Voto Igualitário e Universal: A experiência de uma eleição à luz da análise da relação de poder. – A liberdade de Construir Conhecimento

Por Marcelo Ribeiro*.

Muitas são as funções da palavra. Não é suficiente, ou pelo menos a mim não satisfaz, dizer pura e simplesmente que a palavra tem a função de comunicar. Toda comunicação tem também seu sentido. Sentidos esses tão diversos quanto diversos são seus comunicadores.
A palavra, aqui neste espaço, emerge de um vivido de incômodo. Vivido este, que funda o sentido que se desdobra em algumas reflexões acerca da relação de poder entre professor e aluno e da construção do saber entre eles.
Antes de mais nada faz-se necessário uma breve contextualização da discussão que seguirá.
O incômodo por mim vivido surgiu após uma breve discussão com colegas professores e alunos a respeito da eleição para representante do colegiado de um curso desta universidade. A discussão girava em torno da natureza da eleição [Apenas os discentes poderiam ser representantes.]. Haviam duas propostas a serem votadas. Uma defendia o voto paritário, ou seja, pesos diferentes na representatividade entre professores, funcionários e alunos, haja visto a quantidade de professores (bem menor) e a quantidade de alunos. A outra proposta era o voto universal e igualitário, onde não existiria pesos diferenciados para professores, funcionários e alunos, ou seja, cada pessoa, independentemente de sua categoria teria voto de modo igualitário, sem peso.
Nas defesas das duas propostas alguns posicionamentos foram tomados pelos professores e alunos. E é a partir da reflexão da proposta do voto universal e igualitário que pretendo discorrer.
Somos, enquanto existentes, constituídos e constituidores a partir do poder e do saber. E como afirma Foucault, não existe o poder em si, o que existe são relações de poder.
Na perspectiva da psicologia da educação muitas discussões estão sendo desenvolvidas e ampliandas trazendo, de um modo geral e também implícito, a questão da relação (saber/poder) entre professor e aluno e o papel do professor no processo ensino aprendizagem.
Na perspectiva construtivista o poder do professor, enquanto instituição em relação com o outro, é colocado a serviço da potencialização do poder saber do aluno. Para tanto, faz-se necessário que o professor possa partir do princípio que o aluno pode construir seu saber. O professor é um mediador do processo ensino/aprendizagem, é um parceiro que torna acessível ao aluno o patrimônio cultural da humanidade de um modo crítico, que promove situações incentivadoras, mas que percebe tudo isso a partir da capacidade do aluno construir seu conhecimento. A capacidade de construir é do aluno e não do professor. Essa condição, Carl Rogers chamou de liberdade para aprender. Um dos pontos de partida é que o aluno precisa dessa liberdade para aprender a aprender. Obviamente, como pontuado, com a parceria e mediação do professor.
Apesar da distância que separa a proposta do voto igualitário e universal da questão relação professor/aluno e o processo ensino/aprendizagem, existem também aproximações.
A comunidade acadêmica é formada pela complexidade de relações vividas nela, por ela e através dela. Fora ou dentro da universidade. De um modo mais específico, a academia não pode se definir apenas por uma de suas categorias, direcionar seu sentido a partir de uma categoria, por exemplo, a dos professores. Alunos, professores e funcionários são expressões imprescindíveis da comunidade acadêmica.
Contudo, a posição de uma eleição por voto universal ou igualitário, por esta análise, não descaracteriza o equilíbrio das várias expressões da academia. Antes de mais nada é necessário pontuar que o aluno, não definidor único do sentido da universidade, tem como especificidade a condição de estar em formação, ou seja, ele está inserido num processo ensino/aprendizagem, mediado por um outro (o professor).
O processo ensino/aprendizagem não passa, como muitos sabemos, tão-somente por aspectos conteudistas.
O fato de optar por uma eleição universal e igualitária é partir do princípio que o aluno tem capacidade de construir seu próprio saber. A perspectiva educacional da universidade não se restringe apenas a sala de aula, mas constitui-se na praxe das relações que permeiam toda universidade. Uma eleição é também uma experiência e uma oportunidade de aprender, de construir saberes.
Na medida que os alunos podem votar de um modo universal e igualitário, nós outros estamos acreditando na liberdade de aprender deles, estamos colocando nosso poder (de professor, por exemplo) a serviço do poder potencializar a construção de conhecimento dos alunos.
Sabemos que não se trata de situar a discussão em termos de forças conservadoras e progressistas, pessoas que apoiam uma eleição paritária ou universal/igualitária, respectivamente. De fato é perigoso e injusto. A defesa do voto paritário, por parte de alguns professores, por exemplo, não quer dizer que esses professores sejam contra o aluno, que não acreditem na capacidade do aluno construir seu conhecimento. Mas quer dizer que no momento da discussão e da votação existem embates, confrontos de posições que passam, principalmente, por uma questão de poder. E é neste sentido que posições se formam, a favor ou contra.

P.S. Uma ressalva é importante. Não é nossa pretensão reduzir a discussão da natureza da eleição apenas sobre a ótica da psicologia da educação. Esta apenas oferece um modo diferente e interessante, a nosso ver, de compreender algumas das questões pertinentes a natureza da eleição.
Referência Bibliográfica:
COSTA, Antônio Carlos Gomes da. Por uma pedagogia da presença. Brasília:
Ministério da Ação Social. Centro Brasileiro para a Infância e
Adolescência, 1991.
FOUCAULT, Michel. Microfísica do poder. Rio de Janeiro: Edições Graal,
1990.
PENIN, Sônia T. de Souza. A aula: Espaço de conhecimento, lugar de cultura.
Campinas, SP: Papirus, 1994.
ROGERS, Carl. Liberdade para aprender. Belo Horizonte: Interlivros, 1977.

* Psicólogo, Especialista em Educação Especial, Mestrando em Educação, Professor de Psicologia da Educação do departamento de Educação da Universidade Estadual de Feira de Santana – UEFS.