostas como apregoam alguns sistemas econômicos, políticos, psicológicos e também sociais.

Essas duas forças interagem, se necessitam mutuamente e se complementam.

O homem voltado apenas para o meio, percebido através de seu comportamento manifesto, a esse homem faltaria a consciência de si, a valorização de sua subjetividade e de seus sentimentos. E o homem perdido no mundo, jogado ao mundo, como dizia Heidegger.

O ser desgarrado de seu mundo, voltado apenas para si mesmo, é a própria negação do mundo, já que o mundo só existe como produto da consciência humana. É o ser perdido em si mesmo, alienado de seu contexto e por isso sem poder compreendê-lo nem modificá-lo.

Assim a Abordagem Centrada na Pessoa traz em seu bojo a possibilidade da valorização da consciência de si e da consciência do mundo. Traduz em suas linhas a compreensão da importância da subjetividade sem perder de vista a objetividade, também tão necessária a nossa vida.

Digo que estamos num momento cultural dos mais favoráveis á valorização da ACP porque notamos que essa mudança de paradigma que ela representa, também está ocorrendo em outros setores da vida humana.

Estamos numa época de valorização da pessoa. Podemos notar este fato em vários segmentos da sociedade.

Na área empresarial, por exemplo, começa-se a perceber a necessidade de valorizar o ser humano para a obtenção do lucro máximo. Programas de qualidade estão sendo implantados com o objetivo de tomar os funcionários parte integrante e participativa do processo de produção da empresa.

A descentralização, o encorajamento ao trabalho de equipe é estimulo ao sentimento de orgulho pela participação no produto final, mudança do tipo de liderança, são características de um novo paradigma que requer a utilização de práticas possibilitadoras do desenvolvimento integrado do ser humano.

Se antes, para alguns, o mundo funcionava como uma grande máquina, com seus diversos setores, que poderiam ser observadas isoladamente, hoje o holismo nos aponta para a necessidade de observannos as interações entre os fenômenos para podermos compreendê-los na sua totalidade. Ou seja, as propriedades das partes só podem ser compreendidas se observarmos a dinâmica do todo.

Se antigamente pensava-se que haviam estruturas que seriam fundamentais, hoje pode-se ver a estrutura como a manifestação de um processo subjacente, dentro de uma teia de relações intrinsecamente dinâmicas.

Na observação dos fenômenos físicos vemos a subjetividade do experimentador influenciando no experimento, o que colocou abaixo teorias da neutralidade científica.

A ciência cede parte de seu poderio quando reconhece que poderá oferecer uma compreensão inteira e definitiva da realidade, diferentemente do modelo cartesiano que apontava para certezas absolutas.

E é nesse contexto, do surgimento de um novo paradigma que se insere atualmente a ACP.

E somente é possível essa inserção porque seus se encaixam nesses novos conceitos.

Apesar de reconhecermos a origem empírica e pragmática das idéias de Rogers, podemos evidenciar em sua obra diversos aspectos concordantes com esse novo paradigma que se apresenta.

O conceito de tendência formativa do universo, a subjetividade do terapeuta entrando no processo terapêutico, a negação do principio da neutralidade, a divisão de poder com o ciente, o fenômeno da relação terapeuta-cliente como fator de efeito terapêutico, são todos elementos pertinentes ao novo modelo paradigmático.
Mesmo posteriormente a Rogers, percebemos em seus seguidores a inserção no paradigma holístico quando se reconhece a influência que o ambiente exerce na relação terapêutica. Assim, não só a sala, os móveis, as cores, os ruídos, exercem influência como também a cultura, o meio lá fora, onde foram criados cliente e terapeuta.

Não se pode mais falar de terapia desvinculada do contexto social.

O caráter relacional é o ponto principal. Tudo se integra, tudo se relaciona. Os fenômenos de grupo apontam para algo superior á soma das partes. Não podemos lidar com grupos a partir do somatório dos indivíduos, mas sim como algo que transcende e que tem uma dinâmica própria.

O sentido de coletividade empurra em outras direções, trazendo novas dimensões a psicoterapia.

Em 1989, quando precisei escolher em qual das linhas de psicologia eu iria fazer a minha formação, de uma turma de aproximadamente 30 alunos, apenas cinco escolheram a linha da Abordagem Centrada na Pessoa, ou seja 1/6 da turma.

Mais tarde verifiquei que este fenômeno era comum a outras universidades do Recife e também a outros estado do Brasil. Descobri que anos atrás a ACP tinha sido muito procurada por alunos, talvez pela fato da novidade que representava, mas logo passou a ser considerada a terapia do colo, do hum-hum, etc… Caiu em descrédito por alguns meios científicos pela compreensão incorreta de seus pressupostos.

Realmente dentro da visão cartesiana e socrática do conhecimento não se pode ter uma compreensão maior da ACP, justamente porque ela significa um momento de transição, de passagem. Assim podemos dizer que Rogers teve uma inspiração existencial-fenomenológica a qual tentou sistematizar dentro de critérios empíricos a que estava habituado, ele encontra uma solução para o conflito entre o objetivo e subjetivo, de modo a não se eliminar por momento algum essas duas posições, pelo contrário, serve-se delas da maneira pessoal. A subjetividade e a objetividade constituem os dois elementos fundamentais de sua orientação terapêutica exercendo influência e complementariedade recíprocas. (PUENTE in Cury- 1993 p. 175)

Posteriormente Rogers estende sua teoria para outros aspectos: o ensino centrado no aluno, os grupos de encontro e os grandes grupos.

Foi a observação dos fenômenos que aconteciam nos grupos que levou Rogers a desenvolver seu conceito de tendência formativa. Ele amplia seu conceito de tendência atualizante para submetê-lo a um princípio gerador maior que transcende a esfera dos seres vivos.

Acredito que a Abordagem Centrada na Pessoa terá um espaço muito representativo nos anos futuros, principalmente no que se refere ao trabalho com grupos.

Vários acontecimentos apontam para isto, além do contexto favorável descrito anteriormente: a produção teórica de seus seguidores vem aumentando gradativamente, há uma penetração maior nos espaços acadêmicos, os eventos ligados a ACP. estão crescendo em número e em importância. Já existe uma fundamentação teórico-filosófica consistente, que a respalda e que a toma cada a mais conhecida e respeitada.

Ventos favoráveis estão soprando

Bibliografia

1. BARRETO, Carmem – Abordagem Centrada na Pessoa: Reconhecimento de pontos de abertura e de

direcionamento para uma visão holística da realidade – Trabalho apresentado no VI Encontro Latino Del Enfoque Centrado en La Persona, La Paz, Bolivia, 1992.

2. CAPRA, Fritjof, O Ponto de Mutação, São Paulo, Cultrix, 1982.

3. CURY, Vera Engler – Tese de Doutorado apresentada a Faculdade de Ciências Médicas da Universidade Estadual de Campinas, 1993.

4. GREENING Thomas C. (organizador) – Psicologia Existencial-Humanista, Rio de Janeiro, Zahar Editores, 1975.

5. HEIDEGGER, Martin- El Ser e el Tiempo, México, Madrid, Buenos Aires: Fundo de Cultura Econômica, 1926.

6. ROGERS, Carl – Psicoterapia e Relações Humanas, Belo Horizonte, Interlivros, 1975.

Trabalho apresentado ao VII Encontro Latino Americano da Abordagem Centrada na Pessoa, realizado de 9 a 16 de outubro de 1994, em Maragogi – AL — Brasil.